Oito ou oitenta, o plebiscito e Itamar Franco

Oito ou oitenta, o plebiscito e Itamar Franco

Ano I – Nº7 – Outubro de 2000 como www.partes.com.br/imprensa07.html

Por Luiz Antonio Magalhães
Título de reportagem do jornal “Folha de S. Paulo”, do dia 8 de setembro, a respeito do Grito dos Excluídos: “Manifestação em Aparecida reúne 85 mil”.
“O Estado de S. Paulo”, principal concorrente da “Folha”, também publicou, no mesmo dia, uma reportagem sobre o tema, com o seguinte título: “Grito dos Excluídos reúne 4 mil em Aparecida”.
A despeito da inacreditável diferença entre os números – precisamente 81 mil pessoas -, nenhum dos dois jornais publicou errata nos dias seguintes. Em qual dos dois veículos o público deve acreditar? Aliás, é possível acreditar em algum dos dois ou será que em ambos a informação está incorreta?
Lendo as duas reportagens com cuidado, percebe-se que as informações sobre a quantidade de pessoas em Aparecida são exatamente as mesmas. Enquanto o “Estadão” afirma que 85 mil romeiros estiveram presentes no Santuário Nacional da cidade e 4 mil participaram do ato final do Grito, após os cultos religiosos, a “Folha” preferiu assumir que todos os 85 mil presentes estavam participando do Grito dos Excluídos.
A diferença, portanto, está na interpretação. Em última análise, a da “Folha” foi mais feliz do que a do jornal concorrente, pois é impossível saber quantos dos 85 mil romeiros foram a Aparecida apenas para participar dos cultos e quantos também apoiam o Grito, embora não tenham participado do ato final.

Diferenças no Plebiscito
A dança dos números nas manchetes dos dois jornais paulistanos revela que existem diferenças consideráveis entre os grandes órgãos de comunicação do país. Embora todos avalizem a política econômica do atual governo, alguns ainda se dignam a abrir espaço para o debate de ideias, para o contraditório. É o caso da “Folha”, não é o caso do “Estadão”.
A cobertura dos jornais e revistas sobre o Plebiscito da Dívida Externa ajuda a entender melhor essas diferenças. O leitor da “Folha” pôde ler diversos artigos – de colaboradores e colunistas – favoráveis à iniciativa.
O espaço do noticiário destinado ao tema também foi maior na “Folha” do que nos demais veículos.
Já o “Estadão” e a revista “Veja” preferiram engrossar a tropa de choque do governo no ataque ao Plebiscito. O jornal, bem ao seu estilo, publicou irônico e arrogante editorial intitulado “O calote CNBB do B”. Dispensável comentar o conteúdo, o título fala por si.
Vale a pena, porém, assinalar que, embora irônico e arrogante, o texto do “Estadão” situa-se no campo do debate de ideias. Ademais, é exatamente isto o que os assinantes do “Estadão” esperam do jornal: bons argumentos para defender as posturas do governo.
Já a revista “Veja” prefere dispensar as ideias e partir logo para a ignorância. Em texto cheio de adjetivos, a reportagem do semanário se presta apenas a desqualificar as entidades que organizaram o Plebiscito, em especial a CNBB. Entre outras bobagens, “Veja” afirma que os bispos brasileiros têm uma “visão primitiva dos mecanismos econômicos” e expressam “o milenar desprezo pelo crescimento econômico que marca a Igreja Católica”.

Itamar: unanimidade
Se a imprensa brasileira apresenta posições divergentes em alguns temas, há concordância quase absoluta em relação a outros. O tratamento dispensado ao governador de Minas Gerais, por exemplo, é praticamente o mesmo em todos os veículos de comunicação. Via de regra, Itamar Franco é apresentado como um “clown”, um paspalhão movido pelo ódio que nutre pelo presidente da República.
Acontece que o ex-presidente não é um bufão e seu estilo de fazer política nem sequer é novo. Jânio Quadros e Adhemar de Barros são alguns exemplos de políticos que se valeram dos expedientes que Itamar hoje pratica com grande competência.
Na verdade, o governador de Minas é apenas um populista da boa cepa. Ao tratá-lo como se um palhaço fosse, a imprensa se presta a uma odiosa perseguição de caráter pessoal. E, o que é mais grave, despolitiza o noticiário a respeito dos atos do governador.
O que realmente diz respeito ao cidadão não é o caráter do governador, embora isto também possa interessar, são os atos políticos e as decisões públicas tomadas, tudo que a imprensa prefere não discutir.

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