A velhice sob a ótica da mulher

Fátima Teixeira

 

“O segredo de se envelhecer bem é se aceitar, se você olhar para as suas rugas com crítica, com rejeição, é lógico que as pessoas vão ver você assim. Se, no entanto, você deixar fluir sua autoestima, se você sorri para a vida, suas rugas aparecem em segundo plano; o sorriso é que aparece primeiro”. (Cecília Bourbon no livro Quarenta A Idade da Loba, de Regina Lemos)

 

Fátima Teixeira é assistente social

No dia 08 de março comemora-se o Dia Internacional da Mulher. Esse dia, explorado inclusive comercialmente, representa na verdade um marco na luta feminina para a conquista de espaço, direitos e autonomia na sociedade.

A história dessa data está ligada à greve de operárias da fábrica Cotton, ocorrida em Nova York (EUA) em 1857. Elas reivindicavam redução da jornada de trabalho para 10 horas diárias e o direito à licença-maternidade. As forças policiais, com o intuito de reprimir o movimento, atearam fogo à fábrica provocando a morte de 129 mulheres queimadas.

Este é um exemplo de como as mulheres, ao longo da história, tem se movimentado com garra e determinação para obter os direitos que garantam a melhoria das condições de vida e de trabalho.

E ao envelhecer? Como a mulher idosa continua enfrentando as questões ligadas ao preconceito, a subalternidade e a marginalização?

A velhice é uma questão que afeta particularmente a mulher, porque muitas vezes ela é acompanhada de doenças, diminuição do padrão socioeconômico e solidão.

A mulher, de uma maneira geral, está acostumada a realizar acompanhamento mais sistemático de sua saúde. Alguns eventos de sua vida, como a gravidez e o climatério, colaboram para a realização de consultas médicas e exames clínicos periódicos, ajudando a detectar e prevenir doenças. Ao envelhecer os prognósticos antecipados podem não significar a cura das doenças, mas facilitam o controle e a manutenção da qualidade de vida. As ações preventivas e de acompanhamento de moléstias consideradas comuns nessa fase da vida, ajudam a prolongar a autonomia, um dos requisitos indispensáveis para viver a velhice de forma bem sucedida.

Infelizmente a falta de recursos públicos para o atendimento à saúde da pessoa idosa é objeto de grande preocupação, pois, as doenças comuns que afetam o idoso necessitam de medicamentos e acompanhamento contínuos, obrigando-os a enfrentarem imensas filas nos postos médicos. Com os baixos salários previdenciários e sem a ajuda dos filhos, nem todos tem possibilidades de recorrer a convênios médicos particulares, provocando insegurança e ansiedade ao idoso.

A mulher que ao longo de sua vida exerceu atividade profissional, em geral, ganhou menos do que o homem, até porque historicamente o gênero feminino tem aparecido numa posição de subalternidade com relação ao gênero masculino. Sem contar com a exploração no nível doméstico a que a mulher foi submetida com a dupla jornada de trabalho estimulada pelo próprio sistema e suas instituições representativas como a família, a igreja, a escola, entre outras, responsáveis pela reprodução de valores e princípios que permeiam as relações sociais.

A mulher, via de regra, casa-se mais jovem do que o homem e este tem maior probabilidade de morrer antes do que ela. Segundo recentes pesquisas, o número de idosos no país atualmente chega a 8% do total da população, com predominância de mulheres sozinhas, separadas de seus companheiros, cuja a esperança de vida é estatisticamente menor. Desta maneira a mulher se vê velha, empobrecida e só.

Em recente viagem ao Rio de Janeiro fiquei impressionada com o número de idosos em Copacabana, tradicional bairro carioca, especialmente com as mulheres que realizam caminhadas pelo calçadão, frequentam os restaurantes e confeitarias do bairro, sempre em grupos de duas ou três mulheres. Demonstram bom humor, vitalidade e boa disposição para realizar atividades que propiciem a sociabilidade.

Aparentemente essas mulheres não são diferentes daquelas que tive a oportunidade de conhecer nos grupos de terceira idade formados em bairros periféricos da zona leste de São Paulo. Conversando com várias delas pude constatar que são aposentadas ou pensionistas, moram sós, ou com seus companheiros de muitos anos de casamento, gostam de conviver em grupos, viajar, fazer amigos, conhecer lugares novos, enfim, mantém o desejo e a alegria de viver. Prezam a liberdade conquistada, após anos de dedicação quase incondicional à família.

Ao perguntar-lhes sobre os homens, respondiam-me:

“Ah! Eles, em sua maioria, relutam em aceitar que chegaram à terceira idade e ilusoriamente buscam na companhia das mulheres mais novas reencontrar a vitalidade e a juventude”.

De fato, os homens se mostram mais resistentes do que as mulheres em assumir a velhice, preferindo relacionar-se, sempre que possível, com mulheres mais jovens, num velado desprezo àquelas de sua mesma faixa etária.

Parece-me que estas mulheres estão enfrentando o processo de envelhecimento com maturidade, pois conseguem reconhecer seus limites e ver que na velhice perde-se algumas coisas, mas ganha-se outras. Perde-se o frescor da juventude física, em compensação ganha-se em experiências que podem e devem ser passadas aos mais jovens, numa relação não pautada na competição, mas sim no estímulo, encorajamento e troca.

A estas bravas mulheres minha sincera homenagem neste 8 de março de 2001!

Fátima Teixeira é assistente social

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