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A ostra e a pérola fina

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A ostra e a pérola fina

hamiltomcardosoHamilton Bernardes Cardoso foi jornalista e trabalhou como repórter especializado de polícia no Diário Popular, ex-repórter do Povo na TVS, canal 4, TV Cultura, canal 2, jornal  Versus.  Nasceu em Catanduva, interior paulista, em 10 de julho de 1954.

Representou o Brasil em vários encontros de organizações e partidos políticos da África, Caribe, Europa e EUA, na Inglaterra onde proferiu uma série de palestras.

Foi fundador do Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial em 1978 – hoje MNU, consultor de Comunicações da OAB e do Instituto da Mulher Negra, Geledés e co-fundador da revista Lua Nova/Cedec.

Em 1981, no Brasil, criou a revista Ébano, e organizou, junto com o dançarino Ismael Ivo, a passeata antirracista do silêncio no campus universitário da Universidade Federal da Bahia – UFBA, durante a SBPC de Salvador, onde foi proferir a palestra O NEGRO NOS MEIOS DE COMUNICAÇÕES.

Em 87 participou como coautor, do livro Movimentos Sociais na Transição Democrática, editora Cortez, organizado por Emir Sader.

Organizou, em 1991, na serra da Barriga, em União dos Palmares, a Missa dos Quilombos.

Poeta, jornalista, escritor foi atropelado no dia 1º de maio de 1988, dia do trabalhador. Isto lhe marcou a vida. O acidente deixou sequelas. Hamilton suicidou-se em novembro de 1999.

Correspondência  ao Continente de Origem, aberta a Nelson Mandela

Meu caro Rei e presidente Mundial:

Quero manifestar e demonstrar-lhe a minha gratidão ao Cedec – Centro de Estudos e Cultura Contemporânea do Brasil. Eles me ajudaram a escrever-lhe esta carta. São meus amigos e o José Álvaro Moisés, de lá e, hoje na Inglaterra estudando, contribuiu decisivamente para que eu pudesse retirar as primeiras gotas de lama do país – cadáveres de todos nós – dos ombros. Ele me revelou – e eu demorei a concluir – que esta história de “jeitinho brasileiro” e da “malandragem compulsiva inerente do negro” são cadáveres siameses em nós.

O Marcos Faermam, um jornalista judeu como a maioria dos personagens de Richard Wright e da vida antirracista negra norte-americana além de mostrar-me, indicando livros para ler e me dar tempo para faze-lo – garantiu, e criou condições para eu pensar e refletir sobre eles. E me convencer que eu sou uma ostra. Convenceu-me também de que o que eu gosto mesmo é jornalismo literário, e que poderia fazer uma grande reportagem. Tentei. Este é o esforço das ostras – e eles as nossas esperanças.

Tudo depois que o ex-deputado federal Adalberto Camargo me financiou os estudos na faculdade e o Wanderlei José Maria leu para mim a frase do Marx que diz que “quem tem fome não tem tempo para ver o por do sol”. Ele, o Wanderlei, me ensinou a escrever o que realmente penso. A Dra. Iracema de Almeida deu-me o primeiro empurrão e o “catiça” e a Deodô, meus pais, carregavam-me, sobre os ombros deles. Ela pagou matrícula da faculdade. Caí no mundo.

O meu irmão Airton (fale rápido!) B. Cardoso, ao meu lado era invisível. E continua. Ele está morto e é um cadáver, belo e leve, como o do Eduardo de Oliveira e Oliveira, o sociólogo que dizem, suicidou-se porque não aguentou, mestiço, a tortura de ser negro e refletir sobre si mesmo e viver entre e, nos Dois Mundos. Ele me abriu as portas para escrever aquele artigo que o Francisco Weffort, com o Paulo Sérgio Pinheiro, Passado sem Mácula!, adoraram. Ele abriu as portas da minha autoconfiança.

De qualquer modo, se não fosse o Cedec, onde há mais de meia década eu e o Weffort – que conversava muito comigo e me revelou, mostrando a inutilidade deles, que um dia eu teria que derrubar cadáveres – ele escreveu sobre isto em relação ao socialismo, sem o Cedec eu não teria como lhe entregar esta carta. Ela poderia ser mais um cadáver da minha vida. E diante dela. E eu o desconheceria. Não saberia que estes defuntos existem.

Como você vê, eu estou por conta própria – mas nem tanto assim. O Orestes Quércia, ex-governador, quando eu estava quase afogado – e com a ajuda do ex-secretário dele, o Oswaldo Ribeiro, negro como nós- mostrou-me como sair do lodo. E a minha companheira, a mulher, Maria Cristina Brito Barbosa, sempre olhava para mim cuidadosamente e, por receio, talvez, – ela é branca – não deixava eu me liberar repentinamente dos entulhos. Ela temia, em mim, um choque anafilático e a loucura em minha mente. Eu seria um dos cadáveres dela. E Ela sabia que eu precisava do equilíbrio que você, meu caro Rei, demonstra. E também que eu não sou – talvez não tenha nascido para isto – um Estadista. E antes do meu isolamento – nos buracos das periferias repórter do povo – eu vi a loucura mental e a miséria (é uma loucura!) social dos descendentes dos seus compatriotas escravizados. Como muitos eu colocava a mão na cabeça e chorava… Você estava preso na África do Sul.

Mas como bom e fiel súdito, eu lhe peço: lembre-se sempre desta contribuição do Cedec. Nele, eu tenho amigos de verdade. Não que eles não tenham compromissos com a branquitude deles, mas é que a branquitude –  e a minha companheira me ensinou – não é como a negritude: uma condição.  Eles, e muitos deles – a maioria dos que tenho – são meus amigos.

Um ex-governador, por exemplo, se elegeu sendo chamado de brega. E Ele, que agora “e um dos homens mais poderosos deste país, gargalha com o porta voz, à respeito disto – a acusação ou xingo. E ele é adorado e admirado, por uns, por muita gente, inclusive, que discorda dele na política – com raiva e inveja, até. E foi rindo e gargalhando dos acusadores, que ele construiu o prestigio o poder e a tranquilidade. A Beatriz do Nascimento, a socióloga, do filme Ori, é a melhor que conheci na área e invisibilizada, por bem menos é o que é. Ela não matou ninguém – nunca foi chamada de japonesa, apesar de Ter os olhos puxados. E eu penso, às vezes, que ela deglutiu ou teve a língua deglutida…

Aliás, falando dos meus amigos, principalmente os do Cedec, lembrei-me da historiadora Maria Victória Benevides – que é de lá -, e eu a ouvi muitas vezes citar o Getúlio Vagas, que dizia: “Aos amigos, tudo, aos inimigos, a Lei.”

