O Maldito Fraga

Por Gustavo Dumas

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O Maldito Fraga publicado em 26/01/2006

Gustavo Dumas é escritor e revisor de textos. Publicou, em 2005, assinando como Zeh Gustavo, o livro de poesias “Idade do Zero”, pela Escrituras Editora.

Bem sabemos que obra literária nenhuma existe sem uma autoria. No caso específico da prosa, cabe ao autor, inicialmente, construir um narrador; depois, uma estória para seu narrador ir contando, e nela, é claro, encerrar personagens e conflitos que se resolverão (ou não…) no fim da narrativa. Sabemos ainda discernir com certa facilidade, separar as figuras de autor-narrador-protagonista. Não nos é difícil executar essa separação num livro literário normal, ou seja, naquele que segue em princípio o paradigma literário-narrativo clássico. Pois que os modernistas mais badalados e seus maiores herdeiros visaram a justamente interromper o olhar facilmente ledor do leitor comum, e a debater com o julgamento viciado do mais chato estudante de letras. Livros como Macunaíma e Memórias sentimentais de João Miramar, de Mario e Oswald de Andrade, respectivamente, serviram para tanto. E é aqui neste nobre e importante e implicante grupo que podemos inserir a novela Desabrigo, de Antônio Fraga, agora relançada junto a contos ainda inéditos do autor – os outros trecos do título. Fraga puro é o livro.

O livro em si é uma agressão, porém uma agressão consternada: um tapa de amor. Ou um sangue de cachaça de que acadêmico nenhum se deve servir. Em Desabrigo convivem o drama de nossa malandragem e a malandragem de nosso drama. A voz do autor é uma voz rimada de quem não fez uma pesquisa de linguagem, e sim uma pesquisa de vida. Não se trata da voz pedante de quem faz uma concessão ao narrar um episódio do pessoal das esquinas. E é justo nessa pesquisa de vida que a linguagem se embute, porque autoritária à vivência daquela gente que se vira na vida. A linguagem é a própria estória. E o autor é o narrador, que coincide ainda com os personagens e o cenário. Complicado?! O meio trata de permitir a construção desta linguagem-estória, legitimá-la. A linguagem acaba sendo, assim, também a grande paisagem do livro, paisagem humana e geográfica, paisagem social da marginalidade de um país. E a linguagem, por conseguinte, advém do autor, sua vida, suas brigas, sua experiência: é, afinal, Antônio Fraga.

Fraga (1916-1993) é um daqueles autores únicos que assumem um projeto de literatura – e de vida – sem que se perca em mesquinhas concessões, por dispor de uma consciência estética quiçá contrária a qualquer normalidade estagnadora da arte. Fraga não ligou em vida sua obra a um estabelecer, não se fez um profissional das letras; permaneceu nele um instinto amador que casou excelentemente com a oportunidade de uma estética que quis aprofundar os experimentos do modernismo e fazê-lo alcançar maturidade. Isto segundo Oswald de Andrade, na contracapa do livro: “O que há, não é post-modernismo e sim a nova literatura do Brasil. Veja: na prosa a maturidade esta aí, em Clarice Lispector, em Guimarães Rosa, em Antônio Fraga.”

O que importa, pois, em Desabrigo, não é nem tanto os fatos narrados, e sim o “fraga” de toda uma situação e de sua ética improvisada para a imediata sobrevivência no meio: os tipos, a gíria, o pitoresco, aquelas teias de solidariedade espontânea e ingênua que a precariedade material cuida de estabelecer. Um exemplo: “Cobrinha andava teso pra chuchu Embora fosse safo tava dando uma azia danada Bem que ele podia afanar um estácio ou topar o basquete mas não era guindaste para enfrentar batente e não queria se encalacrar com a dona justa” – assim mesmo, sem pontuação e prenhe do linguajar e do ponto de vista que caracterizam o marginalizado/malandro carioca de décadas remotas (remotas?!…). Garrafas se quebram, fome se passa, bebe-se em demasia, bate-se, mata-se, todo mundo se defende; mas, na hora da dita, na hora em que o côro comi, prevalece um senso de justiça que nossa democracia tão frágil, por vezes bundona, com seu politicamente correto hipócrita não conseguiu ainda assimilar. No mundo-estória de Desabrigo, respira-se cultura, anarquia, poesia maldita.

Fraga institui o tipo de um jogador-narrador que usa de um naturalismo cômico descomprometido. Isto se evidencia até em seu diálogo violento com o que se costumou chamar de modernidade: o escritor e o homem Fraga a espezinham, proclamando a virtude de um fazer literário literalmente marginal. Tudo porque sua prosa desobriga e desabriga a palavra; a linguagem “se boemiza”, arrasta-se bêbeda sem um rumo previsível, sem um sentido lógico específico, sem destino e prumo; sua palavra arrasa com a tradicional e facilmente marcada lógica da causalidade, papai-mamãe que todo crítico ou resenhador procura inexoravelmente em sua cama macia, que é o livro obtido do suor alheio. A palavra sobrevive, na e da errância se sustenta, alimenta-se de sua própria incapacidade de (a)fixação, sabendo-se “evêmera”, daí leve, e vai decaindo até encontrar um ponto final inexistente, inusitado. A palavra conhece que não é a verdade – não há letra maiúscula para iniciar a novela, como se também não houvesse um início legítimo a se reconhecer, e sim uma saída, uma fuga ajeitada a todo momento para uma situação humana irreversível. Destaca-se ainda, sobretudo em seus contos-trecos, a presença significativa do humor, um humor sutil que tenta sempre neutralizar a rispidez e insegurança de uma realidade diária tão ríspida.

Daí que só haja letra torta, letra-gíria para Antônio Fraga, o poeta, o malandro, o prosador-jogador. Nesse caminho ele confia – e porque não haveria ou consideraria outro. “Pois é. Tempero de pobre é fome. Quem tem muito faz beicinho…” E Desabrigo é ele próprio, Fraga, em toda parte-esquina, observando, refletindo, escrevendo, se bandidando honestamente. E, parafraseando outro gentil malandro recém-largado desta boêmia vida, o Zé Ketti: indo por aí…

 

Serviço:

FRAGA, Antônio. Desabrigo e Outros Trecos. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999. 118 p.

Site: www.escrituras.com.br/liv_idade_do_zero.htm#http://liv_idade_do_zero.htm. Comunidade de IDADE DO ZERO no ORKUT: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=6096120.

Comunidade de ANTÔNIO FRAGA no ORKUT:

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=7565856.

E-mail: zehgustavo@yahoo.com.br.

 

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