Mão do lixo

Mão do lixo
Tiago de Mello
A mão que eu cato o lixoNão e a mão com que eu devia ter.

Não tenho para ganhar

Na mesa da minha casa

O pão bom de cada dia.

Como não tenho, aqui estou.

Catando lixo dos outros,

O resto que vira lixo.

Não faz mal se ficou sujo,

Se os urubus beliscaram,

Se ratos roeram pedaços,

Mesmo estragado me serve,

Porque fome não tem luxo.

A mão com que cato o lixo

Não e a que eu devia ter.

Mas a mão que a gente tem

E feita pela nação.

Quando como coisa podre

Depois me torço de dor

Fico pensando: tomara

Que esta dor um dia doa

Nos que tem tanto, mas tanto,

Que transformam pão em lixo

Com meus dedos no monturo

Sinto-me lixo também.

Não pareço, mas sou criança.

Por isso enquanto procuro

Restos de vida no chão,

Uma fome diferente,

Quem sabe é o pão da esperança

Esquenta meu coração:

Que um dia criança nenhuma

Seja mão serva do lixo.

Tiago Mello

 

 

 

iago de Mello, poeta amazonense

Silêncio e Palavra, Edições Hipocampo, Rio de Janeiro, 1951.
Narciso Cego, Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1952.

A Lenda da Rosa, Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1956.

Vento Geral (reunião dos livros anteriores e mais dois inéditos: Tenebrosa       Acqua e Ponderações que faz o defunto aos que lhe fazem o velório), Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1960.

Faz Escuro mas eu Canto, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1965. 14a edição, 1993.

A Canção do Amor Armado, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1966. 7a edição, 1993.

Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1975. 7a edição, 1991.

Os Estatutos do Homem(com desenhos de Aldemir Martins), Editora Martins Fontes, São Paulo, 1977. 6a edição, 1991.

Horóscopo para os que estão Vivos, Edição de luxo, ilustrada e editada por Ciro Fernandes, Rio de Janeiro, 1982.

Mormaço na Floresta, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1984. 3a edição, 1993.

Vento Geral, Poesia 1951-1981, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro 1981. 3a edição, 1990.

Num Campo de Margaridas, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1986.

De uma vez por todas, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1996.
Prosa:
Notícia da Visitação que fiz no Verão de 1953 ao Rio Amazonas e seus barrancos, Ministério da Educação, 1957. 2a edição, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1989.

A Estrela da Manhã, Estudo de um poema de Manuel Bandeira, Ministério da Educação, Rio de Janeiro, 1968.

Arte e Ciência de Empinar Papagaio, BEA, Manaus, 1984, edição de luxo. 2a edição, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1985.

Manaus, Amor e Memória, Suframa, Manaus, 1984, edição de luxo. 2a edição, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 4a edição, 1989.

Amazonas, Pátria das Águas, Edição de luxo, bilingue (português e inglês), com fotografias de Luiz Cláudio Marigo. Sverner-Bocatto, São Paulo, 1991.

Amazônia, a Menina dos Olhos do Mundo, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1992.

O Povo Sabe o Que Diz, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2a edição, 1993.

 Borges na Luz de Borges, Pontes Editores, São Paulo, 1993.
No Exterior:
Madrugada Campesina, Arco CEB, Santiago do Chile, Tradução de Armando Uribe, 1962.

Poemas, Tradução de Pablo Neruda, ilustração de Eduardo Vilches, edição de luxo, fora do comércio, 1962.

Horóscopo, Edição Mario Toral, Santiago do Chile, 1964.

Os Estatutos do Homem, Edições ITAU, Lisboa, 1968.

Los Estatutos del Hombre, Club de Grabado, Montevideo, 1970.

What Counts is Life, Geo Pflaum Publisher, USA, 1970. 2a edição, 1972.

Canto de Amor Armado, Ediciones Crisis, Buenos Aires, 1973.

Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida, Moraes Editora, Lisboa, 1975.

A Canção do Amor Armado, Moraes Editora, Lisboa, 1975.

Dio Statuten des Menschen, Peter Hammer Verlag, Wuprttal RFA, 1976.

Gesang der Bewffneteten Lieben, Peter Hammer Verlag, Wuperttal, RFA, 1984.

Os Estatutos do Homem, divulgação do Correio da Unesco, tradução para mais de trinta idiomas, 1982.

Poesia de Thiago de Mello, Casa de Las Américas, La Habana, Cuba, 1977.

Chant de l’amour Armé, Cerf, Paris, 1979.

Amazonas, Land of Water, Tradução de Charles Cutler, In The Massachusets Review, USA, 1986.

Statutes of Man, Selected Poems, Tradução de Richard Chappel, Spenser Books, London, England, 1994.
Traduções:
Antologia Poética de Pablo Neruda, Letras e Artes, Rio de Janeiro, 1963.

A Terra Devastada e os Homens Ocos, de T.S. Eliot, edição bilingue, fora de comércio, Santiago do Chile, 1964.

Salmos, de Ernesto Cardenal, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1983.

Poesia Completa de Cesar Vallejo, Philobiblion, Rio de Janeiro, 1985.

Sóngoro Cosongos e outros poemas, de Nicolás Guillén, Philobiblion, Rio de Janeiro, 1986.

Debaixo dos Astros, Poesia de Eliseo Diego, Hucitec, São Paulo, 1994.

Versos do Capitão, de Pablo Neruda, Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2a edição, 1994.

Cântico Cósmico, de Ernesto Cardenal, Hucitec, São Paulo, 1996.
Discos:
Poesias de Thiago de Mello, Discos Festa, Rio de Janeiro, 1963.

Die Statuten des Menschhen, Cantata para orquestra e coro, música de Peters Jansen, RFA, 1976.

Thiago de Mello

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