O carteiro e uma história

Por Adilson Luiz Gonçalves

Adilson Luiz Gonçalves
Rua Maestro Heitor Villa-Lobos, 27/22
Santos – SP

Aix-en-Provence é uma cidade do Sul da França conhecida, entre outras coisas, pelas universidades e museus que abriga. A conheci em 1986, por conta de um convite para proferir uma palestra no Rotary Club local, na qualidade de bolsista da Fundação Rotária.

Antes da apresentação, um sócio, com um sorriso mais que cordial, fez questão de apresentar-se: ele havia morado no Brasil, por alguns anos, no início da década de 1970. Falou, com emoção e saudosismo, das lembranças que guardava e do prazer do trabalho que havia desenvolvido aqui.

Curioso, entrei em detalhes e soube que ele havia participado da equipe de consultoria da “Poste”, empresa estatal de correios francesa, que havia vindo ao Brasil para auxiliar na modernização do sistema postal brasileiro.

“La Poste”, na França, sempre foi sinônimo de confiabilidade, segurança e rapidez, enquanto que, no Brasil, os serviços postais estavam, tecnicamente, bastante defasados. Somente o carteiro era poupado de críticas, tão conhecido e aguardado como o padeiro e o leiteiro, que ainda circulavam pelas ruas. “Faça chuva ou faça sol…”.

As mudanças, depois da reformulação efetuada, tornaram a EBCT um modelo de eficiência e credibilidade. Todas as pesquisas de opinião pública, elaboradas a partir de então, sempre apontam os serviços da empresa entre as três instituições mais confiáveis do país. Eu mesmo havia comprovado sua qualidade, por conta dos preparativos para a viagem de estudos e quase um ano de permanência na França. Os prazos eram cumpridos e regulares, as remessas chegavam incólumes.

Cumprimentei o experiente técnico francês com sinceridade, confirmando a excelência do resultado de seu trabalho. Ele ficou especialmente agradecido quando incluí a parceria “La Poste” / EBCT em meu discurso, como exemplo de relacionamentos de sucesso entre o Brasil e a França.

Quanto retornei ao Brasil, meus parentes contaram, que quando o carteiro avistava minha mãe, na janela, já acenava para avisar: – Hoje tem carta do filho! Era a presteza do sistema aliada ao romantismo secular do portador de notícias. A “caixinha” daquele fim de ano foi, merecidamente, “gorda”…

Mas esta não foi a última vez que o Correio “mostrou serviço” para mim… No final de 1989 eu o usei como um escudo contra a minha timidez quando, com medo de ouvir um não a um convite para sair, enviei um cartão de fim de ano, apócrifo, para a “vítima”. No texto – manuscrito -, além de desejar-lhe boas-festas, sugeri que gostaria de sair com ela, mas só se descobrisse quem eu era. A fórmula era simples: se ela ligasse para mim e dissesse uma frase indicada, e eu respondesse com outra – ambas sem maiores conseqüências -, isso significaria um “sim” ao convite. Caso contrário, eu não tocaria mais no assunto.

Convite semiplatônico… Timidez quase patológica!

Para minha surpresa, no dia 31 de dezembro o telefone de casa tocou… Minha irmã, em tom malicioso, avisou que era uma ligação para mim…

Cheio de expectativa e meio desnorteado, ouvi sua voz retribuir os votos, mas sem dizer a frase-código! Só faltou o “seu tolinho” quando ela disse que havia reconhecido minha caligrafia, comparando com outros textos que havia lido, no escritório.

Saímos a primeira, a segunda, a terceira vez… Pois é… Coloquei a timidez num SEDEX e despachei para a Cucamonga. Já meu coração… Entregue à ela, em mãos! Esse ano vamos completar quinze anos de casados!

Outro dia, enquanto conversávamos sobre lembranças e planos, num dado momento ela parou e olhou para mim por alguns instantes, silenciosa, com um misto de carinho e reprovação. Eu já estava ficando preocupado – parecia que ia levar uma palmada -, quando ela pegou minha mão e me deu um beijo, para depois dizer:

– Ah, se o Correio falhasse…

Ainda bem que não falhou! Valeu, Sr. Carteiro!

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