Didática Etnoambiental: buscando caminhos para a avaliação da aprendizagem na Escola Indígena

Josélia Gomes Neves

Publicado em 09/03/2006 como www.partes.com.br/educacao/etnoambiental.asp

 

Josélia Gomes Neves Possui graduação em Pedagogia pela Fundação Universidade Federal de Rondônia (1989) – UNIR, especialização em Psicopedagogia (UCAM) e Mestrado em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente pela UNIR (2004). Atualmente é professora assistente da Fundação Universidade Federal de Rondônia – UNIR. Leciona no Curso de Pedagogia. Estuda e pesquisa na área da Educação e Alfabetização Intercultural, Educação Escolar em contextos indígenas, Didática Etnoambiental, Relações Sociais de Gênero/Currículo. Desde janeiro de 2007 é aluna do Curso de Doutorado em Educação Escolar da UNESP – Campus de Araraquara.
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Resumo: Este texto foi sistematizado no intuito de contribuir nas discussões do Projeto de Extensão Universitária –  Curso de Didática Etnoambiental: aprendendo e ensinando com os professores e professoras indígenas das etnias Arara e Gavião no município de Ji-Paraná em Rondônia. Por meio dos registros docentes foi possível fazer a vinculação entre o saber teórico e a prática pedagógica destes. O trabalho foi realizado em  maio de 2005 nas respectivas aldeias em parceria com a Representação de Ensino da Secretaria de Estado da Educação – SEDUC – Setor da Educação Escolar Indígena.

Palavras-chave: Educação Indígena, Didática Etnoambiental, Avaliação da Aprendizagem.

 

            Por meio do Grupo de Pesquisa em Educação na Amazônia, desenvolvemos em 2005 algumas atividades com as populações indígenas das etnias Arara e Gavião, que temos designado de Didática Etnoambiental. Esta concepção, a nosso ver trata-se de um recorte da Educação Ambiental no que se refere a uma abordagem específica dos termos aprender e ensinar em um contexto amazônico onde as questões interculturais estão presentes o tempo todo na escola, como estratégia de produção de sentidos e significados no intuito de assegurar aprendizagens cada vez mais significativas. Portanto, o saber universal vem sempre acompanhado do contexto local, tendo como ponto de partida o conhecimento tradicional.

            Neste sentido, podemos exemplificar a afirmação acima, através da seguinte situação que observamos na escola indígena: ao explicar o que é a lua, o professor inicia o estudo convidando uma pessoa mais velha da aldeia para fazer a narração do mito de seu surgimento. Após esta discussão, por meio de pesquisas no livro didático o professor apresenta a explicação não-índia: a lua como satélite da terra.

            Considerando o diálogo entre estes saberes e a necessidade de promover um processo formativo que leve em conta os materiais utilizados na prática docente como objeto de estudo, é que pesquisamos os registros docentes sobre avaliação, no intuito de vincular  as contribuições teóricas ao seu fazer cotidiano. Foi possível observar que há uma aproximação muito grande entre estas duas questões, conforme evidenciamos nas citações dos professores.

            Iniciamos os estudos, com o seguinte questionamento: Como podemos saber se o que ensinamos está sendo aprendido pelos nossos alunos e alunas? Esta não é uma pergunta fácil de responder, entretanto, sabemos muitas coisas importantes que podem nos ajudar a perceber as aprendizagens construídas em sala de aula. Avaliar não é assustar, dizer “hoje vai ter prova” ou “quem não estudar não vai passar”, pois a avaliação é dos dois lados, tanto de quem ensina e como de quem aprende. Muitas vezes os alunos/as não vão para a escola por que não se “enquadram” no jeito que achamos que é o melhor.

            A proposta da escola indígena é contribuir na luta da autodeterminação dos Povos Indígenas, levando em conta a pluralidade cultural onde a avaliação não pode ser instrumento de negação ou exclusão mas de apoio, incentivo e afirmação de um novo projeto educativo.

Esta aluna é avançada nas atividades da língua materna, ela consegue solucionar atividades sem ajuda. Resolve os exercícios, produz textos e faz tradução para sua língua, mas ela precisa ler mais para melhorar sua interpretação e produção de textos. Isso pode ser feito através de revistas, jornais, cartas, histórias, etc.                                                      Profº José Gavião/2004

 

            A avaliação apresenta quatro momentos fundamentais para o processo pedagógico: (FREIRE, 2003; MACEDO, 2005; ZABALA, 1998; HOFFMANN,2004)

  1. a) Avaliação diagnóstica – é aquela que fazemos no início do período letivo ou mesmo antes de iniciar um assunto na sala de aula de aula. A ideia é como o mesmo nome já diz “fazer um diagnóstico”, observar o que os alunos/as já sabem para assim podermos planejar melhor as atividades. Então o objetivo é saber o que já sabem para ajudá-los cada vez mais em suas aprendizagens.

