Turistas não relaxam e nem gozam

por Ana Marina Godoy, em 19 de julho de 2007

Ana Marina Godoy é turismóloga. Editora de Turismo da Partes.
anamarinagodoy@ig.com.br

Sem escolha, turistas (de férias ou a lazer, em trânsito ou a negócios) que são obrigados a passar por Congonhas, não relaxam e nem gozam. É o que a imprensa expõe. E, pergunto: a senhora Martha Suplicy está relaxando e gozando? Não vi nenhuma providência por parte desta ministra do Turismo (cargo que obteve não sei com base em quê; desconheço sua competência nesta área) a partir e referente ao acidente aéreo em Congonhas do último 17 de julho.

Também me preocupa a credibilidade que as informações vindas da Infraero têm na prática. Pela mídia, é notável que as informações iniciais fornecidas pela Infraero não combinam com as que aparecem nos processos, em geral, bem como as conclusões quanto aos fatos.

Outra influenciadora no Turismo, mesmo que indiretamente, é a Agência Nacional de Aviação Civil, a ANAC. Criada para fiscalizar a atividade, tem sido omissa a todos os apelos feitos pelo Ministério Público (MP) quanto à necessidade de fechamento do aeroporto de Congonhas. Relatórios completos – além de especialistas em saúde do trabalho – alertam sobre o porquê disto. A ANAC ignorou o alerta do MP e, então, a Justiça teve total espaço para negar o pedido.

As companhias aéreas “BRA” e “Ocean Air”, por sua vez, mostraram responsabilidade pelas vidas que transportam e, sem esperar qualquer ordem governamental, transferiram seus voos para Cumbica, aeroporto que não têm e nem gera o número de problemas que Congonhas.

Moro em Curitiba, capital paranaense. Aqui, o aeroporto é numa cidade vizinha: São José dos Pinhais. O aeroporto dentro da nossa cidade é o do Bacacheri. Este teve impedimento quanto a manter muitos voos e, atualmente, opera com número ínfimo de voos e com aviões pequenos; o que favorece a população de entorno. Os paulistanos, por sua vez, têm uma segunda opção alternativa a Congonhas que não Cumbica: Viracopos, em Campinas, cidade a menos de uma hora da capital. O tempo – quando da comum existência – em engarrafamentos até Congonhas supera, em geral, sessenta minutos. E, para chegar até Viracopos, aeroporto renovado e ampliado há pouco tempo, não é nem necessário entrar em Campinas: tive, eu, a oportunidade de usá-lo horas antes da tragédia em Congonhas, escolhendo vir a partir de Campinas para Curitiba e não da estressante cidade de São Paulo. Afirmo: Viracopos está em ordem e pode receber mais passageiros do que tem recebido. Dados oficiais – para quem preferir – podem confirmar. Turistas: sempre que puderem, boicotem Congonhas. Quando esse aeroporto der mais prejuízo do que lucro financeiro, providências serão tomadas e vidas serão poupadas de serem usadas como alerta. Também o turismo, enquanto atividade, é coisa séria. Quem puder, por gentileza, informe a senhora ministra Marta Suplicy.

Tento imaginar a tensão de tripulantes que, com frequência, são obrigados a frequentar o aeroporto de Congonhas e a respectiva pista. Uma turismóloga, pelo menos, morreu- tentando a vida – nesse verdadeiro ataque terrorista à sociedade. Este não ocasionado por terroristas como os do fatídico 11 de setembro, nos Estados Unidos; mas pela terrorista omissão de governantes e pela terrorista ganância de empresas aéreas. Fazer questão de usar um aeroporto que, tecnicamente, dizem ser ótimo e que, no entanto, mesmo aviões pequenos, como o jatinho da Air Pantanal, vêm sofrendo ali, é pura irresponsabilidade, maldade e crime.

A desapropriação do que está em volta ao aeroporto de Congonhas deve ser pensada: salvaria duplamente a sociedade. Os ouvidos dos moradores de entorno sofrem cotidianamente. Agora o medo é outro problema, além do barulho. O governo, se conivente com quem insiste em usar aquele aeroporto, que venha, no mínimo, a aplicar as leis (como as que preveem desapropriações) a favor da sociedade. (Nestas horas queremos saber: onde está aquela Justiça que barrou a denúncia do MP quanto aos perigos de Congonhas? Omissão, neste caso, também é crime). Tantas desapropriações são feitas para a construção de estradas, pontes e similares, por exemplo; por que não desapropriar para gerar um contorno de segurança a Congonhas?

O glamour que existia quanto às viagens aéreas começou a desaparecer com o perder de forças da (saudosa e responsável) VARIG. Muitos passageiros obrigados a pegar o avião vão para as filas de check in com a sensação de estarem indo para o corredor da morte. E os atrasos só golpeiam ainda mais a coragem para enfrentar o desafio. Hoje, “viagem aérea” está sendo um sinônimo do medo que paira nos ares brasileiros.

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