Rumo ao socialismo ecológico

Especial Meio Ambiente – Revista Partes – novembro de 2001

Rumo ao socialismo ecológico
Victor Wallis
 
Victor Wallis é professor do Departamento de Educação do Berklee College of Music (Boston, EUA) e integra os comitês editoriais de Capitalism/Nature/Socialism, Socialism & Democracy e New Politica Science.

A ridícula movimentação por parte do establishment norte-americano em torno da necessidade da redução do efeito estufa revela uma ironia macabra do nosso tempo. No mesmo momento em que o planejamento democrático abrangente, numa escala global, torna-se uma condição para a sobrevivência da espécie humana no longo prazo, a mera sugestão de que o centro desse planejamento pudesse estar localizado em qualquer outro lugar que não as salas das diretorias das grandes corporações é amplamente relegada – também ironicamente – a “lata de lixo da história”.

A ideia do socialismo ecológico faz frente a esse descarte prévio e frontal. Ela responde diretamente ao sentimento crescentemente reconhecido, mesmo no mundo dos negócios, de que as contradições do capitalismo, longe de terem diminuído desde a época de Marx, apenas se intensificaram1.

Dentre os possíveis modos de tratar esse dilema, o socialismo ecológico oferece uma abordagem abrangente. Neste discurso inicial eu proponho, em primeiro lugar, definir o socialismo ecológico; em seguida, delinear os contornos de uma sociedade socialista ecológica; e finalmente, refletir sobre algumas difíceis questões da transição.

I. Princípios fundadores

O que é socialismo ecológico? Ou, para começar quais são os eixos programáticos do pensamento socialista e ecológico?

A meta ecológica é a da vida humana de algum modo em equilíbrio com o resto da natureza. Eu entendo “equilíbrio” não com o sentido de algo absoluto ou atemporal, mas basicamente no sentido da manutenção de um máximo de biodiversidade e um mínimo de propaganda de substancias tóxicos ou causadoras do efeito estufa2. Esse equilíbrio pode ser considerado desejável por si só e ao mesmo tempo como condição para a sobrevivência da espécie humana. Não há nenhuma incompatibilidade, a principio, entre essas duas lógicas. Não são as necessidades humanas que colidem com a busca do equilíbrio natural, mas apenas a estruturação das necessidades humanas como vem se desenvolvendo segundo as exigências ou as pressões exercidas pelo capital. As “necessidades” resultantes – tais como a acumulação privada, um vasto aparato militar, transporte individual, e vários vícios – são produtos dessa dinâmica. Na perspectiva do ser humano como indivíduo, elas são instrumentais ou adaptativas – não trazem autorrealização. Por contraste, necessidades humanas tais como são de, criatividade e sociabilidade, longe de serem ameaçadas, só podem ser promovidas pelo equilíbrio natural.

O objetivo do socialismo é o advento de uma sociedade divisões de classe. Assim como a noção do equilíbrio natural, esse objetivo pode ser perseguido enquanto tal ou pelas muitas outras possibilidades que uma sociedade desse tipo – e a luta para atingi-la – abririam. Elas incluem a superação das desigualdades de raça, gênero, região, e a possibilidade de um meio ambiente propício para vida de todos os seres humanos. De novo, não há uma divisão pronunciada entre o bem intrínseco e os benefícios indiretos; os dois estão ligados, embora não mecanicamente, mas dialeticamente. Consequentemente, nem todos os problemas nessas áreas aparecem em termos de classes, mas todas as tentativas de soluções racionais esbarram, em ultima instância, em obstáculos relacionados a interesses de classe3. um tema constante, de todo modo, é a necessidade da superação das injustiças sociais, das ineficiências sociais, da aus6ncia de responsabilidades, e da mis6-na espiritual e material gerada ou intensificada pelo modo capitalista de produção.

Para que o socialismo ecológico possa tornar-se um movimento ou uma ordem social, ele precisa elaborar uma síntese convincente desses dois conjuntos de aspirações independentemente do potencial abstrato para essa síntese, sua construção práticas dependerá de um dialogo entre aqueles (indivíduos e grupos) cujas orientações iniciais em relação a essas aspirações são tão distante quanto as duas visões – as visões sendo tornadas, nesse primeiro momento, separadamente.

O diálogo ecologia/socialismo assume muitas formas. Ele remete, em todo caso, para o gradual esclarecimento da resposta à questão: qual a contribuição de cada lado para a visão proposta pelo outro?

1. Sobre a intensificação das contradições do capitalismo, ver Ellen Meiksins Wook, “Back to Marx”, Monthly Review vol49, n2 (june 1997); sobre o reconhecimento deste fenômeno pelo mundo dos negócios, ver John Cassidy, “The Return of Karl Marx”, New Yorker, 20/27 october 1997. p.248

2. Para uma crítica das noções históricas de “equilíbrio”, ver Daniel Botkin, Discordant harmonies: A New Ecology for the Twnty-first Century (New York: Oxford University Press, 1990), cap. 2. Para uma discussão historicamente informada da questão da biodiversidade ver especialmente, Yrjo Haila e Richard Levins, Humanity and Nature: Ecology, Sciencie and Society (London:Pluto Press, 1992).

3. Ver Victor Wallis, “Marxism and the U.S. Left: Thoughts far the 1990s”, Monthly Review vol.43, n. 2 (]une 1991), p.9.

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