Globalização, xenofobia e civilização

por Adilson Luiz Gonçalves

Adilson Luiz Gonçalves
Rua Maestro Heitor Villa-Lobos, 27/22
Santos – SP

A globalização, como vem se apresentando, nada mais é que uma nova forma de colonialismo, onde as antigas metrópoles – que já haviam exaurido as riquezas de suas colônias sem dar absolutamente nada em troca – exercem seu poder econômico criando leis para os emergentes obedecerem e exigindo aquilo que não praticam (abertura de mercado, abolição de protecionismos, etc.).
Comparando com outros procedimentos mais antigos, como a restrição de desenvolvimento e produção de artefatos bélicos nucleares, e a protelação da assinatura de tratados de controle de emissão de poluentes pelas potências: fica claro que estes não querem o equilíbrio mundial, mas, sim, a perpetuação de sua hegemonia militar e econômica.

Entretanto, essa “Nova Ordem Mundial”, capitaneada pelos EUA, vem sendo ameaçada por fatores que tenta controlar, mas não consegue inteiramente, tais como: o bloco dos “Tigres Asiáticos”, numa área tradicionalmente explosiva – onde o imperialismo ocidental nunca foi bem sucedido – e com crescente influência da independente e poderosa, China; e, mais preocupante, porque dentro de um círculo que era considerado alinhado (o Ocidente), a consolidação da União Europeia. Enquanto estados independentes, os países europeus sempre cultivaram um nacionalismo exacerbado que, antes, manifestava-se sob forma de guerras, -dentro ou fora de seus territórios – e colonialismo de subsistência ou de competição política; e, hoje, ressurge sob forma de líderes de extrema direita. Estes, na verdade, são contrapontos “úteis” à manutenção de seu equilíbrio social e político. Aliás, desde as décadas de 1920 e 30 a Europa não vive situações de tensão econômica e/ou social que justifiquem a ascensão ao poder de lideranças carismáticas, como Mussolini e Hitler.

A presença desses líderes nacionalistas que, nas condições atuais, jamais chegarão ao poder, serve como propaganda democrática, fator de agregação e mobilização popular, mas, também, de acobertamento de sentimentos que são cada vez mais visíveis numa representativa parcela dos cidadãos desses países, tradicionalmente cultivados por formadores institucionais de opinião (governantes, políticos, militares, educadores e religiosos), de forma indutiva ou inconsciente. Prova disso é a desinformação, propositalmente cultivada, e a distorção de fatos sobre os países considerados “inferiores” nos meios de comunicação em países do Hemisfério Norte, perpetrada na veiculação sistemática de matérias destinadas a denotar a decadência moral, primitivismo e atraso social do “Terceiro Mundo” – que, reconheçamos, embora
não de forma generalizada, existe -, com o objetivo de exaltar o nacionalismo irracional e suas “tradições”. Tradições? Por acaso incluem nelas sua origem selvagem e bárbara que necessitou da lapidação e polimento das culturas greco-romanas, asiáticas e mediterrâneas, e da introdução do cristianismo, para introduzir-lhes noções mínimas de civilização?

Intrigante é a relatividade que essa doutrinação institucional representa. Muitos dos países que hoje adotam práticas xenófobas geraram imigrantes para os países do “Terceiro Mundo”. Famintos e maltratados pelas elites patrícias de seu tempo, depositaram suas esperanças nas novas terras. Aqui chegaram com seus “nobres” princípios e a tradição de seus povos. Aqui trabalharam. Aqui prosperaram. Muitos adotaram seus novos países como lares, respeitando-os e contribuindo para seu aprimoramento e evolução; outros, entretanto, passaram a fazer aqui, como seus antepassados colonialistas predadores, o que lhes era vetado fazer em seus países: adulteração de pesos, medidas e produtos; promiscuidade; corrupção, etc; tudo sem se sentirem imorais, pois, segundo sua lógica deturpada e oportunista, aqui pode (“não existe pecado ao Sul do Equador”)! Quanto tudo vai bem, louvam a terra que lhes dá o sustento, o mesmo que lhes foi negado em seus países de origem; quando surge o primeiro revés, abominam a baixa estirpe das antigas colônias, e retornam, geralmente ricos, para suas pátrias que, agora, os receberão de braços abertos não pelo que são, mas pelo que obtiveram, perdoados de todos os pecados, pois, para grande parte deles, não há maior remissão que o lucro.
Em contrapartida, muitos dos que lá ficaram, louvam nossa hospitalidade, mas são incapazes de retribuí-la; chamam-nos de devassos, mas fazem turismo sexual com menores de idade; admiram nossa capacidade de adaptação e criatividade, mas nos impõe executivos tacanhos, prepotentes e desqualificados, para não nos deixar ir além de suas pretensões. Por sorte, a maioria desses executivos acaba se rendendo aos atributos locais, participando de um processo evolutivo. Outros, entretanto, tripudiam, atribuindo seus fracassos a má índole e incompetência dos povos. Querem ocupar os melhores cargos aqui, mesmo que incompetentes, mas oferecem restrições de toda a ordem e a clandestinidade em troca.
É a doutrinação, feita desde a infância, que incute que todos são iguais sob o ponto de vista de quem vê, ou quando lhes interessa.

