Pedra filosofal, filosofa?

Pedra filosofal, filosofa?

Gilberto da Silva

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Aproveitando a rara beleza de uma imagem natural,
sentei-me ali frente ao mar.
Um pensamento recorrente invadiu-me a alma, violento feito uma onda, forte como um barulho, sólido como uma pedra.

Acabara de sair das águas mornas e salgadas do mar.
E comido chocolates… (“pequena suja”…) assim, numa espécie de homenagem pessoniana, sentei-me numa pedra.

Úmida, fresca, a pedra calada.
Eu caído num pensamento único.

Maturar minha idade com filosofia:
“há, depois de um certo tempo já se perde a noção do próprio tempo!”. Tudo transcende, transforma-se.
Fundia-se eu, a pedra e a necessidade da filosofia.

Quase instantâneo pensei: “não comi outra coisa– exceto chocolates.”

E a pedra ali, feito pedra, pura pedra
gélida, molhada, assexuada.

Pensar que já havia me banhado nas águas do mar e sentado naquela pedra e nada de filosofias!

Ao longe, avisto um sujeito que parece colocar em práxis ecológica sua realidade concreta. Ele recolhe restos de detritos ao longo da praia.
Estaria ele fazendo também uma ecologia mental?

Volto ao meu Eu, um ser aparentemente normal.
Preferi amar ecologicamente ao longo da vida.
Amei tudo com muita intensidade,
tudo com paixão.

Na opção entre a liberdade e um amor prisioneiro,
preferi o amor da liberdade,
preferi o amor livre.
Preferi o amor na infidelidade,
O amor da fidelidade.
E o amor na volúpia.

Em alguns momentos, o que não era permitido preferir sucumbia aos códigos:
da sociedade moralista, religiosa, jurídica.

Joguei muitos jogos individuais ou coletivos,
muitos, perdi; outros, nem sempre ganhei.

Em todo momento exercitei o triunfo do bem,
mesmo acossado pela força do mal.

Enfrentei conceitos de modernidade, moralidade e atraso.
Só nunca atrasei a pegada do meu trem!

Vi os racismos transitarem,
presenciei a violência dos homens,
preferi não exercitá-la.

Vivenciei manipulações
negações,
guerras, fruto da luta entre dominados e dominadores.

Lutei contra todo tipo de instituições:
As penitenciárias, as psiquiátricas, as familiares, as mais vulgares.
Aboli a familiar; a escolar, abandonei.
A hospitalar, fugi ao tentar escapar de um tratamento sem cura.

Agora, sentado na pedra, realizo uma quase semi simbiose, ou sei lá o que biológico.
Um quase não perfeito tratado filosófico.
E uma certeza de que passarei.
de que a pedra ficará
e a filosofia eternizará.

Creio que o tempo passa e com ele
o amor, o desamor, o matrimônio, as experiências amorosas, os sexos, a moral,
Virtudes e vaidades,
Ciúmes e crueldades.
Moral, moralidades.

Certo de que as pernas não suportam mais o corpo moribundo.
Pois frágeis, já pedem socorro. Penso na matéria que se vai.

Certo de que em alguns momentos lampejos de felicidade excitaram-me.
Nessas horas, corria para a academia, ia a um baile, mastigava chocolates!
Hedonizava.
“se sofri e se chorei”…..

Para completar aqueles momentos de neurose, já saciado e feliz,
preparava um café quente, bem forte.
Prazer e desprazer alternavam-se.

Alguém sempre me disse:
“liberdade, prisão, realidade são conceitos muito abstratos.”

O animal homem vê o belo no outro,
e reflete-se no espelho.

Ele é capaz de ter emoções ambíguas como
amor é ódio, ciúmes e rancor e para tentar viver bem
fabrica o consenso.

O animal homem é este ser que observa
revela, copia e justifica!

Tudo bem explicadinho dentro de uma teoria filosófica.
Validamos ou não, experimentamos ou não.

O Sol emitindo seus últimos raios do seu ciclo diário
e acometido de uma profunda necessidade biológica de alimentação,
quer dar seu último de derradeiro suspiro.

Tenho que me desvencilhar desta pedra.
Concretizo:
se o homem é mais que a natureza, se ele raciocina,
ao chegar ao longo da vida, neste estágio natural, nada mais me impressiona.

Vou, então, comer chocolates!

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