Eu não sei, e gostaria de ouvir ou ler a sua opinião à respeito, sobre o ditado do Getúlio Vargas, pai dos pobres -, se ele é certo… O fato é que é assim que as coisas funcionam aqui no Brasil, na democracia racial.

Se eu lembrasse, antes de lhe escrever, talvez eu pudesse, ao invés desta longa carta, enviar-lhe um bilhete com aquela frase. Ela sintetiza o Brasil e os mitos da de democracia racial e do país cordial. E, ao que parece, é no que o Frederico quer transformar a África do Sul. O De Klerk. O nome dele é Frederico, não é? O nome é popular no Brasil…

Mas existe o Mandela lá, – a Pérola, e o ANC. São populares lá…

(O que eu penso sobre LÁ é positivo – e sua passagem, ela é “purificadora” pelo Planeta. E sobre o Conselho, acho que você dirá o seguinte: “TEMOSQUE MUDAR A LEI.

É por isto que eu gosto de afirmar: TEREMOS A NOSSA CHANCE.

Aliás: acho que criarei um jornal com este nome. Este, esta carta, é o registro. O meu registro de nomes, marcas e patentes. Direto com o Rei.

Bem…, agora  eu vou pegar o meu ganzê e o ganzá e ao invés de Não sei por que sou tão preto e azul, de Louis Amstrong, eu vou ouvir a festa para o rei negro. Com a minha mulher…

Afinal, o Mandela é tão preto, mais azul que eu. E eu sei o porquê disto…

Os dois Mundos

Meu caro: estamos organizados, no Brasil. Temos os nossos movimentos sociais, integramos os Partidos Políticos em comissões esportivas e o Estado em Conselhos e Coordenadorias especiais municipais ou estaduais, ou Fundações e repartições específicas, para organizar a nossa gente. Mas existe o Rap, são os rappers da Massa que em São Paulo se desenvolveram à partir dos EUA, mas foram impulsionados pelos FATOS do Zimbabwe. São do outro mundo!

Ele é formado pelos sobreviventes do extermínio de crianças, colocado em andamento nos últimos dez anos. O jornal da Tarde, de São Paulo, do dia 19 de julho de 1991 entrevista um, e o pai de outro deles, Bezerra da Silva, o cantor dos bandidos, e revela isto: eles estão revoltados. O jornal afirma que eles são os “sem nada”. Basta ser sensível: eles são uns macacos!

Meu caro:

Eu sou jornalista e repórter e você, advogado e ex-preso político, atual presidente do Congresso Nacional Africano nasceu, viveu, foi criado e estudou; defendeu, ou tentou defender as causas justas na África do Sul, colonizada por diferentes nacionalidades europeias que se impuseram ao mundo e transformaram o seu país, onde criaram o sistema do apartheid, no lodo da civilização. O seus antepassados esperavam que você fosse um homem, e eles fizeram de você uma ostra…

Existe um samba no país onde nasci – dizem e eu acredito que é meu – que diz o seguinte “o ouro afundo afunda, madeira boia por cima; a ostra nasce do lodo, mas gera pérola fina…”

O seu país deu ao mundo os mais belos e os maiores diamantes da humanidade e o meu, o ouro – ou parte considerável dele – que foi necessário, durante o mercantilismo para que surgisse o capitalismo – este tipo de economia tão contestado desde a Europa, condenado por milhões de pessoas, mas que se impõe cada vez mais, de forma definitiva sobre todos. Muitos o abominam, mas vários deles, quando podem, dele se apropriam. A escravidão, aqui no meu país, que atingiu a maioria dos meus antepassados de mais de três gerações, que custou caro até hoje, acabou oficialmente em 1988, dia 13 de maio, mas até hoje uma frase perturba-nos a vida: “todo mundo tem seu preço…” (Conduzindo Miss Dayse- filme dirigido por Bruce Beresford). Nós já não custamos nada. Deixamos de ser VENDIDOS

Mas eu não escrevi para fazer digressões. Todo negro, digo a maioria, tem esta tendência, de querer falar de tudo de uma só vez. E se prejudica por causa dela. Mas eu, um prejudicado como todos os negros do mundo até Collin Powel, que é o chefe do Estado Maior dos EUA – atuais donos do mundo e que há algumas semanas decidiram tirar a África do Sul do isolamento – também tenho esta tendência. Escrevi para lhe falar do Brasil, – o meu país.

Você, que nasceu confinado no seu país, foi preso depois do massacre de Shaperville e, mais confinado ainda numa prisão, ficou nela por 27 anos, desde os 45 – de vida confinada pelo apartheid, submetida a uma maior -, foi à força no fundo do lodo onde, certamente se encontrou com outras ostras. Dentre elas, por causa do seu reconhecimento como líder e dirigente delas e de outros é, certamente, a mais fina das Pérolas – Você poderia, e nós sabemos que até por razões táticas, beneficiar-se como o fez e corretamente o guiano, sul americano, como eu, E. R. Braithwaite, da mania dos racistas de todo o mundo que, na África do Sul recebeu o título de Branco honorário.

Ele denunciou, a partir desta brecha, (ou honra, sei lá), a tragédia sul-africana, uma tragédia da humanidade deles e não nossa. Mas você, um negro, negou-se. Ninguém é o que não é. Você combateu a tragédia.

Recentemente um brasileiro, filho de imigrantes japoneses, Terumi Maeda, que foi para o Japão trabalhar na Honda do Japão, foi contratado lá como imigrante, entrou em depressão, visitou uma japonesa – que dizem, ele queria conquistar ou seduzi e foi recusado. Ele a estrangulou. Agora corre o risco de ser condenado à morte.

Os jornais brasileiros disseram algo interessante: ele tinha cara de japonês, jeito de japonês, mas não era.  Era brasileiro. O ex-embaixador guiano que foi condecorado com o título de “Branco Honorário” por sorte não acreditou na história. E denunciou o fato em um livro publicado em 75 na Inglaterra, com este título: Branco honorário. Ajudou a matar um pouquinho do apartheid.

