O discurso amoroso em Roland Barthes (texto em homenagem ao dia dos namorados)

Rodrigo da Costa Araújo

publicado em 12/06/2007

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Para todos os leitores apaixonados

O sujeito apaixonado é atravessado pela idéia de que está ou vai ficar louco.

Roland Barthes (FDA, p. 186)

Rodrigo da Costa Araujo é professor de Literatura da FAFIMA – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé. Mestrando em Ciência da Arte pela UFF-Universidade Federal Fluminense.
::contato com o auto

Aos estilhaços, intertextualidades e vozes, como em O Prazer do texto, o livro Fragmentos de um discurso amoroso (1977), de Roland Barthes oferece-se à leitura distraída do amor. O leitor, ao folheá-lo, escolhe múltiplas formas para caminhar entre os aforismos, entre os fragmentos, entre “as rajadas de linguagem, que lhe brotam graças a circunstâncias íntimas, aleatórias” (FDA, p.12)*

Nessa rede de “dis-cursos” ou vozes romanescas tudo, no livro, surge como “algo que se leu, ouviu, experimentou”. (FDA, p.12). “Pouco importa, no fundo, que a dispersão no texto seja rica aqui e pobre ali: há tempos mortos, muitas figuras modificam-se; algumas, sendo hipóstases de todo o discurso de amor, possuem a própria raridade – a pobreza – das essências: que dizer da Languidez, da Imagem, da Carta de Amor, uma vez que é todo o discurso de amor que está tecido de desejo, de imaginário e de declarações?” (FDA, p.12-13).

No “inexprimível amor” é pois um apaixonado que fala e diz “ Querer escrever o amor é enfrentar a desordem da linguagem: esta terra de loucura em que a linguagem é ao mesmo tempo muito e muito pouco excessiva (pela expansão ilimitada do eu, pela subversão emotiva) e pobre (devido aos códigos com os quais o amor a rebaixa e avilta)”. (FDA, p.128-130).

A escrita da paixão, composta de várias outras escrituras e fragmentos, no livro comporta e se inscreve em estratégias de espetáculo do/sobre o amor, seus riscos, glórias, seus lugares-comuns e esquizofrenias, concebida para ser feita em uma situação análoga ao apaixonado. Nesse jogo discursivo do amor entre a forma e o conteúdo, entre desafios e alegrias dos atores, que se garante o espetáculo amoroso.

Apesar de não ser um texto dramático, Roland Barthes (1915-1980), propõe uma semiologia dramática do amor para apresentar a sua “enunciação” (é ele que o define, enunciação e não análise) do discurso amoroso. O livro, como um diário da paixão, inicia com a seguinte frase “ é pois um apaixonado que fala e diz”, e, até ao final, percebemos de fato surgir em palavras, numa estrutura quase cênica, aquilo que todos já viveram – “ o elogio das lágrimas”, “o ciúme”, “ Que fazer?”, “ O coração”, “A ressonância” e outros.

Arrumados assim, feito verbetes lúdicos de um dicionário do amor, o livro, contraditoriamente, tenta extrapolar esse discurso instaurando o amor pelo viés semiológico da leitura literária, pela vida, pela imaginação, pela linguagem que assume vários caminhos. Talvez, porque, o viés amoroso seja o que faz as pessoas se moverem e acreditarem em alguma coisa.

Por outro lado, os estilhaços de textos, feito um homem diante de um espelho, recupera-se em fragmentos constantes. Fragmentos de desejos, de realizações, de percepções. O homem diante da iniciativa de se autobiografar no discurso ou nos discursos do amor do outro. Como em Roland Barthes por Roland Barthes (1977) , livro também escrito em fragmentos, Fragmentos de um discurso amoroso assinala a tentativa perturbadora, mas persistente, de dar voz a um coração que se descobre vazio.

Entre verbetes e significâncias do amor, o leitor, diante de vários enxertos, deve-se perceber como mais um personagem de romance e deve se permitir brincar, uma brincadeira séria de quem está submerso no texto, na linguagem, atento às armadilhas do sentimento e do discurso amoroso. Assim, Fragmentos de um Discurso Amoroso , é além de o “valor passado ao grau suntuoso do significante”, também uma experiência de leitura. Um prazer absoluto diante do texto e do homem que nele se mostra. “Escrever por fragmentos: os fragmentos são então perdas sobre o contorno do círculo: espalho-me à roda: todo o meu pequeno universo em migalhas; no centro, o quê?” (BARTHES, 1977, p.108).

O amor como desejo e representação presente nos fragmentos barthesianos não se esgota nas palavras, nem se refere a realidade como tal. O discurso amoroso e romanesco ao colocar-se como literatura e crítica semiológica ao mesmo tempo, liberta-se das imposições da lógica tradicional e adquire a liberdade de estruturar-se segundo seus códigos. O texto barthesiano é algo feito com a linguagem, portanto a partir da linguagem, algo ao mesmo tempo a transforma, acresce, aperfeiçoa, interrompe ou a reduz. É vivo e desejante.

