Dez poemas para final de tarde

por Vicente Martins

I – MASOQUISMO MATINAL

Uma estranhíssima
ansiedade de tirar a barba,
Cabelinho por cabelinho.
Cortar-me
por uma distração qualquer e
por um vampirismo
ainda mais injustificável
ver o sangue descer.

 

II- SACO DE PANCADA

Disse-te uma vez:
és Emília, minha boneca de pano.
Digo-te, agora:
és Emília, bruxa insana
que fez do meu coração
um saco de pancadas.

 

III – RENDIÇÃO

Percorro o mundo
mas volto a ti
porque é no teu seio
que está meu refúgio.
Contemplo flores
mas é no teu colo
que encontro o mais belo
jardim da vida.
Tudo que escrevo,
tudo que falo,
tudo subjaz ao que faço
mas o que sou é
essencialmente construído por ti.
Eis-me aos teus pés, senhora.
Tua vida me faz homem
mas é o teu amor que me
transforma poeta.

IV- DIVIDIR O PÃO

Minha mulher me acha um pão
Claro, isso é a mais pobre metáfora.
Massa fina, massa grossa,
Às vezes, sou joio; outras, sou trigo.
Seja como for,
tenho uma visão cristã de ser pão:
O pão deve ser repartido.

V- ANTES DA NOITE DE NATAL

À noite, antevéspera natalina,
o vizinho enfeita a sala, o jardim.
O outro tem um pinheiro, um jasmim.
Tenho, apenas minhas mãos
e um coração cheio de solidão.
Minha existência é o resto de festa.
Minhas lágrimas, saquinhos coloridos de
sangue, dor e noite.

VI – ANTES DO CREPÚSCULO

A solidão divide as nuvens;
Entre os edifícios o meu peito arde,
mas os olhos viajam…
Ainda assim, tenho medo de subir
as montanhas e não alcançar as nuvens
ou, como pássaro, me renda
no labirinto…

VII – AUSÊNCIA

A tua ausência
Não é apenas o teu corpo ausente
É minha alma sem mim;
Nada fazendo significado,
Navio perdido a bravo mar,
Sensação de tempestade,
Terremoto,
Fim de vida, enfim,
Se não encontro tua vida
Dentro de mim.

VIII – PAVOR TEOLÓGICO

Tenho medo de não
resistir a presença de
Deus em minha vida.
Tenho medo de
que Ele
me abrace e
me beije e
me homossexualize.

IX – PRISIONEIRO

Minha mãe é uma mulher de fé.
Acho interessante a forma como minha mãe fala com Deus.
Um dia, contou-me ela, segurou-O
em pleno banheiro e
Obrigou-Lhe a dar-me a cura.
Imagino, então a zorra no Céu:
o boato de que Deus é prisioneiro na terra
pela fé de uma mulher.

X – OLHANDO OS ABACATES

À noite,
lembram as cabeças dos alcatrazes,
mas, num átimo,
à guisa dos fantasmas,
configuram-se em seios de
canibais.
Abrindo-os, estão lodosos,
Vedoengos e nauseabundos.
Lá, no núcleo selvagem,
quase sempre,
um homem nu,
semi-morto,
um corpo penoso,
ancestral

Vicente Martins, cearense de Iguatu, 39 anos, poeta e professor do Centro de Letras e Artes da Universidade estadual vale do Acarajú (UVA, Sobral, CE)
vicente.martins@uol.com.br

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