Aqui no Brasil, onde o racismo não é e nunca foi legal, – é péssimo, por sinal – existe a condecoração, concedida no plano individual e emocional – o Negro de Alma Branca – que foi rejeitada, inclusive, pelos negros da África do Sul e é utilizada para muitos dos nossos, até publicamente. Mas você, ao que me consta, e pelo que demonstra, rejeitou as duas…

Tudo isto, meu caro, o torna uma Pérola Fina.

Eu, que também sou eu e as minhas circunstâncias. – no caso não importa a qual estou me referindo -, viví a experiência do isolamento. E , ao sair dela, forjei uma frase: “A justiça é uma prerrogativa dos poderosos; os fracos estão condenados a conviver com a injustiça…” Clifford Beers, pg. 150, cap.233). Você meu caro não conviveu com ela desde os 45, mas viveu-a na essência. E ao resistir fez-se grande, forjou-se, ao que eu tomo a liberdade de defini-lo, como o primeiro Estadista Mundial. Me deixa feliz, em quaisquer circunstâncias, a sua visita, por que você, o símbolo mundial da liberdade contemporânea, é negro. Eu também sou negro e o fato de você simbolizar aquilo, mostra-me que um dia poderei Ter aquilo que, no Brasil fomos privados, sempre, desde os nossos primeiros antepassados, de conhecer: a liberdade….

Você também foi, até mais que todos nós. Mas se mantém equilibrado, ao menos aparentemente. E não importa a cara, a cor, a cultura ou a tradição nacional de quem o olhar. Ele sempre vai concluir: este homem sim, ama a liberdade. E todos nós a amamos, nem um pouco a menos que você, principalmente quando se trata de nós mesmos e da nossa própria liberdade. Mas a impressão que temos, todos os seres vivos e racionais, principalmente os que conhecem as circunstâncias internas e pessoais do racismo, depois as do isolamento, e fundamentalmente as de prisão – o que te confesso, desconheço – é que a sua lhe custou mais caro. As contas demonstram-no: aos 30 você entrava no que muitos chamam de a idade de ouro; fez 40, que muitos dizem que é o segundo nascimento, e foi para a cadeia quando eu fiz dez. Enfim…meu filho caçula tinha cinco anos quando você saiu da prisão.

A sua liberdade, meu caro, parece-nos – o que, de fato, para você pode ser até frustrante quando avalia o que já perdeu e jamais lhe será devolvido – dar mais tesão. E você continua casado… É fantástico! Eu queria – não da forma que você chegou a ela – ter esta liberdade. Ela é grande. É grandiosa…

Eu lhe escrevi porque, separado por fronteiras linguísticas e protocolares, além das necessidades nacionais dos povos e dos governantes dos nossos dois países, não poderemos conversar. Eu gostaria, mas a imprensa e os meios de comunicação do meu país não me ajudam a conhecer mais o seu, – o modo de vida, etc. e etc. – e lhe falar do meu, que o convidou oficialmente para nos visitar. Sei que não lhe falaram das ostras daqui. Principalmente porque não há nenhuma vivendo presa porque sistematizou, como os seus compatriotas da África do Sul, ideologicamente, o protesto contra a dominação racial. Ao contrário: o que não vão lhe dizer, – com menor cinismo porque nós modificamos, ainda que pouco, a situação por aqui e o governo racista da África do Sul se inspira em meu país para manter a dominação dos de lá, no seu país, – eu digo. Ou melhor: escrevo-lhe. É o que sei fazer…

Aliás, coisa rara por aqui. Eles ficam estupefatos quando vêm um de meus compatriotas, negros como nós, escrevendo. Mas somos muitos os que escrevem, inclusive poemas, alguns parecidos ou inspirados nos que foram produzidos durante e para fortalecer as lutas libertação da África ex-portuguesa. Existem ainda muitos outros repórteres, – mais jornalistas e, – bem melhores, no sentido da qualidade técnica e intelectual, que eu. Uma repórter de TV, a Glória Maria, mais preta que nós e , naturalmente muito mais simpática, porque além de tudo é belíssima, em revista recentemente publicada em revista especializada, de um amigo meu, que em 78 fez um documentário para a TV sobre a nossa família negra falando do racismo no Brasil, ela aparece como repórter de TV, a telerepórter que desperta maior simpatia e confiança no público. Mas na imprensa cotidiana, acessível ao público comum, o fato foi irrelevante quanto uma doméstica que até os 25 anos trabalhou por salários miseráveis (como a minha mãe) e, ao contrário da minha mãe que é uma eterna honesta, ela começou a roubar a patroa. Foi presa como falsa doméstica.

 A verdade é que eles não acreditam que sabemos escrever, e pensar, e muitas vezes passam durante toda a vida querendo nos ensinar a fazer tudo – o que seria muito bom se fosse mera generosidade deles, mas não é. Eles partem do princípio que nós não sabemos fazer nada, nunca fizemos nem tivemos sequer civilizações ancestrais – omitem e matam os seus avós, meu caro – e só reconhecem o que fazemos quando o imitamos. Talvez por isto tenham dado o apelido de “Macacos”, o que aliás serviu para a identificação, histórica até, de uma das capitais das experiências, talvez a maior de lutas de liberdade e anticolonial do Brasil. Mas no passado eles a desqualificaram hoje tentam ignorá-la, e só a duras penas vamos reconquistando, inclusive a nossa história – o que, suponho, é similar a um dos problemas inventados para vocês. Desenterremos o nosso passado e a nossa história. Quero exibi-las.

