A clareza tem o seu preço

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Rodrigo Contrera

Sou duplamente estudante na Universidade de São Paulo. Duplamente porque faço filosofia (graduação) e ciências sociais (pós-graduação) na mesma faculdade. Tenho conseguido um rendimento razoável em ambos os cursos, mas é bom desde já esclarecer que custo vários milhares de dólares ao erário público todos os anos, como todos os meus colegas. Não tenho bolsa (já tive) e portanto custo aquilo que todo estudante custa – mas em dobro. Estudo em dobro, também – acreditem.

Acompanho à distância o movimento dos professores da USP, que reivindicam aumento de salário. Pelo que sei, querem aumento de 54%, mais ou menos. Eles ganham pouco, isso é óbvio, sendo que doutores ganham menos do que eu, que tenho apenas curso superior concluído. Tenho também acompanhado à distância os atos públicos que, na semana retrasada, acabaram em pancadaria na Paulista, e que praticamente cegaram um fotógrafo do Agora!

Ninguém em sã consciência pode ser contrário a um movimento que exige melhoria de salários e de condições de ensino para professores capacitados. A USP é universidade pública, e como tal tem – ou deveria ter – como principal missão educar jovens que por razões as mais variadas não podem pagar cursos superiores em faculdades particulares. Creio, porém, que seja necessário trazer duas questões à baila, nem que seja para melhor avaliar os movimentos e o atual momento político.

Primeira. A USP vive de porcentagem de arrecadação do ICMS. Isso não cabe aqui ser discutido, nem tenho capacidade para tanto. O fato é que a USP vive de ICMS, e como autarquia não precisa dar satisfação dos seus atos ao Estado, até para evitar ingerências políticas. Decorre daí que a USP, para funcionar, tem tantos recursos quantos pode derivar do ICMS, e que ao menos teoricamente – sem avaliar as planilhas de receitas e gastos – em caso de gastos a mais só há duas possibilidades, mantida a atual situação quanto à origem dos recursos: gastá-los de forma diferenciada ou pedir aumento de recursos.

Confesso que não sei se os professores pedem aumento do ICMS. Infiro porém que se o movimento diz respeito ao governo do Estado ele deve dizer respeito a aumento de impostos. Mas isso não vem à tona, ao menos por aquilo que eu vejo. Por quê? Não sei, e não cabe aqui fazer suposições.

Há um outro ponto, porém. Na manifestação da Paulista, houve um grande ferido, que foi um fotógrafo do Agora! Pelo que se veiculou na imprensa, ele já era quase cego de um dos olhos. A bala de borracha disparada por algum policial do Batalhão de Choque atingiu o outro olho do fotógrafo, deixando-o assim quase cego e dessa forma incapacitado a exercer sua profissão.

Bom, não quero aqui ser mais um divulgador de comoção, mas enquanto assistia uma reportagem sobre o caso, no portal em que trabalho, soube pelo meu redator-chefe que tal fotógrafo é freelance. Moral: ele está na mão, não tem direito a nada, apesar do fato de que o jornal em que trabalhava haver com grande probabilidade auferido lucros para sua imagem em função daquilo que aconteceu.

O fotógrafo em questão é pessoa responsável e acredito que soubesse em que se metia ao cobrir a manifestação. Se soubesse que iria dar nessa merda, muito provavelmente teria evitado ir. Não sei por que ele foi à manifestação, nem se ele ponderou os riscos que ela implicava. Sei, porém, que ele é usado pelo movimento dos professores, pelas emissoras e por toda a parcela da sociedade civil favorável ao movimento como exemplo da truculência policial, que reputo evidente.

Acontece que o problema real do fotógrafo é particular. É ele quem perdeu a capacidade de trabalhar. É ele que não receberá qualquer seguro pelo acidente – seguro esse que a empresa lhe deve por ser profissional ao seu cargo. É ele quem terá de bancar sua recuperação. De todos esses processos todos os envolvidos na truculência do ato de que foi vítima estão desincumbidos, ao menos formalmente.

Gostaria que o movimento dos professores fosse mais claro em suas reivindicações, dizendo à mesma sociedade que reprova a truculência policial qual a consequência derivada PARA TODOS do atendimento de suas reivindicações. Gostaria além disso que todos os envolvidos nas consequências de tais movimentos – professores, jornais, sociedade civil – não ousassem tirar o corpo fora face a dramas como os do fotógrafo, o único até prova em contrário que perdeu seu futuro no confronto do qual todos tiraram – mesmo sem querer – alguma casquinha.

Rodrigo Contrera é editor-assistente de espanhol de um portal de futebol a ser lançado em julho.

Post Author: revistapartes