Cultura teatro

A lenda das irmãs Procne e Filomena

À esquerda, Procne, e à direita, Filomela

Marcello Ricardo Almeida

www.partes.com.br//cultura/teatro/alenda.asp

publicada em 20/05/2007

A ação passa-se em Massayó, no ano ano da graça de 1983, nos palcos do Teatro-Feijão-Com-Arroz; uma alusão contemporânea à lenda das irmãs Procne e Filomena

personagens:

1. Filomena – irmã de Procne e cunhada de Tereus
2. Tereus – casado com Procne
3. Procne – grávida de Tereus
4. Vizinhos – espécie de coro agônico do “theatron” grego. Simbolicamente, Vizinhos ora dançam, ora cantam o destino das paixões doentias; e, através de características mimétricas, apontam o caminho da Justiça, do alto de um prédio de apartamentos. O prédio é a representação do próprio Olimpo que, na mitologia, é a morada das divindades pagãs.

SITUAÇÃO UMA

FASE ÚNICA – Cozinha da casa de Procne e Tereus

FILOMENA: Me solte, pelo amor de Deus;
Eu sou sua cunhada, não sou sua mulher
Para querer fazer de mim o que bem quer.
Tereus, não faça isso. Deixe-me em paz!
Socorro! Alguém me ajude!
Me tire das garras desse satanás!
Vou ser devorada por ele,
Vou ser comida. O que faço nessa hora?
Quebro todas as panelas. Choro?
Arranco seus cabelos? Lhe meto a faca
Minha vida Tereus vai me tirar agora.
Quanta aflição! Quanta angústia!
Estou só, emparedada,
Nesta cozinha apertada de apartamento;
Grito, choro, lamento
E ninguém vem socorrer uma desvalida.
A água ferve por sobre o fogão,
Tropeço, caio. Já não sei o que faço.
Deus, desça do céu
E aplaque esse tufão!
Minha irmã, Procne, não sabe
Que Filomena, sua irmã, padece
Nas garras desse monstro traiçoeiro,
Vilão, desgraçado, matreiro,
Criminoso desalmado.
Será possível! Meu Deus me acuda!
Será possível nessa cidade tão grande!
Não me escuta? Devo ceder, devo brigar,
Devo fazer o quê? Estou perdida.
A força de Tereus já me domina;
As minhas forças, caídas, teimam
Em não se levantar.
Esbravejo, esperneio-me, inutilmente,
Como um inseto no bico de um galo.
Ai! Não faça isso, ai! Eu calo.
Haverá justiça, Procne, minha irmã,
Haverá justiça? Já não sei, nesse afã,
Nessa ânsia de me salvar.
Ai, se eu pudera! Lançar-me-ia
Agora mesmo nas profundezas do mar.
Ai, se eu pudera! Deixar-me-ia
Ser tragada pela procela
E desapareceria como faço agora
Com todas essas panelas,
Atirando-as através das janelas.
Subo, corro. Cansada. Quase abatida
Como uma ovelha no matadouro.
Ah! Se nessa hora maldita,
Deus piedoso me mandasse a força de um touro –
Juro pelo inferno – rasgaria Tereus,
Esmagaria o hediondo infeliz, assim,
Igual um boi matando sob seus cascos um besouro.
Ao invés disso,
Estou lhe servindo de cama.
Minhas roupas rasgadas e sinto
Seu corpo sobre o meu em chama.
Estou sendo violada por um facínora,
Que me acolheu em sua casa
E casa de minha irmã.
Por que ela com ele se casou?
Será que durante o namoro não entendeu
Que Tereus era um doente, um inimigo seu?
Minha irmã, Procne, grávida de Tereus
Jamais irá entender o que aconteceu
Entre Tereus, esta cozinha e eu.

TEREUS: Não haja assim, mulher mal-agradecida.
Lhe dei casa, roupa e comida.
Em troca, o que você me deu?
Sua irmã, Procne, não precisa saber
O que de fato nessa cozinha aconteceu.
Tudo fica entre as paredes da cozinha,
Você e eu.
Por que gritar desesperadamente
Feiro uma galinha?
Rogar a Deus como se isso fosse
O fim do mundo.
Qual o mistério de um homem e uma mulher?
Por que não somos um com outro mais sinceros?
Nosso relacionamento deve ser
Algo mais duradouro e mais profundo.
Olhe para toda essa louça quebrada…
Filomena, isso não é o fim do mundo.
Coisas piores acontecem nessa vida:
Alguém que quer amar e não consegue,
Quem nasce e não sobrevive,
E outras desgraças dessa vida madastra.