O meu amigo Prioli, Gabriel, daquela revista que falou da Glória Maria, fez algo interessante. Colocou, na mesma edição, uma entrevista com o Bernard Shaw, Shaw para eles, (da CNN, que cobriu a guerra e a humilhação do Iraque). Ele, fala basicamente sobre jornalismo e, como a Glória Maria, priva-se de falar sobre o assunto raça, por razões táticas naturalmente, porque somos obrigados a ignorar a nossa cor e suprimir os sentimentos de solidariedade raciais se quisermos viver. É nisto, aliás, que se baseia um ditado muito comum entre nós: o inimigo do negro é o próprio negro… Nós o repetimos num sentido muito familiar, mas eles utilizam-no para justificar, inclusive os conflitos étnicos entre africanos da África do Sul. Enquanto a esquerda brasileira acha que os bascos lutam, “erroneamente”, – dizem, por libertação nacional, como os irlandeses na Inglaterra, ela mesma, a esquerda qualifica de guerras tribais o que ocorre na África do Sul. Quando se referem ao apartheid dizem que aí trata-se de uma “incivilização” de brancos retrógrados. Ou falta de generosidade. Dizem, por exemplo que o racismo no Brasil “foi mais suave porque os portugueses eram católicos”. Até parece que não entendem de economia ou geopolítica e da geopolítica do desenvolvimento recente, dos últimos séculos da humanidade.

Você e outros do continente – meu de origem, – não sabem disso e de muitas outras coisas – (alguns sabem, tenho certeza!) – porque estivemos isolados – muito isolados. Na década de 40 um sociólogo negro, Artur Ramos, que escreveu sobre o Brasil, e pouco sobre raça, disse que contra os negros, existe no Brasil, uma CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO… Bem, a sua visita muda, e talvez reverta, o quadro. Com você reatamos, após séculos, os laços com alguém que tem o poder e autoridade real no continente africano.

Nós, os negros do Brasil fomos involuídos e – em termos de conhecimento ou compromisso da África, e como eles conhecem a Europa – estamos na idade da Pedra. Por isto, se é correto o que James Baldwin dizia sobre os EUA, que todo branco tem um negro e todo negro tem o seu branco e, por isto, somos desigualmente subdesenvolvidos, não se assuste se um de nós se referir a você como chefe, outros como rei, e ainda como Presidente ou estadista mundial. Nunca estivemos, nem perto do poder e, por aqui, com raras exceções, não sabemos sequer como funciona e o que exatamente é o poder…Avalie, e julgue-nos por sua recepção.

Mas o que mais me emociona em sua visita, mais que pelo símbolo que você é, – e eu espero tocá-lo e até ser fotografado ao seu lado, meus filhos vão ficar honrados – é que ele já vinha sendo preparado no inconsciente coletivo. Na minha infância dancei um samba, e cantei, chamado Festa para um Rei Negro e agora que não posso dançar muito, outra música, que eu diria é da Nova Consciência Negra, diz que ” O negro coloca a mão na cabeça e chora. E chora a falta do rei…”

Bem… durante alguns dias, enquanto você estiver aqui não vamos chorar; vamos rir e gargalhar, dançar, mas depois quando você se for vou me lembrar do surgimento em seu país, quando você estava já há uma década e quase meia na cadeia, do Movimento da Consciência Negra que surgiu em seu país, onde Steve Biko dizia à todos os negros da África do Sul: NEGRO:VOCÊ ESTÁ POR CONTA PRÓPRIA… (Um espírito que se achou a si mesmo. Cliford W. Beers. Cia Ed. Naciona, 1967). É assim que estamos, e vamos continuar com a sua ausência, no Brasil.

Vamos cantar só aquela música e colocar a mão na cabeça. Seremos só Consciência. Nós queremos ser mais concretos. Duros, talvez… Mas, repetindo alguém: o que fazer?

E você sabe como os negros dançam: colocam as mãos na cabeça também, mas soltam-na e ao corpo. É um prazer todo especial que só os animais da África e das lembranças permanentes da liberdade que eles e, exercem correndo no meio da mata, ensinam a exercitar. O problema, e a vantagem, não nossos, são deles. É que dizem que temos a memória curta

Mas acredito, e penso que todos acreditamos, que o ideal é comemorar, antes e durante, pelo menos, a sua passagem no Brasil. Eu tenho lido alguma literatura kardecista, uma forma de sofisticar e tronar mais deglutível os meus comentários à respeito das nossas tradições – a minha família tem muito macumbeiros e pensa como macumbeiros -, e eles, os kardecistas, originariamente franceses, dizem que a vida é uma passagem pelo planeta. E nós os descendentes de africanos, ou originários, somos os purificadores do planeta

Sei lá. O problema é como esta purificação de um planeta inteiro, por nossa conta, ocorre. Ela nos custou muito caro, alguns milhões de companheiros…

O pior, meu caro, é que a maioria deles, ao contrário da África do Sul, onde um dos auges da luta política, inclusive, ocorre nos funerais dos injustiçados, no Brasil eles ficam jogados pelas ruas. Este país, se você passar pela Baixada Fluminense talvez possa ver, é um verdadeiro cemitério de negros. O governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, disse que denunciará os assassinatos em massa de negros, no estado dele, durante o encontro mundial para a preservação do meio ambiente que se realizará em 92, mas até agora não tomou a iniciativa de construir, lá, um cemitério dos injustiçados. Esta, talvez seja uma forma de marcar a memória das populações de todo o planeta que, desde então saberão que não podem matar milhares ou milhões de negros anualmente para que os cadáveres fiquem nas ruas pelas cidades de todo o país. Saberão que não cabem todos naquele cemitério que a seguir a lógica tradicional, o país é ou será um cemitério de negros.

E agora, depois que os nativos das Américas, mestiços de espanhóis, resolveram entrar no mercado, à moda deles, com o único produto que os europeus deixaram à disposição quando da ocupação do território – a droga e drogas do continente – e os europeus e norte-americanos incluíram novos vícios nas vidas deles, e as polícias do primeiro mundo decidiram reprimir o tráfico internacional, também os africanos serão vitimizados. E que o Brasil, um país estrategicamente bem situado, que já foi entreposto comercial da potências econômicas mundiais, com fronteiras terrestres com a maioria dos países latino-americanos, e e oceânica com toda a África do Ocidente, foi colocado sob suspeita. E, apesar da máfia ser italiana, somos os primeiros suspeitos. Alguns nigerianos já foram presos: nós somos mulas e, como dizia Drake Koka, da Consciência Negra, carregamos nas costas o peso da história. Muitos da Consciência Negra, talvez a maioria, eram, religiosos. Agora nãos sei, mas o conceito de Koka, então nos EUA, em 78, que lí em uma revista marxista, é semelhante aos dos kardecistas que nos identificam como os “anjos purificadores”. (Este jogo e esta brincadeira intelectual, às vezes, me deixam com vontade de aderir ao Islã e dizer que eles são os demônios da humanidade. Mas não devo e não faço: se o fizesse eu mesmo me acusaria de racista. E eu sou contra este mal)

E se você não sabe, os “mulas” são os carregadores de drogas e operários do tráfico de drogas e entorpecentes que, por causa de uns trocados em relação ao dinheiro e aso lucros materiais que geram até sociais, como o caso do colombiano Pablo Escobar, ou dos ingleses que há séculos promoveram a guerra contra os  asiáticos, os mulas carregadores de drogas se submetem às maiorias às maiores humilhações. Certa vez a secretária do jornal onde eu trabalho me comentou que uma moça viajou de um país a outro carregando o cadáver de um bebê cheio de droga na barriga costurada.

