Culturas externas & Culturas internas

 

Paulo de Abreu Lima 

Paulo de Abreu LIma. é psicólogo

Folheando um Manual de Negociação Internacional ocorreu-me uma reflexão acerca de diferenças culturais. O Manual fornece dicas para pessoas que farão contatos de trabalho com pessoas de outros países e outras culturais. Indica cuidados com o uso da língua, alimentação, tratamento e atitudes em relação a valores locais. O interessante é o alerta sobre o universo e a diversidade de aspectos de cada país e cada povo. Em países da Europa, por exemplo, o aperto de mão é indicado no cumprimento; na China, por outro lado, é indicada uma rápida inclinação com a cabeça. Em países como Austrália, convém ser mais informal, ao contrário da Índia, onde convém ser mais informal e reservado.

É compreensível tais diferenças por tratar-se de povos e culturas que desenvolveram traços próprios ao longo de suas histórias. Tão mais compreensível, portanto, é a importância do respeito que um estrangeiro deve dispensar num contato inicial e não íntimo.

No Brasil temos, também, uma diversidade muito grande de culturas distintas. A divisão geopolítica das regiões quase que define tais diferenças. O norte tem características distintas do nordeste, que tem traços distintas do sudeste e assim por diante. Se estreitarmos mais a análise observaremos que dentro de um mesmo estado ou cidade também existem diferenças marcantes.

A cidade de São Paulo, por exemplo, apesar de inserida num contexto cultural brasileiro com características muito próprias, tem uma antropologia peculiar muito rica e diversificada de costumes e valores. No caso de São Paulo estas diferenças estão muito associadas não só às origens culturais e étnicas mas também ao poder econômico. A distribuição de renda em São Paulo, como em todo Brasil é muito desigual criando camadas sociais muito diferentes. O poder aquisitivo muito diferenciado acaba criando oportunidades e tipos de aspirações muito distintas nas diversas classes sociais. O poder de consumo define com certa clareza o poder de acesso a serviços e bens e evolução social. Um exemplo clássico é o caso dos jovens pré-universitários que têm que trabalhar para o sustento da família e não tem condição de investimento na formação acadêmica em escolas de 1ª linha (apenas nas quais se pode encontrar determinados cursos) e no aprendizado de uma segunda língua (a fluência do inglês, hoje, é um nítido diferencial competitivo no mercado). As condições de acesso e desenvolvimento propiciam um determinado grau de aspiração e também um conjunto de valores; estes valores são expressos em manifestações musicais, religiosas, vestimenta, etc. Tudo isso, no fundo, é a distinção entre cultura popular e erudita, sendo esta última muito associada à parte da população de maior poder aquisitivo.

A questão que se destaca, a meu ver, é o distanciamento de culturas distintas; distanciamento decorrente das diferenças sociais. Não há dúvida que este quadro existe desde que o mundo é mundo. Acontece que tais diferenças, especialmente em grandes cidade como São Paulo são, às vezes, alarmantes, o que torna o quadro social de oportunidades também alarmantes. A discussão acerca destas diferenças de oportunidades sugere uma questão importante: o desenvolvimento de competências no universo social e do trabalho. O quanto é do indivíduo? O quanto é do poder público? Com certeza não é só do poder público. O indivíduo é responsável por sua busca pessoal levando em conta suas características pessoais e seu esforço. É claro que o contexto social (inclui-se o escolar), familiar e afetivo contribuem muito para o caminho a ser desenvolvido. Por outro lado, os cenários socioeconômicos e de políticas públicas são um fator decisivo, também, para a definição de caminhos possíveis (no exemplo mencionado, a necessidade de trabalhar para ajudar no sustento da própria família dificulta o ingresso em universidade pública). A nossa ética social (princípios e valores que norteiam o comportamento das pessoas na aquisição do saber e status), visivelmente maniqueísta, contribui muito para a definição destas políticas públicas, ou seja, o que interessa e para quem. Acho que podemos chamar isto de vontade política; não só do governo, mas de toda a sociedade.

Não deve haver uniformidade de valores culturais. Cada povo é um povo e tem seus próprios traços, seja em países distantes e muito diferentes, seja dentro da nossa própria cidade. A questão maior é a busca de convivência e respeito destas diferenças e o sonho de se alcançar uma sociedade onde as oportunidades sejam efetivas e verdadeiras.

Paulo de Abreu Lima é psicólogo

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