Arteiros e artistas: fragmentos possíveis da interpretação e do prazer no labirinto interativo pós-moderno

Cena de O passageiro – profissão repórter (1975) com J.Nicholson e M. Schneider

por Ana Marina Godoy

Ano III n.42 fevereiro de 2004 como www.partes.com.br/ed42/cultura.asp

 

Arte ou futilidade? Arte ou inutilidade? Arte útil? Ou arte fútil? Cópias de peças que garantem o mesmo pão de cada dia? Numa série de dias rotineiros

 

Ana Marina Godoy é turismóloga formada pela UFPR, profissional de marketing através de MBA pela Fundação Getúlio Vargas e consultora em ambas as áreas

Ir a uma loja de antiguidades ou à feira hippie nos domingos curitibanos é caminhar muito além dos passos de turistas ou curiosos. São convites a desvendar as bugigangas e similares. Arte ou futilidade? Arte ou inutilidade? Arte útil? Ou arte fútil? Cópias de peças que garantem o mesmo pão de cada dia? Numa série de dias rotineiros… Me lembro do artista Edson Barrus, num artigo de jornal*, declarando:”acredito na precariedade, na falta de autoria, na apropriação”. No artesanal e em série?

Na frente da Sociedade Garibaldi, exemplo de cópia arquitetônica e “replay” de arte europeia, vários pintores expõem seus quadros. É obrigatório o garimpo para encontrar uma originalidade. Barrus, ao meu ouvido, novamente: “A qualidade é um parâmetro de exclusão”. Todos os desenhos e todas as pinturas feitos com evidentes tintas e traços comuns, sem estilo especial.

Mas o comum é sem qualidade? Que é o auditor? As cores agradam aos olhos e as flores se multiplicam. Muitas são da mesma espécie, mas de variados tamanhos e assinaturas. Estilo? Não! Divertimento! Prazer! E trabalho.
Honesto e “sujo”, ao mesmo tempo! O curador e crítico de arte, Luiz Camillo Osório, aparece e me diz: “Nós vivemos uma crise vocabular, uma crise de sentido, uma crise das categorias legadas pela tradição. Um tal vazio semântico exige uma postura, uma vontade de inserção que está presente nesses grupos”. Ele me foi apresentado pela jornalista Juliana Monachesi, quem escreveu um artigo intitulado “A explosão do a (r) tivismo para o jornal Folha de S. Paulo no dia 6 de abril deste ano.

Paro para conversar com um artista (?). Ele pinta paredes também, me conta. E faz propaganda.
O que é produzido em série também pode ser “fora de série”! O símbolo é cada vez mais individual. Embora a embalagem remonte à ideia fordista e de Andy Warhol, com a sopa e a moça loira – bem conhecida, inclusive – repetidas, deixando claro que ele prefere bastante daquilo que gosta e, para tanto, melhor que existam iguais, como as latas de sopas nas prateleiras do supermercado; o conteúdo é muito da criação do receptor, do experimentador, do interpretador. A gente vivencia o que quer e como quer. A realidade virou
virtual. E brincamos com os significados e com as apreensões da realidade para estarmos na atualidade – ou fora dela?! – e chegarmos ao alvo: sermos felizes!

A arte, tanto do pintor de paredes de segunda a sexta e de flores aos sábados e domingos, como as sopas degustadas em quantidade e em cores por Warhol, são frutos da busca. Seja para ganhar o ganha-pão ou para degustar a
variedade idêntica produzida por si, procura-se, artista ou arteiro, o prazer, momentos de felicidade.

Escolher entre a virtualidade (cibernética ou no plano da imaginação como primeiro e último) ou a tecnologia do pincel são duas das opções que se tem num tempo em que se criam as respostas e as alternativas que mais trazem prazer ao utilizador delas, seja na arte ou na vida. Démodé é a rigidez, o fazer sem gosto. O perder tempo sem serotonina no cérebro.

Para tentar dar forma a este castelo de areia que é a pós-modernidade, frágil, provisório, convidativo ao faze-lo, desfazê-lo e ter medo de tentar ou de não tentar nele mexer, utilizo as palavras de Nicolau Sevcenko (literato brasileiro, escritor coajduvante do livro “Pós-Modernidade”, da editora da UNICAMP, 1993): “o pós-moderno sem dúvida traz ambiguidades – aliás, é feito delas e deve ser criticado e superado. É isso que ele propõe: a prudência como método, a ironia como crítica, o fragmento como base e o descontínuo como limite”. Estamos na época da chance: “o aprendizado humilde, que já tarda, da convivência difícil mas fundamental com o imponderável, o incompreensível, o inefável – depois de séculos da fé brutal de que tudo pode ser conhecido, conquistado, controlado”. Estamos sem chão.

Fronteiras vastas. Nós como deuses. Buscando um Pai seguro. E a verdade aparece vestida de resposta. Já como dúvida.
Entrando num antiquário, ali mesmo no Largo da Ordem, vejo no mesmo ambiente, antiguidades e relíquias e peças produzidas em série – xícaras, canecos e afins – produzidos em série. E assinados por artistas, pois o desenho multiplicado é de autoria chique. Como afirma Dominic Strinati (no livro “CULTURA POPULAR – uma introdução, da editora HEDRA, 1999) “consumimos cada vez mais imagens e signos em consequência do interesse por si mesmos, e
não por sua “utilidade” ou pelos valores mais fundamentais que simbolizam”.
Poucas pessoas, imagino, desembolsarão quantia tão alta para usar estes objetos. Ficarão na cristaleira. Ou em exposição, num lugar alto na cozinha.
E sempre que amigos aparecerem em casa ostentarão a assinatura do artista.
Em sua cozinha. Parte do cotidiano (?).

O tic-tac de um relógio de carrilhão ao lado de um cuco barroco. Viajo no tempo. As linhas art nouveau me levam a protagonizar por instantes, em meu imaginário – onde sou a artista em todos os aspectos e funções-, um filme  hollywoodiano. Converso comigo com palavras de outros: “É simplesmente começar a chegar e sentir e interagir com os outros para criar “situações” baseadas no que cada pessoa está fazendo no momento(…) para fornecer um
novo modelo de significação produzido ativamente, e não passivamente (isto é, institucionalmente) recebido; e criar algo que possa ser discutido, mas nunca entendido, pelo olho treinado e controlador, algo sem potencial comercial, mas de valor além de seu preço, que depende da situação, não do estilo ou do conteúdo”, segundo manifesto publicado no site www.resdochao.hpg.com.br e extraído do artigo “O jogo das subjetividades convergentes” de Juliana Monachesi, na Folha MAIS! do jornal Folha de S.Paulo.
Strinati aparece e diz ”o pós-modernismo considera o cinema contemporâneo indulgente com a nostalgia; um cinema que revive o passado, saqueia-o em busca de ideias, recicla suas imagens e tramas e cita-o engenhosamente em paródias conscientes”. Teorias encaixando na prática.

Quase 22 horas. Eu acordo cutucada pelo professor de Processos Midiáticos.
A carteira com babas…Ele, muito gentil, mas fazendo questão de me atentar a aula, indaga: “Onde estão suas anotações? O que é isso no seu caderno?”.
Está passando um documentário na TV; um vídeo ou DVD; não sei ao certo. O que sei é que, dessa vez, não conseguiram minha atenção.“É um labirinto, professor”, respondo. Arteiros e artistas: fragmentos possíveis da interpretação e do prazer no labirinto interativo pós-moderno.

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