FILOMENA: Prefiro a morte! Prefiro a morte!
Nunca você será meu, nem eu serei seu
Brinquedo sexual. Procne é ingênua,
Eu sei. Mas contar-lhe-ei Tim-tim
Por Tim-tim. E não olhe assim pra mim.
As paredes desse apartamento
Serão as minhas testemunhas.
Vou a juízo, vou lhe denunciar, Tereus.
Não ficará pedra sobre pedra.
Minha língua irá relatar o que sofri.
Não me permitirei ser violentada
E fazer de conta que não é
Nada. E ficar calada.

TEREUS: O que está feito está feito.
Agora não adianta chorar.
Limpe as lágrimas, varra o chão.
Não me desafie mais, Filomena,
Ou você irá experimentar meu cinturão!

FILOMENA: Só aceitei morar aqui, Tereus,
Porque minha irmã, Procne, me chamou.
Outra amiga em toda minha vida
Não conheci senão Procne
Que foi quem, praticamente, me criou.
Tenho menos da metade de sua idade, Tereus.
Tenho idade de ser sua filha
E não um objeto seu.

TEREUS: Vou ter cautela, muita cautela,
Pra minha querida esposa, Procne,
De tudo isso não desconfiar.
Filomena, Filomena,
A palavra é de prata,
Mas o silêncio é de ouro.

FILOMENA: O que eu fiz, meu Deus,
Pra merecer esse castigo?
Perder o que mais eu prezava,
Não pra quem eu amava,
Mas pra um inimigo meu.
O que eu fiz, meu Deus,
Pra merecer esse castigo?

TEREUS: Filomena, Filomena,
Ouça o que eu digo:
Você está aí completa,
Sã e salva. O que mais lhe inquieta?
Todos os seus dentes estão inteiros;
Igualmente, os seus cabelos;
Os seus braços, as suas pernas;
O seu lindo rosto fagueiro;
Os seus lábios cor de mel;
Os seus olhos claros iguais ao céu.

FILOMENA: Tereus, infeliz! Tereus, seu infame!
Enquanto eu tiver língua
Vou maldizer o seu nome,
Vou encher todo esse prédio,
E a sua reputação, seu peste,
Valerá menos do que um esgoto fétido.

TEREUS: Tirar-lhe-ei a língua, Filomena,
Assim, de um só golpe!
E os cães, lá embaixo, na sarjeta
Hoje não passarão fome.
Com a língua arrancada pela cepa,
Filomena, você jamais e em tempo algum
Poderá se lamentar. Poderá ver,
Ouvir, sentir, tocar…
Mas não poderá falar.

SITURAÇÃO DUAS

FASE ÚNICA – Quarto de Filomena.

