Afinal, o que é dislexia?

Maria Irene Maluf

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Maria Irene Maluf é especialista em Psicopedagogia e Educação Especial. Editora da revista Psicopedagogia da ABPp. Coordenadora/SP do Curso de Especialização em Neuroaprendizagem. Instituto Saber/FACEPD / Site: www.irenemaluf.com.b

Ler e escrever são necessidades básicas do ser humano, pois além de serem fundamentais para o acesso e aquisição da maioria dos conhecimentos de nossa cultura, tornam a pessoa intelectualmente independente.

Ao aprender a ler e escrever, a criança nasce novamente: se antes nasceu para a vida, agora nasce para viver no mundo da cultura. Toda a vida escolar é indubitavelmente marcada pelas primeiras experiências que as crianças vivem em relação à aquisição de conhecimentos e habilidades acadêmicas. Se essas experiências são frequentemente frustrantes, é natural que a dedicação e a realização nessas áreas sejam prejudicadas e o acabem por produzir problemas na esfera afetiva e em todo o desenvolvimento da personalidade.

O domínio da leitura está ligada a vários processos que se associam para que seja possível ler e compreender o que se lê e esses dependem de diferentes funções cognitivas e sensoriais, como a atenção e concentração, a consciência fonológica e ortográfica, a decodificação rápida, a compreensão verbal, entre outras.

Apesar de se tratar de uma habilidade muito complexa, a maioria das crianças adquire facilmente essa capacidade. Entretanto, existe uma parcela significativa de alunos que apresenta grandes dificuldades na aprendizagem da leitura e escrita.

Podemos compreender a ansiedade dos pais em torno do sucesso escolar de seus filhos e principalmente em relação à sua alfabetização, da mesma forma que entendemos sua angústia e perplexidade quando a criança se mostra incapacitada a acompanhar a escolaridade, como o fazem seus coleguinhas de mesma idade.

A dislexia não é uma doença, mas sim um transtorno de aprendizagem, cujos sintomas podem ser percebidos desde a pré-escola e o diagnóstico é geralmente concluído, quando a criança alcança os sete ou oito anos de idade.

A dislexia é caracterizada fundamentalmente pela presença de grande dificuldade para a aquisição da leitura, geralmente acompanhada por idêntica problemática em relação à escrita, quando não existe atraso cognitivo, problema psicológico de porte ou deficiência sensorial que justifique tal transtorno. A maioria das crianças disléxicas sofre com os frequentes fracassos escolares, os quais geram o rebaixamento da autoestima e, consequentemente, levam a comportamentos que variam da apatia à agressividade, tornando a vida escolar e familiar muito desgastante.

Estudos e pesquisas atuais têm demonstrado que a dislexia é congênita, afeta mais os meninos do que as meninas e tem apontado para uma transmissão hereditária.

Os sintomas da dislexia podem ser aliviados com o acompanhamento profissional adequado, permitindo à criança cursar normalmente a escolaridade regular, do ensino fundamental à graduação ou pós-graduação, dependendo de fatores individuais.

É possível perceber alguns sinais de risco para a aprendizagem da leitura e escrita desde os quatro anos de idade. Essa percepção precoce é importantíssima no encaminhamento da criança aos profissionais especializados em tal diagnóstico (psicopedagogos, neurologistas) a fim de evitar que os danos consequentes à baixa autoestima e os problemas escolares comecem a se instalar.

Recomenda-se começar um trabalho de estimulação sobre a transição natural da fala à leitura e escrita. Aguardar que a criança supere por si as dificuldades pode ocasionar outras questões que apenas complicarão a sua problemática.

Alguns sintomas podem chamar a atenção dos pais e professores, quando frequentes e mais intensos do que o esperado para a idade. Citaremos alguns deles, de acordo com a faixa etária, embora não se esgotem aqui as possibilidades necessárias para o diagnóstico profissional.

Crianças entre 4 e 6 anos:

  • a omissão, inversão ou a confusão de fonemas;
  • vocabulário empobrecido;
  • dificuldade na expressão oral;
  • baixo nível de compreensão da linguagem;
  • dificuldade em aprender a diferenciar cores, formas,tamanhos, posições;
  • problemas de lentidão motora e
  • atraso na aquisição de conhecimento do esquema corporal, orientação e sequenciação.

Crianças entre 6 e 9 anos:

  • Permanecem ou aumentam as inversões, confusões, trocas e omissões de fonemas;
  • O vocabulário passa a ser cada vez mais empobrecido em relação à faixa etária e escolaridade alcançada;
  • Na leitura, geralmente silabada, hesitante e mecânica, é frequente a presença de confusão entre letras, como por exemplo entre: a/o; a/e; u/o; b/d; p/q; u/n, assim como aparecem omissões, inversões e adições de sílabas nas palavras lidas, o que dificulta ainda mais o entendimento do texto;
  • Na escrita percebem-se confusões de letras semelhantes pelo som ou forma;
  • Há omissões e inversões de letras, sílabas ou palavras, que persistem apesar do treino ortográfico; é frequente a escrita de letras ou símbolos isolados em espelho e
  • A escrita e a estruturação das ideias são confusas.

Crianças com mais de 9 anos:

  • Dificuldade na estruturação das frases;
  • Inadequação no uso dos tempos verbais;
  • Dificuldade persistente na compreensão da leitura,assim como na expressão oral e escrita;
  • Escrita muito irregular, com incorreções ortográficas, semântica e sintática;
  • Transparecem as dificuldades às outras aprendizagens escolares que tenham como base a leitura e sua compreensão;
  • Negam-se ou evitam ler, principalmente em voz alta;
  • Compreendem melhor o que é lido para eles do que o que leem e
  • Como se cansam devido ao esforço mental, escrevem mais devagar e sua caligrafia pode ser muito irregular.

Infelizmente, as crianças não superam por si só esses problemas relacionados à leitura e escrita. Precisam de profissionais especializados por um período de sua escolarização e quanto mais cedo for iniciado esse atendimento, menos complicações serão desenvolvidas, tanto no âmbito escolar, como no emocional e social.

Espera-se da escola que tenha sensibilidade à questão e busque atualizar seus conhecimentos para detectar os sintomas sugestivos dislexia. Comunicar adequadamente aos pais suas suspeitas, incentivando o encaminhamento para o diagnóstico clínico, apoiar e adotar as condutas orientadas pelos profissionais especializados como ensino personalizado, avaliação adaptada e maior compreensão do comportamento e necessidades da criança disléxica. Promover a integração social através do respeito e do conhecimento de suas particularidades de aprendizagem, visando melhorar a imagem negativa que em geral esses alunos têm de si próprios.

Maria Irene Maluf

Pedagoga especialista em Educação Especial e em Psicopedagogia

Presidente da ABPp- Associação Brasileira de Psicopedagogia

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