A descoberta só ocorreu porque alguém suspeitou do fato do bebê não chorar. A mula, no caso, era branca, o que demonstra que não somos os únicos, nem os últimos, injustiçados do planeta. É claro, preocupa-me o risco de, como ocorreu com Idi Amim ou os judeus, discriminados em todo o mundo e na história e agora discriminadores de Palestinos em Israel, em sermos tão próximos, por se tornarem inúteis, e não por matá-los ou encarcerá-los numa prisão, é com os acusadores. Sem vítima – é uma lei da polícia – não há acusação… Penso: não deveriam, também, existir suspeitos.

Mas não é o quer acontece. Existimos nós, os nossos ombros, a história e, nela, os nossos cadáveres. Somos ostras, e que eles pensam é uma droga!

Imagino que você gostaria que eu me estendesse e falasse mais do Brasil atual. É o que todos os negros gostariam de saber a respeito deles próprios. Afinal, se você pegar um dicionário brasileiro verá que o termo “zumbi” refere-se a morto—vivo, um símbolo vudu do Caribe, originário da África como os escravizados que levaram esta bela cultura para lá. Existem milhões de brasileiros como “zumbis” pelas cidades. Eles andam nas ruas, tomam água, defecam, urinam, carregam crianças e até trabalham. Estão semimortos até, mas não vivem e nem nunca viveram. Outros, numa situação pior: não fazem nada de produtivo, não sabem o que fazer, para onde ir ou mesmo quem e quando vêm. Ou fazem de conta que é assim. Não conseguem estabelecer prioridades nas vidas deles. As vezes, e não são poucas, eu me sinto assim e ando ao redor de mim mesmo, com as minhas coisas desorganizadas e os lixos se amontoando à minha volta e sobre a minha cabeça. Eu digo, e escrevi um conto ou uma crônica, – sei lá como definir – sobre isso e chamei-a de “Os cadáveres”. Será livro, espero. E, fora do conto eu chamo de lixo todos esses cadáveres que carregamos.

O Gabriel Garcia Marques no livro Cem anos de solidão, ao que me parece, falou sobre isto. Ele se referia a latino-americanos, mestiços de nativos com espanhóis, e eu não a lí, mas comentando com alguém fui informado. E fiquei – agora eu – estupefato, de saber do fato. Isto significa que eles não são tão inocentes como James Baldwin disse em Da Próxima Vez o Fogo. Sabem que temos cadáveres e, como eu digo no meu texto, os negociam conosco. E ficamos no prejuízo porque, zumbís, sentimos o peso deles, daqueles e outros cadáveres.

Mas estes milhões de zumbis que circulam pela cidade, pelas ruas e pelos buracos do país atual são na verdade os ‘deserdados sociais do Brasil”.

 

Outro aspecto que você deve aplicar quando lê sobre o Brasil e os problemas sociais enfrentados e vividos pelo país. Este século XX foi um século de migração interna. Desde a revolta dos malês, em 1835, na Bahia, quando africanos islamizados ou islâmicos escravizados começaram a ser vendidos entre os compatriotas deles, proprietários das regiões sul e sudeste. Acabara aquela história de comprar semi-clandestinamente escravizados, da África, e entregar no Brasil. O contrabando mundial, legal, desde então, deixou de ser de seres humanos para ser de produtos reais. O contrabando de gente ocorria dentro do Brasil, o que aliás foi bom porque inflacionou os preços do trabalho escravo fortalecendo as adesões de liberais às idéias abolicionistas que aqui foram bem sólidas dentro do status quo. Foi uma forma mais primitiva de manifestações localizadas, de leis de mercado como ocorreu recentemente e ainda ocorre na África do Sul., forçando a supressão das legislações retrógradas, lentas e graduais, do apartheid. No fim, como dizia um cientista europeu antigo: na vida nada se cria, tudo se transforma.

Um comunicador brasileiro, já morto e um doa cadáveres mais suaves de se carregar, o Chacrinha, fez sucesso afirmando na TV na década de 70, que “na vida nada se cria, tudo se copia…”

É importante até, vocês recuperarem cópias dos programas dele porque, além de muitos divertidos, foram gravados na época em que a África do Sul começou manifestar, no governo, o interesse de estudar a democracia racial brasileira para aplicá-la como método de “perestróika” na África do Sul. Ele fala com graça e de forma divertida, do troca-troca da humanidade… E mostra quem vocês poderão ser.

Muito bem: depois de considerar este elevado índice de imigração européia para o Brasil você poderá entender por exemplo, e fazer as elucubrações sobre as naturezas metodológicas que determinam a ausência de uma história, dos trabalhadores brasileiros, pré imigração européia. Os nossos explorados só têm história de lutas depois da chegada dos italianos anarquistas, que se concentraram no sul do país e foram duramente reprimidos pelas polícias locais. Alguns historiadores, mais críticos do país, dizem que a partir de então, após a imigração, ocorreram as primeiras greves e que elas se tronaram casos de polícia. Talvez fosse interessante você consultar um cara brasileiro e branco, sério como intelectual, Francisco Foot, que com Victor Leonardi, escreveu um livro de teses universitárias, História da Indústria e do trabalho no Brasil. Ele fala de greves pré e durante a imigração, dirigidas por escravos ou com eles. Você vai descobri que existe uma espécie de “buraco negro”, que não só na história como na identidade nacional, principalmente dos explorados.