Sabe ler e escrever muito bem, principalmente oral. Tem algumas dificuldades na acentuação. Quando tem dificuldades e dúvidas pergunta. Sabe as quatro operações e algarismos romanos. Tem conhecimento das várias, tanto do seu povo como: o começo da humanidade e muitos outros. Tem conhecimento dos rios que fazem a divisa da terra indígena de algumas regiões, estadas e municípios. Sabe da importância da preservação das matas ciliares, da higiene pessoal, da limpeza, dos alimentos, da fauna e da flora.

                                                                         Profº.  Josias Gavião

  1. b) Avaliação Formativa: também chamada de avaliação contínua, acontece durante todo o processo que envolve o ensinar e o aprender. Ela é útil para corrigir possíveis erros durante o percurso escolar. Acontece sempre que percebemos de forma oral ou escrita que algo não vai bem, que os alunos e alunas estão compreendendo determinado assunto de forma distorcida. Não podemos pensar em punir o aluno/a porque ele/a não sabe, mas sim ajudá-lo/a através de atividades cuidadosamente planejadas e assim garantir que aprenda cada vez mais. É o que chamamos de intervenção pedagógica. Uma forma interessante de fazer a avaliação contínua é registrar num caderno específico todas as observações consideradas importantes no cotidiano sobre o que os alunos/as estão aprendendo e também seus erros e dúvidas. Estas anotações servem também como recursos de registros da memória para ajudar o professor/a na elaboração do Relatório de aprendizagem semestral, uma ajuda na ampliação do repertório. Por exemplo:

Este aluno sabe ler, escrever e desenhar na língua materna e na língua portuguesa; Faz contas de adição e subtração sem muita ajuda; Conta e reconhece os números de 1 a 1000; Desenha mapa da aldeia, rios e moradia; Sabe dizer e escrever as partes do corpo; Tem dificuldades para escrever textos.

                                                             Profº. Amarildo Gavião/2004

  1. c) Avaliação final – ocorre ao término de um período letivo e deve significar o aprendizado construído pelo aluno/a. É o registro que fazemos no Relatório de Aprendizagem, momento quando decidimos se aquele aluno será ou não aprovado, passará ou não para outra etapa. Se trabalharmos com a avaliação diagnóstica – verificação das necessidades de aprendizagem dos nossos/as alunos/as e também a avaliação contínua – corrigindo falhas no processo, pois a intervenção pedagógica, se feita a tempo, pode evitar muitos dilemas no trabalho pedagógico.

 

Ele é falante da língua e tem um bom desempenho na sala de aula. Fala e entende o português. Resolve problemas de matemática. Conhece muito bem a história do Povo Gavião. Tem um bom conhecimento do mapa geográfico de toda a região que pertence. Tem conhecimento da ciência da floresta. Conhece um pouco sobre as doenças e higiene. Sabe muito sobre arte tradicional. Este aluno tem muito interesse em aprender.                                        Profº. Zacarias Gavião/2004

  1. d) Auto – Avaliação – momento importante para o nosso crescimento profissional. Ocasião em que conversamos com os nossos alunos/as: a forma como trabalhamos está bom para eles/as? O assunto está indo muito rápido? Podemos também gravar nossa opinião e depois passar para o caderno, é uma interessante forma de refletirmos sobre o que fazemos em sala de aula – verificando o que pode ser mantido e o que pode ser modificado.

            Neste trabalho, discutimos que a avaliação só faz sentido se estiver colada ao objetivo de aprendizagem, isto é o que queremos que nossos alunos e alunas efetivamente aprendam. Apesar da dificuldade que os professores indígenas enfrentam em relação a Língua Portuguesa, podemos avaliar que buscam estratégias de avaliação que de fato possam representar o desempenho de aprendizagem dos discentes. Mas ainda há um grande caminho a ser percorrido….

 

Referências Bibliográficas

HOFFMANN, Jussara. Avaliar para promover: as setas do caminho. 5. ed. Porto Alegre: Mediação, 2004.

MACEDO, Lino de. Ensaios Pedagógicos: como construir uma escola para todos. Porto Alegre: Artmed, 2005.

ZABALA, Antoni. A prática educativa: como ensinar? Porto Alegre: Artmed, 1998.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 26. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003.

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