O leitor, acompanhando vertiginosamente o texto do amor, vai entrar em diálogo com a escritura, produzindo outra escritura ( como esse ensaio). É, segundo o semiólogo francês, o lugar em que o texto ou discurso do amor se reescreve ao ser recebido e interpretado. O diálogo é uma escritura onde, segundo Bakthin, se lê o Outro. O diálogo bakthiniano designa aos olhos dessa escritura simultânea, como subjetividade e como comunicabilidade, ou melhor, como intertextualidade, um diálogo amoroso cujos actantes são outros textos.

A noção de sujeito amoroso da escritura – começa a dar lugar a uma outra, a da ambivalência da escritura. Nesse sentido, Fragmentos do Discurso Amoroso é um texto em constante destruição onde se esconde/desvela o jogo do signo. O deciframento estilhaçado, como fragmentos metalingüísticos, aparece ao leitor como uma escolha. O discurso do amor, sempre à deriva e instigador, só existe a partir de uma recriação numa leitura subjetiva e individualíssima. A cada fruidor o livro despedaçado apresenta-se diferente de si mesmo, ao mesmo tempo completo e incompleto, pois “os signos não são provas, pois qualquer pessoa os pode produzir, falsos ou ambíguos. Daí resulta depreciar-se, paradoxalmente, a omnipotência da linguagem: uma vez que a linguagem nada garante, tomarei a linguagem por única e última garantia: não acreditarei mais na interpretação”. (FDA, p.234).

Nesse plano ou palco do amor, Fragmentos de um discurso amoroso ( espécie de “mise-en-scéne” amorosa) é um texto de objeto de prazer que está constantemente estruturando-se, mantendo-se num estatuto da enunciação amorosa de seus leitores. Essa estruturação infinita do discurso, Barthes chama de significância – espaço específico onde se redistribui a ordem da língua – faz-se sensorial: o sentido das coisas, essencialmente da palavra amorosa, nasce de nossos sentidos, é sentido produzido sensualmente, o corpo e sua vivência, fragmentação da cultura, disseminação amorosa de suas características segundo fórmulas desconhecidas e virulentas.

Na “escritura-leitura do amor” “quem pretende a verdade sóe encontra respostas com imagens fortes e vivas, que se tornam ambíguas, flutuantes quando as tenta transformar em signos: como em toda mântica, o cosultante apaixonado deve criar a sua própria verdade” (FDA, p.234). Nessa brincadeira de discursos, nos fragmentos justapostapostos, e em forma de palimpsesto, nasce um novo texto. Um texto múltiplo do amor, uma constante busca de significações já que ” a função da escritura é colocar a máscara e, ao mesmo tempo, apontá-la”. (BARTHES, 1974, p.136)

Feito o conto Amor, de Clarice Lipector, Barthes cria o discurso ou recorta fragmentos de amor em que o personagem depreende-se do mundo e experimenta a perda do eu. Em constantes buscas internas dos personagens no discurso imagético do amor, tanto Ana, como também outras vozes e o leitor, caracterizam-se pelo desdobramento do eu que se vê no ato de produção , ator e espectador de sei mesmos, sujeitos do espetáculo e objeto de gozo, captando uma consciência em fracionamento pela dissolução do eu nos vários fragmentos.

Eros-cupido capta, em Clarice, a protagonista do conto na alegoria do cego, enquanto Barthes, no espaço do discurso amoroso, faz do leitor rodopios de perda e busca, reencontro na linguagem da obra. Enamorados, Ana, do conto Anor e os leitores de Fragmentos de um discurso amoroso ficam encantados com as máscaras do discurso que ora se esconem, ora se revelam. O mundo e os signos amorosos são descobertos pelos seus avessos, o irreal e o mágico o reelaboram.

Nessa poética em fragmentos, com extrema delicadeza dos signos, Roland barthes propõe uma aventura semiólogica em torno do amor que se dedica a desfazer o “tecido” amoroso para montar como nele se superpõem na escritura palimpsêstica os diversos códigos e os seus sentidos. O mundo semiológico do amor, fragmentado e intertextual, caree de entranhas. ler o mundo dos signos e dessas entranhas amorosas, portanto, é conseqüentemente, ter as “chaves” desse código. Na perspectiva semiológica, ler e escrever o amor, como o ato de leitura em barthes, são de tal sorte, momentos simultâneos de uma mesma ação semiótica.

A leitura comparada a um ato de amor, merece ou requer, como o ser amado, atenção, carinho, cuidado. A criação é um caminho para se chegar até o outro, oara compartilhar sentimentos, experiências amorosas, sonhos, enfim: para compartilhar a vida. Por esse motivo a linguagem foi comparada por Bathes à experiência amorosa, quando ele diz:“ A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem contra o outro. É como se eu tivesse ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção de um duplo contacto: de um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que ‘é eu te desejo’, e liberá-lo, alimentá-lo, ramificá-lo, fazê-lo explodir ( a linguagem tem prazer de se tocar a si própria); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, acaricio-o, toco-lhe, mantenho este contato, esgoto-me ao fazer o comentário ao qual submeto a relação.” (FDA, p. 98).