Quanto aos exploradores, junto com estas leituras e pesquisas talvez – o Congresso Nacional Africano tem gente extremamente competente e não tão influenciada pelo racismo para fazer isto – uma verificação na história da Europa, desde as descobertas, vai lhe permitir uma melhor caracterização da identidade deles, e as bases de sustentação dela, – neles.

Bem, mas se você quiser conhecer a identidade histórica dos trabalhadores brasileiros, do século passado para trás você terá, é obrigatória, um leitura da obra de Clóvis Moura, o maior historiador dos oprimidos brasileiros. O livro básico que ele escreveu foi Rebelião das Senzalas. (Mas existe também “As raízes do protesto negro”). É uma reportagem sobre o Brasil que você gostaria de conhecer e que muitos que exercem ou são cúmplices do poder, até na oposição brasileira, não querem que você conheça. É que eles, Que não são inocentes, sabem que as economias, e não só elas, estão se internacionalizando e com a globalização dos procedimentos humanos, inclusive os individuais, é conveniente que tenham uma única direção. O seu, por exemplo, é inadequado aqui. Justo, só lá. Mas também deve ler dele as Raízes do protesto Negro.

Muito bem: o próximo passo que você deve dar é o estudo das migrações internas, principalmente depois da Segunda Grande Guerra. Na primeira fase, antes do golpe de 64 (seis dias antes da sua prisão) e a instauração do regime militar, que passará para a história como o regime que mais deixou desaparecidos políticos no Brasil – o que não é verdade, é mentira! – as populações negras, que estavam concentradas mais ao norte do Brasil se movimentaram em direção ao sul. É a fase em que surgiram os grandes problemas sociais brasileiros; quando começaram as crises de violência urbanas. Mas é também o período que houve maior dinamização das culturas nacionais – e que, quando é mais conveniente para quem manipula poderes, é chamado e definido como culturas negras. È, de certa forma, quando o Brasil começou a ganhar projeção mundial. A capital do país deixou de ser Buenos Aires no imaginário europeu e começou a se tornar Rio de Janeiro, como de fato era. Mas, com um inconveniente para nós, os meus compatriotas negros: o Rio de Janeiro também se transformou na capital mundial da malandragem e da prostituição. É quando os norte-americanos criaram o personagem Zé Carioca – um brasileiro por excelência. Mas o Brasil, e não os negros, ganharam, ainda que às nossas custas e um preço altíssimo, visibilidade no mundo.

O que os negros, e todos os meu compatriotas neste país, ganhamos meu caro, foram as bases das condições para que pudéssemos gerar circunstâncias novas. O atual presidente da República do Brasil, – o seu anfitrião principal – Fernando Collor de Mello, o único brasileiro com autoridade suficiente para convidá-lo, o que teríamos feito bem antes, se pudéssemos – quer marcar a passagem d ele pelo cargo dizendo que criou o Brasil Novo. Mas isto não é verdade.

Pelo menos não toda a verdade, porque aquela movimentação intensa de negros, invisível para os que liam sem estas dicas metodológicas de avaliação do país que eu estou lhe passando e, acham que foi o atual presidente da República que, com a violência característica do governo dele – violência mental comum e tradicional nos países colonizados, inclusive no Brasil onde a tradução da palavra sahib é senhor – inovou posturas e procedimentos individuais e a economia do país. O que não é verdade, por exemplo, é que ele, antes de outros, tinha preocupações com a preservação ambiental e ecológica. Eu mesmo, em 83, durante um debate onde o Paulo Schilling, – um intelectual de esquerda, que teve uma filha envolvida em problemas políticos no Paraguai ou Uruguai, não me lembro, durante os regimes militares dos nossos países, – e o Fernando Gabeira, um ex-guerrilheiro brasileiro que depois de viver a experiência de um imigrante, estranho, num país europeu voltou ao Brasil defendendo a natureza e a ecologia, eu tive que fazer a defesa de Gabeira. O Schilling dizia que ele estava preocupado com as coisas menores e que era realmente relevante era a mão de obra explorada. Disse que, mais que as árvores derrubadas, os operários perdiam as mãos ou o dedo – como o presidente do meu partido, o Lula, que perdeu um dos dele na produção. Eu fui obrigado a dizer para o Paulo Schilling que a força de trabalho não era alguma coisa material, mas se expressava através de um elemento da natureza que é o indivíduo identificado ou submetido à condição de operário. É algo, digamos, espiritual. Ambos são parte da natureza e não há contradição, nem deve ser privilegiada a defesa de um deles, – eu disse.

E quase dez anos depois o ministro do meio Ambiente de Collor, o Lutzemberger foi à Europa dizer que a imigração de trabalhadores europeus para a América só foi possível por que a mão de obra local foi depredada. Ele se referia aos nativos, praticamente exterminados no Brasil, e não à escravidão que atingiu todos os negros, matando aos nativos, povos originários conhecidos como índios, e dilapidando as capacidades produtivas e criativa dos importados da África. Mas de qualquer modo ele foi à Europa, que a maioria dos brasileiros tem acesso ou desfrutam de algum poder acreditam que pé o centro do mundo, e sempre será, para dizer aos europeus – que são meio compatriotas deles – alguma coisa que a minha mãe, que aprendeu com a avó, que aprendeu com seus antepassados dela nos terreiros de macumba e me disse na cozinha de casa, e a um vizinho meu que estava perto e riu. Ele riu porque a minha mãe é considerada analfabeta, não tinha freqüentado escola, não sabia ler e nem escrever, e por isto não era levada a sério em alguma coisa que dizia.

Na verdade, tudo o que o atual presidente do que ele chama de Brasil Novo faz, é velho. Como a perestróika do apartheid na África do Sul. Ela, e você sabe disto, meu caro, é antiga no Brasil. A diferença entre nós é que na África vocês estão na terra dos seus antepassados, são explorados e discriminados por brancos que podem e se consideram de primeira categoria, têm tradição exploratória no sentido que querem ocupar o território – e isto desde o início – ao contrário dos daqui. Os nossos brancos, meu caro, vivem com o estômago no Brasil e o espirito, a cabeça, na Europa. E os nosso, se é que temos algum problema que possa ser considerado problema racial –(a maioria de nós, atualmente gosta desse ser negro e não vê problema nisto) – é que eles querem vincular as nossa cabeças também, à Europa. É uma violência mental, você sabe disto, mas também é por isto, inclusive, que a sua visita é extremamente útil, mais para nós do que para vocês. Temos uma alternativa e podemos – faremos- optar. OPTaremos, com certeza, homem!

