Segue a Amazônia seu ritmo natural?

Por Gilberto da Silva

Revista Partes – Ano V – dezembro de 2004 – nº 52

Gilberto da Silva Jornalista e sociólogo

Amazônia em chamas
Sim, não é bater no mole, chover no molhado etc. O fato é que a Amazônia corre perigo. A maior floresta equatorial do mundo passa por um acelerado processo de destruição. Os números são evidentes e cruéis. Entre agosto de 2002 e agosto de 2003, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais registrou a segunda maior devastação dos últimos anos na Amazônia. Seguindo esta rota em 50 anos, teremos o caos, o caos total do crime: a morte da Amazônia.

A parte do governo
O governo tenta fazer alguma coisa. No inicio de novembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criou duas novas reservas extrativistas em regiões de conflito no Pará: a Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio e a Reserva Extrativista Verde para Sempre. Duas reservas em áreas que sofrem com a expansão da exploração madeireira e que sofreará o impacto do asfaltamento da BR-163. Mas não esperem flores por parte dos madeireiros ilegais e dos grileiros da região.

A BR da discórdia
A BR-163 liga o estado do Rio Grande do Sul ao Pará, já na divisa com a Guina Francesa. O projeto de asfaltamento prevê a pavimentação do trecho que vai do norte do Mato Grosso até Santarém, no Pará. É uma área que engloba 65 municípios e atingirá uma população estimada em 1.744.097 habitantes composta por terras indígenas, área militar, área de proteção integral, área de uso sustentável e de assentamentos de reforma agrária.

Cobiça internacional
O homem é o lobo do homem, no reino da cobiça a Amazônia é um prato maravilhoso para ser consumido. Maior banco genético do mundo, A Amazônia legal é composta pelo Acre, Amapá, Amazonas, Rondônia, Roraima e Tocantins, além de parte do Mato Grosso e do Maranhão. Na luta contra a devastação, pouca coisa poderá sobrar. Será possível reverter esta quadro?

Pessimismo
Estou para seguir o lado mais desfavorável. O ambiente segue a economia. O desenvolvimento da agricultura, a expansão da agropecuária e da industria vai continuar. E com este desenvolvimento , mesmo como medidas compensatórias, provocará danos irreversíveis ao meio ambiente. Neste caso não adianta bom fogo, queimada do bem ou bom manejo. Tudo que é sólido desmancha no ar.

Malária
No Brasil, são registrados 500 mil novos casos de malária por ano, sendo que 80% deles ocorrem na Amazônia. Com base nesses dados, e no fato de que a doença ainda não tem cura, o engenheiro agrônomo Lin Chau Ming, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, desenvolveu um estudo na Amazônia com o objetivo de catalogar o maior número de espécies utilizadas no tratamento da malária. Os cientistas registraram 126 espécies utilizadas para amenizar os sintomas da doença. Os primeiros testes foram realizados no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Os nativos foram ouvidos. A segunda etapa da pesquisa deverá ocorrer no início de 2005 com outras espécies do estado de Rondônia, as plantas identificadas serão testadas diretamente contra o Plasmodium, o protozoário causador da doença.

O Dia da Consciência
Frei Bartolomeu de Las Casas defendeu com emoção e firmeza perante o Vaticano os nativos da América Central. Testemunhou cenas humilhantes, ultrajantes dos colonizadores espanhóis. Conseguiu convencer a Igreja de que os nativos eram também filhos do Pai. Por séculos os europeus não reconheceram outros seres humanos como pessoas. Com Las Casas vitorioso, era necessário arrumar outra mão-de-obra para compensar os colonizadores espanhóis. A Igreja sugeriu, então, mais pela omissão, que os espanhóis seguissem o exemplo dos portugueses que escravizavam o africanos negros, pois estes não eram feitos a sua semelhança. A porta ficou aberta para o racismo.

Gilberto da Silva
gilberto@partes.com.br

 

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