Esse tipo de massificação, aliás, não é privilégio das nações do “Primeiro Mundo”. Podemos constatá-las em todos os países em que prevalece a estratificação social institucionalizada, por motivação religiosa, econômica ou de ideologia política.

Talvez mais grave que as motivações político-econômicas sejam as religiosas que, em muitos casos, embasam e justificam atitudes de verdadeira barbárie, ignorando mandamentos fundamentais e universais, que falam de igualdade entre os indivíduos e da preservação da vida.
O caso do Oriente Médio é emblemático, na medida que representa uma disputa de mais de 6.000 anos entre duas religiões, de origem comum, pela primazia (ou primogenitura), cada uma se achando divinamente justificada em atos de irracionalidade pura, contrariando princípios maiores de suas doutrinas, em nome de interesses seculares, interpretados por líderes tirânicos despreparados para conviver com a diversidade humana, tal qual os “doutores da lei” bíblicos, que conheciam todas as escrituras, vangloriavam-se disso, mas que não eram instrumentos de fé. Pelo contrário, usavam de sua posição para subjugar os humildes e tirar proveito pessoal.

Cada um em sua esfera de influência, esses formadores de opinião, religiosos ou leigos, provavelmente também foram vítimas da mesma deturpada influência que levava seus antepassados a crer em teses de superioridade racial, ou aceitar doutrinas de igualdade entre os seres humanos, desde que fossem os juízes. Era o caso de alguns “líderes” dos primeiros cristãos que, contrariando o Evangelho, exigiam que os convertidos fossem circuncidados, não entendendo que a nova aliança era espiritual, e não física; que a marca da fé devia estar nos corações e mentes e não no corpo.
Ainda hoje, alguns países muçulmanos toleram a prática de mutilações sexuais em mulheres; na Índia, a prática de assassinato de recém-nascidas por motivações justificadas pela religião majoritária ocorre com relativa frequência. Existem, nos EUA, igrejas de mesma origem e denominação, onde os sacerdotes, ao lerem as Escrituras, confirmam a igualdade entre os seres humanos pela vontade de Deus, mas que são frequentadas pelos elementos de raças específicas, que se hostilizam mutuamente. Paradoxalmente, os EUA consideram-se um exemplo de democracia, esquecendo-se que foram berço de: práticas racistas hediondas que nada deviam ao apartheid sul-africano (este também justificado por seus líderes religiosos); teorias eugênicas de esterilização de marginais e deficientes que foram adotadas pelo nazismo; bomba atômica; perseguição ideológica; que apoiaram, sistematicamente, ditaduras cruéis em países em desenvolvimento; que criaram todos os tiranos que hoje combatem; que devastaram seu território; que exterminaram seus índios; que promovem, dentro e fora de seu território, a degradação ambiental, etc. Talvez por isso achem que seu modelo não deva ser seguido, mas admirado, preferindo liderar (por autoimposição) e manipular os destinos do mundo segundo seus interesses de alcova.