Mas, como diz o meu amigo professor José Álvaro Moisés, voltemos ao ponto: os nossos ganhos com aquele processo migratório intenso no pós Grande Guerra, foram fundamentalmente econômicos.

O professor Florestan Fernandes, por exemplo, considerado por muitos o mais genial dos sociólogos brasileiros, o que lhe valeu milhares de votos e eleitores para ser deputado federal, além do direito de ceder o nome à universidade e ser pago para isto, – o que eu acho justo, belo e invejável – começou a se notabilizar por ter estudado a integração do negro na Sociedade de Classes e o Negro no mundo dos Brancos. Ele é marxista e foi um dos primeiros homens da universidade, brancos, a fazerem uma denúncia radical do racismo no Brasil.

Entre outras coisas ele constatou as dificuldades dos meus compatriotas negros para se reintegrarem à produção, expulsos que foram durante o processo abolicionista. Eu suspeito que na África do Sul agora, ao invés de importação de mão de obra livre e branca, eles vão importar capitais, via brancos, principalmente. Será uma conversa de brancos e se não ocorrer uma cumplicidade entre os empresários negros do exterior, brasileiros e norte-americanos inclusive, com a complacência dos setores mais radicais dos chamados movimentos negros fora da África, e de libertação nacional no país que vocês chamam de Azania, vocês serão expulsos do modo de produção de capitais. O capital – financeiro ainda não encontrou uma oposição à altura que, segundo os marxistas clássicos, seria a revolução comunista mundial, impossível enquanto existir o racismo, o etnocentrismo ou a xenofobia. O próprio Marx, quando começou a estudar estas coisas e idéias que agora, – quando dizem que o socialismo está morrendo – começam a virar cadáveres que serão enterrados pelo muro de Berlim que caiu de podre, primeiro refletiu sobre a condição dele, de judeu. Após a questão judaica começou ingressar numa reflexão mais sofisticada, e moderna, do capital. Mas os judeus, que apesar de discriminados financiavam excursões de nativos europeus para o resto do mundo e organizavam o mercado financeiro mundial, tinham capital. Era mais fácil pensar e combater. Em última análise, ele não tinha medo e poderia dizer até que era um conflito de gerações. Bem:

Os japoneses podem vir a ser uma oposição, são ágeis, pelo menos renasceram de duas explosões, as primeiras, nucleares. Não têm mais medo. E o que perder.

De qualquer modo nas décadas de 50, quando os africanos e caribenhos começaram a chegar na Europa depredada pela guerra, – (que em última análise foi “uma conversa de brancos”, como nós falamos aqui no Brasil, porque ela não chegou à Índia ou à África do Sul, apesar de indianos e sul-africanos, como os brasileiros que foram para a Europa terem morrido durante ela) – os nordestinos vieram para o Sul e, com as necessidades de desenvolvimento nacional e a industrialização, inclusive – o que o professor Florestan Fernandes chamou de modernização conservadora, – até os conflitos raciais começaram ganhar conteúdo econômico. E ficou patente para a maioria dos negros a falta de identidade nacional dos brancos brasileiros.

Eles precisaram por exemplo, de samba para se afirmar no cenário mundial e a menina dos olhos dos intelectuais do Brasil, a bossa nova, não é mais que uma mistura de samba com jazz. Tanto que o primeiro artista homem brasileiro, que teve fama internacional, sem precisar, sem precisar mostrar bananas (frutas) aos norte-americanos, que segundo uma pesquisa recente do congresso norte-americano, publicada no Usa Today preferem bananas e não maçãs, como suponhamos, era, na verdade, um músico de jazz. A primeira, mulher, famosa nos EUA, Carmem Miranda as exibia na cabeça. Eu não me lembro agora de nome dele, mas não existe outro, que seja branco ou tratado como tal pelos brasileiros brancos, que tenha feito mais sucesso que ele tocando piano naquele país. A maioria, depois dele, apesar da miséria dos músicos do Brasil que não têm direito inclusive a aposentadoria se começaram a trabalhar nesta área de trabalho por conta própria e sem apadrinhamento de um branco, antes da década de 70, são negros. O nome dele deve ser, lembro agora, mr. Mendes.

Esta falta de identidade nacional dos brancos brasileiros, foi a primeira chance de organização, invisível inclusive, das lutas antirracistas.

É fantástico, meu caro! Mas se você for verificar o perfil das culturas políticas brasileiras, desde a criação de Brasília e a implantação das primeiras indústrias multinacionais de grande porte, você vai ver que elas são negros, apesar dos personagens brancos. A peça teatral mais importante de década de 60 fala de Zumbí dos Palmares. Refere-se ao coração da identidade nacional e ao primeiro desaparecido político inutilizado no Brasil. O nome dele – eu imagino – no imaginário popular do Brasil colonial Ele não dormia nunca, estava sempre acordado, com sono, combatendo. Era um morto-vivo, um fantasma para a dominação estrangeira e as injustiças no Brasil. A peça ARENA CONTA ZUMBÍ.

Depois, toda a estrutura musical nacional de período do regime militar, produzir as grandes maiorias da população, se refere ao que foi definido como cultura negra no Brasil. Chico Buarque, por exemplo, considerado o maior compositor da oposição durante a luta pela democracia civil se inspirava e fazia sambas. E quando elegeu um símbolo para a consciência nacional anti-imperialista escolheu um mestiço, do tempo de Zumbí mas que não se aliou ao negro líder e dirigente mas aos holandeses, Calabar. Este cara era um mestiço, tradicionalmente conhecido como mulato. “Mixture”, na África do Sul.

