Ao cair os restos

Por Edson Bueno de Camargo

Revista Partes – Ano V – janeiro de 2005 – nº 53

 

ao cair os restos

 

ao cair os restos da tarde

em trapos de bandeira

espalma a fina poeira

recolhe-os na palma aberta

 

contrários entre si são os jogos

auto-sedução e comiseração

perdidos em auto flagelo

 

os dados atirados ao acaso

ricocheteiam no tampo da mesa

observo bolas pretas

sulcadas em velho marfim

(amarelo e com micro-trincas)

se confundem ao buscar

o pano verde e horizonte

 

não há amigos

quem são os que se vislumbram

nos outros cômodos

escondidos que estão

nas frinchas do assoalho

no smog da noite e cigarros

 

repleto de olhos tristes

ao mesmo tempo vingativos

neblinas acusadoras

 

a esses

servimos adagas e garfos

forma de peixe e cabos de ágatas azuis

sobre baixelas de prata e gelo

(o gelo fino dos trópicos)

 

_

 

as cartas se abrir

e sem resposta

sussurram arengas antigas

(guardadas num baú

ainda sob a cama)

 

_

 

tenho vivido como que morto todos os dias

ressuscito a fórceps todas a manhãs

remorro de novo ao escurecer

 

não há gozo sobre a glória efêmera

não o menor prazer sem conseqüências

remorsos com pontas de diamantes

 

eu que tenho todas as respostas

procuro perguntas aos forasteiros

e monges mendicantes de pés feridos

 

folheio um novo livro

o Oráculo Pessoal

de Baltazar Gracián

 

o prudente é invisível

aos olhos de todo o Mal

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