Elomar, seus bodes e os meus

Raul Prates

Quanto a onça sussurana urra, lá vem no meus “apensamentos” a cantoria de Elomar, o violeiro de “Na quadradas das águas perdidas”. Lá por cuida de seus bodes, quase não chega mais à cidade grande, que para ele é uma lâmpada mariposa que queima as asas dos seus amigos caatingueiros, para o grande cantador, a cidade grande e seu progresso técnico é o grande mal da humanidade e sua tecnologia nas mãos de homens maus, senhores da técnica.

Uma vez visitando a São Paulo de concreto e ilusão, Elomar descreveu a cidade assim: Andei naqueles subterrâneos, gargantas e desfiladeiros de paredes verticais. Um mundo perdido, carcomido por ventos maleitosos, mortíferas fumaças, ´estôncios letais`, milhões de seres pálidos, macróbios, uma guerra telúrica (…) Enquanto eu errava me lembrando do Rei Davi, na imensidão daqueles vales, onde por vezes eu vi passar de largo a sombra da morte.”

Sempre usa e usou sua canção para valorizar os fundamentos do seu povo, do companheirismo, das lembranças, da louvação.

Assim, com medo e temor dos “urbanóides”, Elomar preferiu seus bodes, suas cabras, a cantar a desagregação da vida. Em 1973, no LP “…Das barrancas do Rio Gavião” Elomar assim começa: Vou cantar no cantori primero / as coisa lá da minha mudernage / que me fizero errante violêro / eu falo sério num é vadiage / e pra você que agora está mi ovino / juro inté pelo Santo Minino / Vige Maria que ôvi o qui eu digo / si fô mintira mi manda um castigo. / Apois, pro cantadô e violêro / só hai treis coisa nesse mundo vão / amô, furria, viola, nunca dinhêro / viola, furria, amor, dinhêro não.”

Elomar vai misturando tudo num grande caldeirão cultural: “Ficô dibaixo das roda do carro/ purriba dos escarro oiando prá lua, ai saudade” – chula do terreiro. Em seu puro linguajar da caatinga estão imersos reis, rainhas, cavaleiros-vaqueiros, e donzelas medievais, tudo maravilhosamente acompanhada por um som original de um violão .

 

Deserança (Elomar)

Já não sei mais o que é fazer contas até já perdi as contas
dos cantos dos rios das contas que meu peito amor, cantou perdido de amor por ti
já nem me lembro quantas cantigas quantas tiranas amiga na viola padeci
também não sei mais quantos foramos luares que passaram
pelo vão dessa janela
indagando suplicantes
frios, pálidas, dementes,
onde anda a amiga aquela
vieste de longe eras tão linda
como se hoje lembro ainda
a mansitude da manhã
foi tua vinda amiga vã
dói-me no peito ao relembrar
já não tem jeito a vida é vã
que deserança ó minha irmã
mas apesar de tudo desfeito
de tanto sonho morto que num tem mais jeito
tombando a ladeira
já pela descida
na tarde da vida
rompo satisfeito
foste na jornada
a jornada perdida
meu amor pretérito mais que perfeito

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