Infelizmente, a grande parte dos líderes políticos e religiosos estão mais preocupados com seu sucesso e projeção pessoais e de seus empreendimentos do que com a doutrina ou o discurso que professam. Nesse âmbito, aliás, vale tudo!
Para citar alguns exemplos históricos: as invasões e colonizações – com todos os seus aspectos cruéis (genocídio, escravidão, violência sexual e psicológica), eram quase sempre respaldadas por justificativas de supremacia racial ou religiosa, apesar de seus interesses claramente econômicos; a Inquisição, os tribunais protestantes e islâmicos, também foram responsáveis por inúmeras práticas totalmente incompatíveis com os princípios fundamentais de suas origens; a supremacia ariana pregada pelo nazismo; algumas religiões e seitas novas que se apresentavam, inicialmente, como filosofias de vida abertas a todas as pessoas, independentemente de credo, mas que, de repente, transformaram-se em instituições fechadas e repressoras; ou outras, que proibiam atividades “mundanas” como: esportes, certas indumentárias e acesso a mídias, mas, ao perceberem que isso afastava ou inibia a arregimentação de novos membros, e realizarem o potencial mercadológico desses meios, mudaram convenientemente seus fundamentos doutrinários iniciais. Atitudes como essas já eram aplicadas nos primórdios da expansão de religiões monoteístas, quando práticas pagãs (ritos de passagem, etc.) eram assimiladas como forma de amenizar a transição cultural e reduzir a rejeição.
O objetivo dessas práticas contraditórias – embora, até, justificáveis em seus respectivos contextos históricos – era – e continua sendo, em suas novas versões – dominar não pela razão, mas pelo medo ou pela ilusão.

A melhor época para aplicar esses conceitos é, se sempre foi, a infância. A “Cruzada das Crianças”, as juventudes hitlerista e stalinista, as formações
religiosas radicais compulsórias, etc. têm sido responsáveis pela formação não apenas de “homens-bombas” ou inocentes úteis, de ação pontual, mas de
“líderes” preconceituosos e rancorosos, aptos para serem verdadeiros carrascos da Humanidade, perpetuando ódios e preconceitos.
Quando H. G. Wells escreveu o clássico “A Ilha do Dr. Moreau”, talvez não imaginasse que estava produzindo uma das mais eloqüentes metáforas da
natureza humana. Afinal, o que é a racionalidade senão uma eterna luta pelo domínio de nossos instintos básicos, irracionais, e do aperfeiçoamento de
princípios de civilidade (não confundir com servilismo) em busca de um equilíbrio que possibilite o convívio social pleno?
Quando esse controle é perdido, seja por manipulação, insanidade, etc., temos eventos como: intolerância religiosa, escravidão, corrupção, violência
em suas inúmeras faces, xenofobia, racismo, etc;, que nos aproximam, perigosamente, dos instintos animais da territorialidade e da “Lei do mais
forte”, enfim, da barbárie!

A situação mundial atual apresenta todos esses ingredientes preocupantes, o que nos impõe uma análise profunda do papel dos educadores, em todas as suas áreas de atuação.
Cada criança nascida renova a esperança na Humanidade. Isto é fato! Mas a realização dessa esperança está vinculada a fatores conjunturais que dependem, por sua vez, da formação ou superação dos que serão responsáveis por sua formação.
Mas quem vem ocupando a função de formar? A rigor, qualquer um, desde o religioso mais virtuoso e do leigo mais culto, até o marginal mais repulsivo (independente de classe social, raça ou credo).
As incongruências e paradoxos, então, tornam-se visíveis, exigindo uma enorme capacidade de discernimento para superar os preconceitos, cuidadosa e eficientemente, plantados na infância, ou a arrogância adquirida na fase adulta.

Lideranças, de várias religiões, professam a crença em Deus – apesar de adotarem, conforme o caso, denominações diferentes ao se referirem a Ele.
Louvam seu filho, Cristo, que nasceu pobre, judeu, no “Terceiro Mundo” de seu tempo; que pregou a humildade (não a imbecilidade) entre a Humanidade, e que ofereceu, de graça, o perdão e a promessa de vida eterna. Curiosamente, alguns desses lideres estipulam preços e normas para acesso a essa dádiva.
Isso, aliás, não é novidade, pois muitas das religiões, cristãs ou não, também vincularam as suas escrituras sagradas rígidos códigos de conduta social, expressão verbal e hierarquias elaboradas segundo os padrões morais e interesses das elites de seu tempo. Muitas as mantêm até hoje ditando, inclusive, rígidas regras alimentares e de indumentária que são, via de regra, o meio de sustento e controle de comunidades sectárias. Muitas professam a paz e a confraternização, mas impõe suas crenças a fio de espada, pela dominação física, pelo patrulhamento ideológico, enfim, pela supressão da liberdade.
Tal também pode ser estendido a grupos não-religiosos, onde novos adeptos são arregimentados para serem soldados sem nunca conhecer, exatamente, os objetivos de seus mentores.
Existem várias religiões e grupos que disputam entre si as almas dos mortais. Há as que pregam a virtude da resignação e da pobreza, e as que veem na riqueza e no poder metas a serem perseguidas, como bênçãos divinas reservadas aos “escolhidos”.