PROCNE – (Entra): Filomena, Filomena,
Minha querida irmã,
Minha filha, o que faz
Com todas essas linhas
E com todos esses panos de bordados?
Talvez um presente de enxoval
Para o meu quase recém-nascido?
Quanta gentileza, Filomena.
Não, não… não precisa falar.
Eu entendo. Você sempre foi uma artista
– Do nada, criava tudo,
Bordava a Terra, o céu e o mar.
Meu marido, Tereus, lhe quer tão bem,
E está feliz com essa criança que vem.
Tereus, tão bobo, não fala em outra coisa,
Ele e eu, seja na cama, ou no sofá,
Quando aparece uma criança na tevê,
Tereus fica imaginando,
E me leva a imaginar
Essa criança correndo nesse apartamento,
Revirando tudo, quebrando,
Gritando de contente,
Aprendendo a falar. Suas primeiras letras,
Uma coisa aqui, outra acolá. O bê-a-bá.
Trocar as fraldas. Noites inteiras
Em vigília. Um cuidado extremado,
A maior prova de amor
Entre dois seres humanos:
Mãe e filho. O acalento, a mamadeira,
O peito morno, as brincadeiras.
Filomena, Filomena,
O seu dia também vai chegar
Você irá conhecer alguém
E, mais cedo ou mais tarde, vai se apaixonar.
Filomena, você vai querer casar;
Vai querer viver junto de quem ama;
Vai deitar-se e grudar-se
De amor e de carinho em sua cama,
Todas as noites, todos os dias.
Filomena, um dia desses,
Uma paixão vai lhe invadir.
Não, não… não fale, Filomena,
Não fale. Foi assim comigo e Tereus.
Sem ele querer, sem eu querer,
O amor veio e bateu, e nos derrubou.
Você, naquela época,
Era tão nova. Uma menina ainda é.
Qual desgosto abala seu peito?
Por que essa cara de tristeza?
Qual a razão dessas lágrimas sobre a mesa?
Pare, pare… por favor,
Filomena, pare de chorar.
Essa história é de alegria, não de tristeza.
Pode me abraçar, Filomena.
Você tem um ombro amigo pra chorar.
Apague de seu rosto essas lágrimas, menina.
Por que essa solidão, essa melancolia?
Não tem motivo pra tristeza, tem pra alegria.
Mesmo nascendo nessa casa
Outra criança, Filomena. O seu lugar,
Querida, permanecerá inalterado.
Quem ousará tocar em um fio de cabelo?
Outra criança nessa casa
Não virá para dividir,
Eu sei, e sim para somar.
É claro, é claro, Filomena.
Você está crescida, não é mais menina.
Desculpe meu jeito assim exagerado
– Isso é defeito do amor que sinto por você.
Vamos sair desse quarto, se distrair. Ligue TV
Não quer? Vamos ouvir música.
Quem sabe, sair. Ou olhar através da janela,
Esperar Tereus chegar.
O que é isto que está me mostrando,
Filomena? são desenhos, seus bordados
Em vários pedaços de panos, sim, eu sei.
Aqui você conta uma história?
Mas que história? Sua história?
Quem é esse ao seu lado? É Tereus?
O que foi realmente que aconteceu?
Você foi violentada na cozinha de minha casa?
Filomena, Filomena! Quando isso aconteceu?
Você não pode falar? Cadê sua língua?
Cortou? Cortaram? Não, sim… sim, não.
Quem cortou a sua língua foi Tereus?
Tereus teve coragem
Em ofender a justiça dos homens
E a justiça de Deus?
Eu sei, eu sei, minha irmã, eu sei!
Vou me vingar! Vou me vingar
Ainda hoje de Tereus!
Tereus matou a irmã que eu mais amava.
Quem mais você ama, Tereus?
QUEM MAIS VOCÊ AMA, TEREUS?
Isso não poderia ter acontecido, Filomena,
Filomena… isso não.
Por que, meu Deus, por que
Eu estive ausente? Saí de casa
E deixei sozinha a minha irmã contente
Para um monstro, um vampiro em minha casa,
Tirar de mim o que de mais precioso eu tinha.
Será, Filomena, que nessa hora de angústia
Ninguém desse prédio veio lhe ajudar|?
Eu não duvido em nenhum instante
De sua inocência. Mesmo querendo
Em uma hora dessas duvidar.
Filomena, Tereus pagará caro por isso.
Sente-se. Agora é só esperar.

SITUAÇÃO TRÊS

FASE A – Sala de jantar do apartamento.

