O entregador de jornais – uma homenagem ao povo brasileiro

por Sandra Kezen

Sandra Kezen é professora e coordenadora do Laboratório de Línguas da Faculdade de Direito de Campos e da Faculdade de Odontologia de Campos.
Comentários para a autora : sandrakezen@fdc.br

Todos os dias, bem cedinho, entre cinco e meia a seis horas, ouço um rapaz que passa cantando pela rua. Ele vem de bicicleta, entrega jornais. Canta bem alto, nada afinado, e vai seguindo. Não o conheço, nunca o vi. Nem dá para vê-lo: o muro é alto, para proteger a casa, e há pouco espaço entre as tábuas do portão. Mas ele está lá, faça chuva ou sol, frio ou calor, fazendo o seu trabalho, cantando. Em que outro país se vê isso?

O brasileiro tem fama de acomodado. Não é: o brasileiro é um lutador, que, dia após dia, batalha por uma vida melhor. Essa é nossa maneira de lutar, pacificamente.

Na verdade, nós, brasileiros, somos sonhadores, que, no fundo, bem lá no fundo, acalentamos velhas esperanças: de que o ano novo seja mais leve, menos sofrido, e que traga novo alento a nossas vidas. Ainda acreditamos na humanidade, achamos que o homem tem jeito, que nem tudo está perdido.

Nós, brasileiros, somos pacientes: sabemos esperar.

Somos criativos, sabemos nos virar com o que temos e viver da melhor maneira que podemos.

Somos solidários: gostamos de ajudar, cuidamos de nossos familiares, somos muito « família ».

Somos alegres, festeiros, gostamos de música, de cantar e de dançar.

Somos carinhosos, gostamos de receber e de demonstrar afeto. Recebemos estrangeiros como nenhum outro povo: com interesse, com respeito, até com reverência, muitas vezes.

Somos extrovertidos, adoramos bater papo e beber cerveja num bar.

Somos debochados, irreverentes, sabemos rir das nossas próprias desgraças e aprender com elas.

Somos devotos. Não importa a crença: temos muita fé.

Sabemos cozinhar bem: nossa comida é bem temperada e apreciada por todos.

Somos novidadeiros, lançamos moda pro mundo inteiro.

Somos bonitos: a mistura de raças neste país produziu belezas raras.

Por essas e outras tantas coisas é que não aceito essa conversa fiada de que o brasileiro é preguiçoso. Isso é «papo de gringo», que o brasileiro ouviu e acreditou. Tem que reprogramar urgente: somos batalhadores, e muito ! Não importa o que digam: somos guerreiros.

Apenas estamos começando a exercer nossa cidadania há tanto tempo abafada. Apenas estamos engatinhando na prática da democracia, com erros e acertos. Estamos amadurecendo como nação. Não temos que copiar modelos de nenhum outro povo, temos que criar nossos próprios modelos, de saber o que funciona para nós e investir nisso.

Temos ainda um longo caminho a percorrer. Mas chegaremos lá, sem dúvida alguma, à revelia de quem não acredita em nós. Já somos vencedores, por sobrevivermos em meio a tantas dificuldades. Somos vitoriosos: podemos levantar a cabeça e caminhar com passos firmes, com orgulho de nossas realizações, acreditando em nós mesmos, em nossas capacidades e em nossas potencialidades.

Por isso é que dedico essas palavras ao entregador de jornais, um jovem como tantos outros deste país, que acorda cedo e batalha, sonhando com um futuro melhor. Que seja melhor. E que venha logo! Para todos.

Comentários para a autora: sandrakezen@fdc.br

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