A maioria crê no Deus único; muitos se chamam de irmãos; mas poucos – mesmo os mais convictos de sua fé – praticam o princípio da igualdade entre seres
humanos, considerando fatores como: raça, posição social, estética e diversidade cultural e religiosa, como paradigmas de convivência e aceitação
do semelhante.
Muitos criticam e abominam os ícones religiosos, mas criam outros, invisíveis, ao depositarem sua fé em líderes falíveis ou no dinheiro, ao insinuarem que a eternidade pode ser comprada e não merecida.
Todas louvam a Palavra de Deus, mas interpretam seu sentido mesmo quando afirmam que a cumprem à risca, atribuindo às forças do Mal eventuais deslizes de seus adeptos; quando afirmam que nada proíbem, mas que isto ou aquilo não é permitido aos olhos de Deus; quando reconhecem a bondade e caridade de um semelhante, mas sentenciam que isto só terá valor quando este ingressar em sua religião ou grupo; quanto, contrariando a máxima de Cristo de que quando dois ou mais falarem em Seu nome ali Ele estará presente, exortam seu rebanhos e pares a não frequentarem os templos de outras religiões, por considerá-los impuros.

Considerando que as religiões estão, desde os primórdios da Civilização, na base da formação da Humanidade – o que, consequentemente, influencia na evolução de religiosos, educadores e formadores de opinião em geral -, um tal nível de intolerância e alienação pede uma reflexão profunda sobre o papel desses atores e sua importância como agentes transformadores ou destruidores das esperanças que cada novo nascimento traz.
Por quê não conseguem eliminar a xenofobia, o ódio racial, a discriminação social e outros cancros que vêm provocando uma quase metástase social?
Por quê não conscientizam para a integração mundial, em vez de contribuírem para a imposição de limites para a felicidade das pessoas?
Por quê, malgrado alegados princípios religiosos e éticos, permitem que se formem lideranças materialistas desprovidas de qualquer sensibilidade ou mínimas noções de humanismo, de cristianismo, de democracia, de islamismo, de budismo, ou qualquer outro credo ou corrente política que professem?
Por quê deixam frutificar socialistas, capitalistas, comunistas, monarquistas, republicanos, marxistas, maoístas, plenos de retóricas e princípios altamente belos e convincentes, se, no final, quase todos têm como objetivo único alcançar e se perpetuar no poder secular?
Por quê em vez de pregar a igualdade, o perdão, a universalidade da inteligência e a gratuidade do amor divino, estimulam, instrumentam e racionalizam o ódio, a discórdia, a hegemonia e o racismo?

Como aceitam os conflitos entre católicos e protestantes, na Irlanda do Norte; árabes e judeus, no Oriente Médio; as “limpezas étnicas” na Europa Oriental e na África; e outros?
Como permitem que os que, presumidamente, ofendem suas crenças ou discordam de sua linha de pensamento sejam punidos com a morte ou com a desgraça?
Como incitam seus semelhantes a imolarem-se, sacrificando inocentes consigo, mediante promessas, na morte, do que lhes é negado e proibido, em vida?
Como admitem que inocentes sejam punidos eternamente por males que seus ancestrais cometeram?
Será que o ódio é hereditário ou é transmitido por tradição oral e condicionamento? Segunda opção! O ódio não é genético, mas é terrivelmente fértil!
Perguntas e mais perguntas, todas sem respostas convincentes!
Afinal, se luminares religiosos e políticos, de renomado conhecimento teórico e sabedoria, não souberam controlar seus egos ou fobias (os julgamentos da Inquisição; o suplício e execução de Michel Servet, a mando de Calvino, por divergência de idéias; a perseguição de judeus na Idade Média; a tomada de Jerusalém pelos Cruzados e de Constantinopla pelos Otomanos; as fogueiras de Salem; os crimes do nazismo; os expurgos de Stalin contra seu próprio povo; etc.), como esperar isso de seus discípulos?
Será que é mais fácil extrair do ser humano o que ele tem de pior? Será mais fácil e eficiente (lucrativo) criar lobos que cordeiros?
Como questionar, nessas condições, os que, no extremo oposto, julgam que religião é alienante, mas que geram, com seu materialismo, resultados
semelhantes?
Mas se é possível criar um leão e um cordeiro sem que este seja trucidado pelo outro, por quê não podemos fazê-lo, também, com o, dito, racional gênero humano? Utopia?