Escrever, para Barthes, “é colocar-se num imenso intertexto, quer dizer: colocar a própria linguagem, a sua própria produção de linguagem, no próprio infinito da linguagem. (BARTHES, 1975, p.15). A noção de escritura amorosa barthesiana e os seus efeitos de textualidade advém, pois, dessa concepção sinuosa e à deriva, mas extremamente insinuante e reveladora. Tudo sugere um texto que pulsa e, sob a pela da linguagem amorosa, o texto-mundo deseja vorazmente. A leitura dos fragmentos, ao acompanhar a trajetória intertextual e labiríntica do discurso romanesco, lança-se na aventura semiológica da escritura barthesiana, habitando com o corpo vários discursos ficcionais, atendendo aos apelos dos signos literários.

Barthes, transgressoramente, nesse livro, parece estar no limiar de um romance, ” ele toma, literalmente, notas para um romance que não escreveu, notas que são ao mesmo tempo a transcrição do seu livro que, afinal, não é um romance”. (CALVET, 1993, p.244). O que faz do livro uma espécie de metalinguagem do amor, ” uma prática de imitação, de cópia infinita” (BARTHES, 1975, p.14). ” […] uma espécie de carrocel de linguagens imitadas. É a própria vertigem da cópia, devido ao fato de as linguagens se imitarem sempre uma às outras, de a linguagem não ter fundo, de não haver um fundo original da linguagem, de o homem estar perpetuamente embaraçado por códigos de que nunca atinge o fundo. A literatura é, de certo modo, essa experiência” (BARTHES, 1975, p.16). De fato, tudo sugere o tempo todo as indagações: Quais serão os códigos do amor? Haverá uma linguagem do amor?

Barthes-escritor, combinando citações e suprimindo aspas parece confirmar que ” não se copiam obras, copiam-se linguagens” (BARTHES, 1975, p.22). Na linguagem dos enamorados como seres solitários e incompletos, o discurso do amor surge como sentimento incompreensível. O livro, através de inúmeras citações e exemplos do tema confirma que é como o próprio ser amado descrevendo-se: lê-lo é conhecer o desconhecido eternamente. ” […] tudo se representa, pois, como uma peça de teatro”. (FDA, p.133).” O apaixonado é, portanto, artista e o seu mundo é bem um mundo às avessas, pois toda a imagem é o seu próprio fim ( nada para lá da imagem)”. (FDA, p.170).

Em cada verbete, o sujeito do discurso amoroso registra as angústias mais veementes de um coração apaixonado e nos faz refletir acerca de ações banais, como a espera de um telefonema (ou a dúvida quanto a ligar ou não), o ciúme inexplicável que sentimos a ver um terceiro falando do nosso ser amado ou simplesmente o delírio da paixão amorosa. Ciúmes, posses, discursos, signos, o desejo amoroso – trata-se de um livro para quem ama poder amar ainda mais. Para quem amou, sentir saudades e querer amar novamente. Ou para quem ainda desacreditado no amor, queira um dia voltar a amar, mas que não se contente com qualquer amor, e sim procure um amor ao menos parecido com aquele descrito por Barthes. ” Os signos do amor alimentam uma imensa literatura: o amor é representado, reposto numa ética das aparências”. (FDA, p.145).

Gozo da palavra romanesca, gozo por articular signiticantes – ao lado da leitura barthesiana que desvenda sentidos, gozo de criar, de reinventar o objeto do prazer, o prazer do texto, o prazer de ler, o prazer de amar puro e simplesmente!

 

Notas:

* todas as citações faram alusão a abreviatura FDA – Fragmentos de um Discurso amoroso.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARTHES, Roland. Fragmentos de um Discurso Amoroso. Trad. Isabel Gonçalves. Lisboa: Edições 70, s/d.

BARTHES, Roland. Para/ou onde vai a literatura. In:VÁRIOS. Escrever… para quê? para quem? Lisboa, Edições 70, 1975.

BARTHES, Roland. Novos Ensaios Críticos. O grau zero da escritura. São Paulo: Cultrix, 1974.

BARTHES, Roland. O Prazer do Texto.Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1977.

BARTHES, Roland. Roland Barthes por Roland Barthes. Trad. Leila Perrone-Moisés. São Paulo. Cultrix, 1977.

CALVET, Louis-Jean. Roland Barthes. Uma Biografia. Trad. Maria Ângela Villela da Costa. São Paulo: Siciliano, 1993.

LISPECTOR, Clarice. Amor. In: Laços de Família: contos. 24ª ed. Rio de Janeiro, 1991. p. 29-42.

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