Amazônia: negócios e devastação

Amazônia. Foto: Ministério do Turismo
Amazônia. Foto: Ministério do Turismo

 

Rodolfo Salm

Acabei de voltar de Boa Vista do Ramos, onde fui representar o Projeto Pinkaití e a comunidade A’Ukre no “IV Encontro de Manejo Florestal Comunitário”. Mais do que decepcionado, eu fiquei assustado com o que vi.

A região de Boa vista fica na margem sul do rio Amazonas, a meio caminho entre Manaus e Santarém. Apesar de estar neste eixo de desmatamento que é o rio Amazonas, o município de Boa Vista do Ramos é bastante isolado. Saindo do Amazonas, viajamos por várias horas por canais estreitos que cortam uma extensa área de várzea, até chegar a região de Terra Firme onde ficam as comunidades que compõem Boa Vista. Aqui, o rio parece mais um sistema de lagos de água verde como a do Riozinho do A’Ukre. Este área é coberta de pequenas e dispersas vilas.

Não ficamos em Boa Vista, capital do município, mas em uma pequena comunidade mais ao do sul do “lago”: a Comunidade do Menino Deus do Curuçá. Lá, não deve ter mais gente que no A’Ukre, são umas duas filas de casas que acompanham as praias do “lago” e umas tantas outras espalhadas.

Apesar de pequena, pelo jeitão da igreja na praia, dá para ver que é uma ocupação antiga. Atrás de vila, há um extenso sistema de roças e florestas secundárias. Toda esta região queimou recentemente. Depois da zona queimada, a uma distância que não pude percorrer, fica floresta madura. De bicho, perto da vila, tudo que eu vi foi um rastro de catitú, mas deu para ver que eles ainda vivem muito de caça, pelos ossos que achei no lixo.

O evento financiou a viagem de técnicos e comunitários de várias comunidades da Amazônia brasileira e ficamos todos alojados nos dois barcos em que viajamos. Foi ótimo ter conhecido tanta gente de vários lugares da Amazônia.

Antes de ir, esperava poder avaliar os pressupostos adotados pelos vários planos de manejo a luz que conheço sobre as populações de inajás e tucuns que estudo. Acontece que nenhum plano de manejo foi discutido em termos ecológicos. Aliás, praticamente nada se discutiu sobre ecologia ou conservação. Ao contrário, tivemos palestras sobre estratégias de mercado, marketing de madeira, fontes de financiamento e diversos métodos de corte e fatiamento de árvores.

É verdade que alguns projetos interessantes foram apresentados, como o cultivo comunitário do açaí, a criação de abelhas indígenas e a confecção de pequenos instrumentos de madeira, mas o grande foco do encontro foi justamente a exploração de madeira dentro de um contexto de mercado global. Fazendo um balanço de 12 projetos de corte seletivo de árvores na Amazônia, a própria WWF enumera seus obstáculos, como a “falta de mercado, preços baixos de madeira, custos elevados do cumprimento das exigências legais e situação fundiária indefinida” das áreas em questão.

Nada se falou da nossa quase que total falta de conhecimento acerca da dinâmica destas florestas. Não se tocou neste assunto.

Técnicos de engenharia florestal da “ESALQ” de Piracicaba estão trabalhando no projeto de extrair madeira das matas primárias do município de Boa Vista do Ramos. O município já está todo dividido em zonas e, para cada uma das quais, foi nomeado um “presidente” para assuntos de manejo florestal. Cada presidente recebeu uma foto de satélite de sua zona de ação. Membros da comunidade estão sendo treinados no uso da motosserra e na derrubada de árvores. Estão muito otimistas com o quadro de prosperidade pintado pelos proponentes do novo plano. Mas não se questiona o impacto desta atividade madeireira sobre o futuro das matas da região.

Mesmo se mantidas as atuais condições, grande parte das matas da região vai desaparecer nos próximos anos. Isto ficou claro nas fotos de satélite salpicadas de manchas vermelhas e no que se disse sobre o recente incêndio que queimou grande parte das matas da região. Com as atividades madeireiras, este processo certamente se acelerará em muito.

Todas as comunidades são muito pobres, há um sério problema de alcoolismo e o esgoto da vila em que ficamos e de suas casas já podem ser vistos na praia em que ancoramos. Questionados sob problemas sociais da comunidade, os técnicos de Piracicaba se apressaram em dizer que esta não é a sua área.

A participação dos comunitários nas discussões também foi muito limitada. Segundo os técnicos de Piracicaba, foram organizados “três workshops”, mas a falta de escolaridade dos comunitários dificultou o aprofundamento das discussões.

Estas são experiências piloto e espera-se que projetos comunitários planejados nestes moldes se proliferem por toda a Amazônia nos próximos anos. É provável que praticamente toda a floresta sofra corte seletivo de árvores nas próximas décadas. E ninguém fala de como isto destruiu as florestas do sudeste Asiático e vem acabando com as da bacia do Congo. Aliás, nada se falou do que aconteceu nestas outras duas grandes áreas de florestas tropicais.

Mesmo a nossa área, na reserva Kayapó, está ameaçada. A legislação atual impede o manejo florestal em áreas indígenas, mas um projeto na área Xicrím, tocado pelo ISA, está abrindo um precedente para este tipo de atividade e toras de mogno já estão sendo cortadas nesta reserva. É inegável que o plano de manejo do ISA é melhor que a loucura dos madeireiros tradicionais, mas, mesmo “manejadas”, as já tão secas matas do Sul do Pará resistirão a este corte de árvores?

Além do mogno, cerca de outras cinco espécies estão sendo cortadas. É possível que, depois das curtas febres dos garimpos e do mogno, os Kayapós vivam a onda do manejo florestal comunitário e é provável então que o fogo queime forte por lá, como queima a mata dos Ianomamis. E o fogo na Amazônia vai ser grande. O mais assustador é que o WWF, Amigos da Terra e até o Greenpeace estavam presentes e ninguém se questionou sobre os efeitos ambientais do corte seletivo. Muita gente se contentou em constatar que são mais amenos que os das madeireiras tradicionais. Não havia ninguém para fazer oposição ao corte seletivo de árvores e para discutir seus efeitos ecológicos.

Rodolfo Salm é doutorando em biologia e pesquisador do Projeto Pinkaiti’-Aldeia A’Ukre