 

Qualquer atividade de liderança – seja religiosa, acadêmica, empresarial ou comunitária -, demanda uma imensa responsabilidade, que deve ser protegida
contra as vaidades pessoais. De certa maneira, é como um sacerdócio, exigindo conhecimento, dedicação e humildade. Seu exercício inconsequente não gera felicidade nem proveito universal.
Iludir, alienar ou escravizar é como conter uma torrente com material frágil: podemos controlar pequenos vazamentos isolados, mas uma vez rompida a represa o desastre é inevitável e duradouro, inclusive para o construtor.
A Humanidade já provou que é capaz de atingir limites sendo, das espécies existentes, a única capaz de gerar sua própria extinção, por motivo vil.
Jimmy Carter – ex-presidente dos EUA, e atual “paladino” da paz – que se dizia religioso e afirmava conversar com Deus, não teve nenhum escrúpulo ao anunciar, na década de 1970, que a bomba de nêutrons era vantajosa por eliminar seres vivos sem destruir seu patrimônio (bomba materialista)! Irã e Iraque, ambos muçulmanos, protagonizaram prolongada guerra sem vencedor! A antiga URSS fazia experimentos com armamentos sofisticados (ultrassom, etc) em áreas habitadas, sem o conhecimento da população.

Há tempos, a maioria dos estados ocidentais é de orientação leiga, provavelmente para colocar-se acima de disputas religiosas ou, quem sabe, para livrar-se dos escrúpulos de morais que a orientação espiritual propugna. Apesar de, teoricamente, distantes das tentações do poder secular, as religiões, mesmo as universais, não conseguem eliminar as barreiras e ressentimentos locais ou externos. Algumas, inclusive, preferem promover a divisão e disputar adeptos, como forma de assegurar meios de subsistência administrativa.

Nos estados teocráticos ou ateus, a prática de perseguições ou conversões ou abjurações forçadas também nada contribui para o enobrecimento da Humanidade.
A exaltação do poder econômico, a contextualização de “verdades”, a organização das sociedades em castas e a degeneração da ambição em cobiça,
só têm contribuído para a concentração de poder nas mãos de alguns “iluminados”, que se consideram no direito de decidir sobre a vida e morte,
e a felicidade ou não, de seus seguidores ou semelhantes.
A Humanidade caminha por uma tênue fronteira que separa o próximo passo ascendente na evolução do abismo que leva ao retrocesso total… ao caos!
Podemos não ter, desde 1945, guerras mundiais, quentes ou frias, reais ou virtuais; mas temos conflitos e tensões em todas as partes do mundo.

A “Nova Ordem” está matando mais do que as guerras mundiais; e a globalização, em vez de integrar, está acentuando abismos, agravados pelas atitudes xenófobas, que nada mais são que reflexos da fragilidade da economia dos países desenvolvidos e do temor de perda de identidade cultural embasada não na grandeza espiritual de seus povos, mas em reminiscências anacrônicas de grandeza baseada na espoliação e humilhação de vencidos.

A globalização da Humanidade – fato ansiosamente aguardado desde o episódio da Torre de Babel – tem que ser um caminho de duas mãos, que começa com a eliminação de preconceitos econômicos, nacionalistas, raciais e religiosos, enfim, de todo esse arcabouço que o ser humano construiu para separar – no melhor estilo: “Dividir para dominar” – o que Deus quer unido.

Quem quiser compartilhar dessa utopia tem que operar essa mudança de postura em si próprio, primeiro, para, depois, como educador leigo ou religioso, iniciar a árdua tarefa de formar uma nova geração, capaz de conviver com a diversidade, resolver problemas com inteligência, sabedoria e solidariedade, e multiplicar esses conceitos, de forma consistente e duradoura, em seus descendentes e, enfim, transformar a face da Terra!

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