TEREUS: Sentado, Procne, espero meu jantar.
PROCNE: Estou terminando-o, Tereus. Você vai gostar.
TEREUS: Não tenha pressa, querida.
Sei que vou gostar. Pois
Tudo o que vem de suas mãos
Logo me faz apaixonar.
PROCNE: Por onde andou, Tereus?
Trouxe de fora alguma novidade?
TEREUS: Estou com os bolsos cheios
De novidades, meu amor.
Na cidade, passei de loja em loja,
Pesquisei o preço no mercado,
Calculei os juros,
Analisei as prestações…
Procne, minha vida,
Esse mês vamos encher esse apê
De tudo, de tudo pro bebê.
Nem posso agüentar mais, meu coração.
Pai-de-primeira-viagem,
Todo mundo percebeu,
Enquanto eu ia de lugar em lugar
Procurando o que há de mais…
De mais lindo para o filho de Tereus.
PROCNE: Prepare seu prato, Tereus.
TEREUS: Já está pronto, meu amor?
PROCNE: Sirva-se bem de seu jantar.
Não vá com tanta fome ao prato.
Quantas vezes vai repetir?
Até parece que passou o dia inteiro
Trabalhando no campo, capinando o mato!
O prato da vingança é servido frio.
De nada adiantarão seus planos, Tereus.
Não me pergunte o porquê.
Não tem mais filho nem você, nem eu.
Nem eu mesma sei descrever meus sentimentos.
Não sei se me calo, não sei se lamento.
Tudo está muito confuso. São meus sentimentos.
Sentimento de revolta, sentimento de fracasso,
Sentimento de ódio, sentimento de…
O QUE É QUE EU FAÇO?
TEREUS: O que é que você
Tem nas mãos?
PROCNE: Esses bordados…
TEREUS: Toda essa história, Procne,
É mentira! Filomena enlouqueceu!
Eu ainda sou seu marido. Seu Tereus.
Não acredite nessa história,
Nessa calúnia, nessa injúria,
Nessa falsa afirmação!
PROCNE: Esses bordados, Tereus…
Essas bordados de Filomena,
Contam sua trágica história. Ela foi
Uma vítima de sua libido despudorada,
Seu criminoso! A cadeia será seu legado.
Lá, você sabe o que os presos fazem
Com seu crime? Julgam-lhe culpado.
Além de você ser na frente do juiz condenado,
Cada preso enjaulado,
Cada um, Tereus, vai lhe fazer
Passar bons bocados.
O destino pra esses réus,
Iguais a você, é servir de mulher.
Castigo melhor não pode ser!
TEREUS: Cadê meu filho? Eu quero meu filho!
Sua doida, o que você fez com meu filho?
PROCNE: E o que você fez com a minha irmã?
TEREUS: Eu vou chamar todos os vizinhos! VI-ZI-NHOS!
Cada um vai vir aqui. VI-ZI-NHOS!!
Vou antes, suas loucas, lhes punir.
Filomena, o que você fez?
Destruiu minha família! Destruiu minha vida!
O que vou fazer com vocês?
PROCNE: Filomena não poderá falar, Tereus!
Não poderá nunca mais falar, Tereus.
Apenas seus bordados
Registrarão os sentimentos seus.
TEREUS: Você, Procne,
Tirou de seu ventre
O que era meu,
E dele me fez essa comida macabra.
Agora eu descobri a verdade, Procne,
E pagarei caro um advogado. Veremos
Quem será linchado em um presídio
– Se você, sua irmã ou eu.
Mas quem nesse momento me guia
Não é a razão. Vou destruí-las
De um só golpe. JURO MATÁ-LAS!
PROCNE: Corra, Filomena! Vamos fugir!
Por aqui!

FASE B – Vizinhos invadem o apartamento. Procne e Filomena saem.

VIZINHOS: Elas fugiram!
Duas loucas.
Pularam da cobertura
De asa-delta. Agora
Sobrevoam o azul-escuro do mar.
TEREUS: Quem são vocês?
VIZINHOS: Somos Vizinhos.
TEREUS: Vocês não são… não…. são nada!
Vocês são uma visão medonha,
Uma visão danada. Pra onde… pra onde
Mandaram a minha… a minha amada?
As minhas… as minhas queridas
Pra onde? Transformaram-nas
Num rouxinol e numa andorinha.
Delas tiveram piedade.
O que restou senão eu sozinho?
A noite, os crimes e a maldade.

Marcello Ricardo Almeida é poeta, dramaturgo, advogado de profissão e professor. Em 2002, recebeu convite do editor/escritor Francisco José Pereira, Editora Garapuvu, Florianópolis, SC, onde publicara “A Mula Sem Cabeça”, participando, entre os mais populares escritores do Estado, de LITERATURA CATARINENSE: NOSSOS MELHORES CONTOS. Autor de 120 peças teatrais e 50 livros dentre os quais “Que Achas do Padre Beber em Serviço”, Editora da UFSC, 2004; “O Dente Cariado de MonaLisa”, Literatura em Santa Catarina, 2005; “A Ignorância do Estudante (Filosofia do Direito Estudantil)”, ALB, Blumenau, 1998; “Uma Teoria do Paradoxo”), um ensaio sobre a poética contemporânea, ALB, Blumenau, 2000; “Aventuras na Cidade Barrigadechope”; “Não”, EA, 1988; e “Ein Prosit, Dionísio! Aspectos Míticos da Oktoberfest”, ALB, 2002. Premiado no concurso O Advogado e a Literatura, 1999, Florianópolis, SC, OAB/Editora, com a novel!
a “Quem Gaba a Esposa é o Marido”. Primeiro lugar no SESC/FURB, 1990, em Dramaturgia Blumenauense. Premiado no Concurso Nacional de Dramaturgia “Wladimir Maiakovski”, 1993, Fundação Cultural Cassiano Ricardo, São Paulo, com a peça no método Teatro-feijão-com-arroz intitulada Morcegos Humanos, posteriormente (1994) transformada em gibi e publicado na Editora FURB. Prêmio Baleia Verde do Concurso Nacional de Poesias, 1990, Rio de Janeiro, com a poesia “Não faz mal, todos estão grogues”.

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