As “dimensões” da vida

por Adilson Luiz Gonçalves

 

Adilson Luiz Gonçalves é engenheiro e professor universitário.Santos – SP
algbr@ig.com.br

Você é um mago dos negócios e alcançou seu primeiro milhão antes dos trinta? Parabéns!

Você descobriu uma nova técnica ou um invento revolucionário? Sensacional!

Você bateu um novo recorde esportivo? Que façanha!

Você realizou o sonho de comprar aquele carro importado maravilhoso? Puxa!

Você alcançou fama com seu talento? Que bom!

Para você o sucesso é uma escada e cada degrau é um novo desafio a ser enfrentado com coragem e motivação.

Você espera viver muito, rodeado de gente rica, bonita, alegre e “sarada”; e toda a sua vida é voltada para conquistas, descobertas e prazeres.

Graças aos seus feitos a Humanidade alcança, a cada dia, novos estágios intelectuais e físicos.

Sua morte, após uma velhice ditosa e calma, talvez cause comoção pública, luto oficial, homenagens, visitações intermináveis, repercussão na mídia e denominação de empreendimentos públicos e privados. Provavelmente, seu nome será inscrito na História, como um ícone a ser cultuado ou uma meta a ser superada.

É isso que você quer e nada pode desviá-lo de seu caminho triunfante. O caminho é difícil, mas você está disposto a todos os sacrifícios para trilhá-lo e nada desvia seu olhar do objetivo!

Seu mundo é perfeito e maravilhoso e seu segredo é não perder tempo com o que não tenha futuro! Não há lugar em sua vida para quem não pense como você!

Verdade?

Então, qual o valor que você daria para aqueles de lidam com o inevitável, com a dor e com a falta de esperança, tentando dar um pouco de amor, consolo e dignidade aos que não tiveram a mesma sorte que você?

Em sua escala de valores, como você pontuaria os que dedicam suas vidas ao cuidado de doentes terminais ou portadores de doenças infecto-contagiosas ainda sem cura?

Você teria coragem de dar carinho, esperança e força para uma criança que, inocente e indefesa, enfrenta o abandono ou perda de parentes, a dependência absoluta dos outros, as dores de um tratamento agressivo e interminável e a indiferença ou preconceito de uma sociedade que só lembra dos males do mundo quando um de seus membros é afetado?

Há os que dizem que as doenças congênitas, as síndromes e as DSTs são castigos divinos por erros cometidos nessa ou em outras vidas! Alguns chamam seus portadores de “pobres diabos”! Outros pregam a esterilização, a eugenia, a eutanásia ou o isolamento, como faziam com os hansenianos.

Pura estupidez! Na verdade, ligadas à vida por um fio, elas estão mais próximas de Deus do que nós!

A vida tem várias dimensões e não é preciso fazer regressões, saídas em astral ou desencarnar para tomar conhecimento delas. Às vezes ela nos toca e permite que nossa visão se amplie, revelando o que a alienação esconde.

Graças a isso temos a benção de existirem pessoas que aceitam, de corpo e alma, a missão de manter os frágeis laços que mantêm essas pequenas vidas, enquanto houver um fio de esperança.

Elas, normalmente, ganham pouco ou são voluntárias, enfrentam a escassez de recursos e vivem totalmente de recursos públicos e da caridade. Enfrentam, resignadas, a certeza de que o único sucesso que podem alcançar é aliviar o sofrimento dos outros; e, mesmo assim, conseguem extrair um sorriso, fazer uma brincadeira e alimentar um sonho infantil.

Conviver com a desesperança sem deixar-se contaminar por ela é uma obra de gigantes! E é assim que elas encaram as crises, administram conflitos e vencem desafios. Os recordes que perseguem são: a sobrevida e a dignidade!

Provavelmente, seus nomes não serão lembrados e raramente denominarão prédios públicos, mas são vencedores de fato! Talvez nunca tenham muitas posses ou troféus, mas espiritualmente estão a anos-luz de distância dos que dão valor extremado a isso.

Poucos de nós têm “estômago” para fazer esse trabalho – realmente, essa tarefa não é para qualquer um. O mínimo que podemos fazer é não ignorar essa dimensão da vida.

Encare essa crise como uma oportunidade de lucro no mercado, extremamente lucrativo, da paz de espírito!

Essas pequenas vidas, embora limitadas, não são fruto de um castigo de Deus, mas a semente de uma possibilidade divina para expiarmos ou evitarmos os erros de uma existência frívola e egoísta!

A Humanidade precisa, sim, de descobertas, superações e evoluções, mas também precisa de caridade e solidariedade! Precisa de gênios, mas também precisa de anjos!

Se não pudermos sê-los, que ao menos tenhamos a humildade de agradecer pela saúde de nossos entes queridos e pelo fato da maioria, senão a totalidade, de nossos problemas ter solução. Também devemos agradecer pela existência desses seres que compensam nossas deficiências de espírito, fazer-lhes uma contida e respeitosa reverência, bater palmas e, principalmente, ajuda-los no que for possível!

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