Muito bem: o próximo passo que você deve dar é o estudo das migrações internas, principalmente depois da Segunda Guerra. Na primeira fase, antes do golpe de 64 (seis dias antes de sua prisão) e a instauração do regime militar, que passará para a história do Brasil como o regime que mais deixou desaparecidos políticos no Brasil – o que não é verdade, é mentira! – as populações negras, que estavam concentradas mais ao norte do Brasil se movimentaram em direção ao sul. É a fase em que surgiram os grandes problemas sociais quando brasileiros quando começaram as crises de violência urbana. Mas também é o período que houve maior dinamização das culturas nacionais – e que, quando é mais conveniente para quem manipula poderes, é chamado e definido como culturas negras. É de certa forma, quando o Brasil começou a ganhar projeção mundial. A capital do pais deixou de ser Buenos Aires no imaginário europeu para se tornar o Rio de Janeiro, como de fato era. Mas com um inconveniente para nós Os meus compatriotas negros: O Rio de Janeiro se transformou na capital mundial da malandragem e da prostituição. É quando os norte americanos criaram o personagem de Zé Carioca – um brasileiro por excelência. Mas o Brasil, e não os negros, ganharam, ainda que às nossas custas e um preço altíssimo, visibilidade no mundo

Em 1980 eu estive na Inglaterra, e no dia 25 de maio participei, em Nottingthan, do Dia da Libertação da África. O ANC, a ZANU, o ZAPU, a Consciência negra e o Drake Koka, todos da África do Sul, além de ativistas da Nova Jóia de Granada, e da Aliança do povo trabalhador, da Guiana, ex-inglesa, ambos da América Centro Sul e negra, estavam lá. Decidimos três prioridades: libertar a Namíbia, a África do Sul e o Brasil. O Brasil: não é fantástico meu rei, presidente e estadista, símbolo mundial do que eu mais desejo!

Foi assim – e eu escrevi sobre os compatriotas – que comecei a pensar em todo mundo. E tudo começou a história, até da minha vontade, disposição e decisão de te escrever esta carta – no tráfico. Talvez o filme, por decisão dele, é claro, porque teremos ao menos poder para exercer alguma liberdade – com a sua chegada onde os laços reais e verdadeiros com a África – a que produz, se reconstrói, e se liberta, e não com a explorada, saqueada e submetida por alienígenas de outros mundos ou planetas, aquela estagnada – começam ser reatados.

E ao final ele terá que dizer algumas coisas: que às vésperas do quinto século de início da maior tragédia humana – quando o planeta foi dividido em dois, duas cores ou raças de acordo com a conveniência e os desequilíbrios mentais de quem tinha poder para definir alguma coisa nalgum momento, a humanidade começou renascer à partir da sua libertação do lodo da civilização humana, administrada pelos animais que o prenderam. Que você visitou o Brasil e as ostras daqui, que queriam te recepcionar, cantar, dançar e te beijar se possível, foram surpreendidas. Pelos donos do mundo e pelos representantes deles aqui, – os servos dos representantes – e pelos cúmplices e omissos que, como dizia o James Baldwin em Da próxima vez o Fogo, são os inocentes.

Os donos do mundo, conscientes do papel estratégico e do potencial, com os sentimentos justos da população do meu país, decidiram resgatar os racistas e animais do seu país. Os do meu omitiram em relação ao nosso esforço por participação, na organização e em relação aos meios e condições necessários para recepcionar um homem da sua estatura mundial, tudo, para nos privar do seu significado e do seu impacto nas nossas mentes. Os cúmplices e inocentes se calaram, por conveniência ou pelo significado do silêncio e e omissão deles. E como os jornalistas faziam há anos atrás durante o carnaval, por iniciativa de um dos nossos, – o Osvaldo Faustino, então repórter policial, como eu agora sou – nós, os negros ostras, desfilaremos num bloco que, da Azânia em construção e dos destroças da África do Sul, você poderá observar. O bloco vai se chamar :”ÔI o que restou de nós…” (Os repórteres, aos farrapos, desfilavam na avenida Tiradentes, – que tem este nome em homenagem ao brasileiro que entrou para a história como o mártir da independência, porque morreu enforcado após conspirar abertamente com os intelectuais do reino, no Brasil – depois de quatro árduas madrugadas de trabalho).

Uma cena que será essencial neste filme: é o atual presidente do Brasil desfilando no Palácio do planalto carregando sob as axilas perfumadas e brancas de talco, o livro O Império e os Novos Bárbaros, de um francês – que ganhou do ministro brasileiro das Relações Exteriores. Dias antes, inclusive da reunião dos chamados Donos do Mundo, os sete países mais ricos, defenderam para eles um papel de polícia do mundo; os EUA haviam decidido reintegrar a África do Sul no sistema econômico mundial e o Comitê Olímpico Internacional a reintegrara.

Naquele dia e tempo, o presidente do Brasil, com o livro nas axilas, e o governador do Rio de Janeiro, discutiam as relações internacionais do Brasil. O presidente brasileiro, que se preparava, ia para o México participar da Conferência das Ibéricas da América. O Brasil nunca participou de nações da África ou de populações de origem africana, majoritárias, no Caribe, das América. Nem vai. Isto ficou claro quando lemos os nossos intelectuais, progressistas até, manifestaram o medo de uma africanização do Brasil. È o que queremos e eles não desejavam, inclusive porque já decidiram e estão a identificar a África com miséria. `Para eles a miséria é da África, e é esta a contribuição brasileira, que nós vamos reverter, com o processo de mundialização da economia e das culturas nacionais. A sua eleição e posse na presidência, ou do Sisulu, ou de Oliver Tambo, suponho, será decisiva, não só na África do Sul.

Outro exemplo, meu caro, e eu espero que o nosso cineasta – nas condições atuais do país e, principalmente os que desejam uma sociedade não racial e não discriminatória, ele será um videastas, – possa a sua avaliação do porque a sua recepção não ocorreu como queríamos, sem o que você merecia, e quem das expectativas que você e seus compatriotas do pais em que nasceu, viveu, foi criado, confinado e preso, alimentavam. Os fatos, quer ele queira ou não dizer a qualquer um – sempre por razões táticas e de sobrevivência – ele os conhece. E a nossa luta, a não ser que nunca tenha sido identificado como negro ou confundido (ou confinado) com um macaco – como ´´e o caso dos ativistas, hoje cadáveres, do mocambo da capital da República dos Palmares. Mas se ele não viveu estas preocupações. Mas até para ele, e nestas circunstâncias, adversas aos meus sonhos, a sua presença no Brasil será outra demonstração da grandiosidade da democracia racial e a unidade e dos brasileiros na condenação do apartheid e do racismo. O que eu acho que não existe. Se nós temos táticas, – suponho porque não sou racista – eles também têm. As deles, é claro.

 

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