A Idade do Zero e a casa do ser

Celso Gomes

publicado em 24/03/2006

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Conforme expressou com acerto Antonio Cicero em “Finalidades sem fim” (Companhia das Letras, 2005), o poeta contemporâneo, no Brasil – como é o caso do Zeh Gustavo, que publicou recentemente seu livro “Idade do Zero” (Escrituras Editora, 2005) –, vive e publica suas obras após as experiências concretizadas pelas vanguardas do século passado: modernismo, geração de 45, poesia concreta, poesia práxis. Nesse sentido, ao poeta assim situado cabe a posse de toda liberdade no uso da forma para expressar sua arte: versos livres, sonetos, poemas concretos. Entretanto, é preciso tomar certos cuidados, pois a linguagem serve para tudo – até para não dizer nada.

Fizemos esse pequeno intróito por haver impressionado nosso espírito a seguinte frase de Martim Heidegger, filósofo alemão: a linguagem é a casa do [Ser]. Se a linguagem é a casa do [Ser]; se o poeta é o criador da linguagem, que, conforme já advertimos, serve para tudo, até para não dizer nada; se do [Nada] nada podemos dizer, por nos faltar a palavra adequada, como poderemos aceitar o fato de ser o poeta, assim como o filósofo, o vigia desse passo, por meio do qual o pensamento atinge o [Ser] pela via da linguagem?

Esse é o desafio que Zeh Gustavo assume para si, seguindo os passos de Mário Chamie: atingir o [Ser] através da linguagem, pelo caminho de sua desconstrução. A chave de sua tentativa (se acertada ou não só o tempo dirá) é a desconstrução do [Ser] pela linguagem, por através do inverso da palavra. Nesse sentido, o verso “Optei: não-ser” vai atravessar todo o livro. Zeh apresenta uma espécie de “vício”: o uso repetido de prefixos de oposição, buscando martelar, a ferro frio, quase que escrevendo a palavra ao contrário, parecendo querer dizer que a negação do conceito expresso na palavra escrita ainda afirma o que ela significa.

Como o poeta de carne e osso que é, Zeh Gustavo, em alguns poemas, combina uma tentativa de integração do [Eu] do poeta com o [Estar] no mundo. Há nuances de poesia com preocupação social em alguns momentos, porém sem exageros, como por exemplo no poema “Escriturário” ou no poema “Caixa Executivo”, nos quais a vida surge como uma ilusão, uma ilusão que nos permite apreender o Real. Na verdade, o escriturário escreve textos monótonos, bancários, folhas de serviço, enquanto Zeh não desescreve sobre o [Nada], mas sobre a Existência.

Nesse sentido, o segredo de Zeh está desvelado, sua busca se dá pelo contrário: fazendo ode ao fastio de uma vida de compensar cheques, despensando para não sucumbir diante do quotidiano enfadonho, de trabalho realizado sem cor nesta vida sem prazer diário, entre paredes de concreto e vidro, onde vendemos o sangue de nossos melhores dias, o poeta termina por celebrar a vida verdadeira que se passa sob a luz do sol. Como ensinava Walter Benjamim: os homens, assim como
as flores, também se voltam para onde nasce o sol.

Em certo sentido, Zeh demonstra, com seus poemas, que houve, em momento anterior da poesia brasileira, uma implosão de sentimentos – que ele não irá denunciar por delicadeza! –, no qual o poeta, assim como uma estrela-anã, representa o homem pós-moderno com sua força gravitacional superior à sua força de expansão, se interiorizando até o infinito. Não será essa a síntese de nosso tempo de exacerbado individualismo burguês, sobre o qual Zeh nos faz refletir? Por que não explodir como uma supernova ao invés de se fechar sobre si mesmo, como um buraco negro? Zeh busca o ser poeta, sem capitular ao lodo de autores pós-modernos imitadores das gerações anteriores de Drummond, Bandeira e Cabral.

Serviço:
Gustavo, Zeh. Idade do Zero. Prefácio de Mário Chamie. São Paulo: Escrituras
Editora, 2005. 123pp. R$ 19,80.
Informações:
www.escrituras.com.br/liv_idade_do_zero.htm#http://liv_idade_do_zero.htm.

 

Celso Gomes nasceu no Rio de Janeiro em 1960. Formou-se em Direito pela UFRJ e exerce a profissão de advogado. No início dos anos 80, participou de um grupo de poetas que publicavam seus poemas em livros artesanais, em jornais alternativos como “Um Bonde Chamado Desejo”, e recitavam seus poemas em bares e praças do Rio de Janeiro. Em 2001, publicou o livro de contos infanto-juvenis “O lobisomem de Mantena” e, em 2002, uma pequena novela: “Trilhas Urbanas”.

 

 

Gustavo Dumas é sindicalista, escritor e revisor de textos. São de sua autoria: MITO DA ORIGEM DO FUTEBOL (Ed. Cone Sul, 1997); O POVO E O POPULACRO (Ed. Cone Sul, 1998); SOLTURAS, BALÕES E BOLINHAS DE PAPEL (Damadá, 2001). Em 2005 publicou, assinando com o heterônimo de Zeh Gustavo, o livro de poesias IDADE DO ZERO (Escrituras Editora).

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