Como o professor fulano avalia sicranos e beltranos da escola

Vicente Martins

publicado em 11/10/2007

 

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral

Chega às minhas mãos, em branco, preto e azul, o envelope de avaliações bimestrais da minha filha, de 12 anos, cursando o 7º ano, em um estabelecimento da rede privada de ensino. Como as escolas públicas e privadas vem corrigindo as provas escolares e avaliando seus alunos? As escolas vêm cumprimento as orientações da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional? No presente artigo, tentaremos responder a estas duas questões, a partir de um fato pedagógico real, envolvendo minha filha e seu professor de Matemática.

 Nas recomendações gerais, contidas na capa do envelope, enviada pela escola aos pais dos alunos, duas informações me chamam a atenção: a primeira diz que “ A avaliação da escola tem como objetivo diagnosticar a situação de ensino aprendizagem dos alunos, para estabelecer objetivos que nortearão o planejamento da ação pedagógica” e a outra informação parece-me dirigida aos pais e aos próprios alunos: “

No verso deste Envelope de Avaliações existe também um espaço reservado ao registro de toda e qualquer reclamação ou sugestão sobre as questões das avaliações. Ao fazê-lo – recomenda a escola – escreva numa linguagem clara e coerente, e com letra bem legível”. No verso do envelope, lembra ainda: “Registre neste espaço suas reclamações somente sobre as questões das provas que devem ser recorrigidas pelos professores”

Parece-me tentador, como pai e educador, registrar toda e qualquer reclamação e até  fazer sugestão à escola e poder, assim, colaborar, de alguma forma, para o “planejamento da ação pedagógica”. No entanto, como a escola não me diz para ir direto ao assunto, mas apenas ser claro e coerente, recorro, de logo, à entrevista do apresentador Luciano Huck à  Revista Veja (“Huck no caldeirão“, 10 de outubro de 2007).

A entrevista de Huck, nas páginas amarelas da Revista Veja, há uma importante luz para educadores, pais e gestores educacionais. Ao ser indagado sobre a violência urbana, uma vez ter sido vítima de assalto, e “o que faria diferente se tivesse poder”, respondeu com duas questões simples e  de insofismável epifania: “Cadê o projeto para a educação? Por que ela não é tão competente quanto outras áreas?”. Atrevo-me, na condição de educador, a responder, assim, ao apresentador “caldeado”: primeiro, não temos projeto educacional no país, e sim, um plano nacional de educação (Lei n. 10.172/2001), burocrático e centralizador, que focaliza, retoricamente, o compromisso do poder público de garantir educação escolar para todos, mas não garante, na prática, uma educação em valores, emancipadora, que seja capaz de educar as pessoas para a vida, justiça, diálogo, paz, tolerância, respeito ao outro, enfim, capaz de salvaguardar a sua vida e a de outrem, como o que ocorreu com o apresentador global.

A reação de Huck (que nada tem a ver com o incrível Hulk verde) diante dos assaltantes foi de um homem educado em valores:  “Eles pediram o relógio. Eu entreguei. Depois, pediram o do meu amigo, que também entregou” e Huck soube, também, na entrevista, aplicar, muito bem, seus conhecimentos básicos de sujeito indeterminado (Eles pediram…) para não correr risco de sofrer qualquer rechaço futuro, uma vez que, como disse, fala e se veste igual às pessoas simples das favelas por onde sobe para gravar seu programa semanal.

 A educação é uma área que reúne    profissionais competentes e suas ações são também produtivas em muitos estados da Federação, mas, como sabemos, longe das favelas e da pobreza, posto que a excelência escolar é, conforme atestamos em exames nacionais como Prova Brasil, SAEB ou ENEM, restrita ao setor privado, com exceções, é claro, de algumas escolas públicas. Começo minha “reclamação” pelo caso de Luciano Huck para dizer que vejo, na educação privada, uma ilha de boas práticas pedagógicas na educação brasileira.

Não farei à guisa de Luciano Huck uma crítica ao modelo de avaliação escolar por questões de ordem conjuntural da educação. Tomarei a reclamação, na sua acepção jurídica, de reivindicação de um direito ou queixa, ou mais, precisamente, protesto educacional. E como tal, desejo que a coordenação da escola da minha filha tome minha reclamação como um requerimento dirigido à gestão pedagógica, reivindicando a reparação de algo tido, no meu olhar de pai e entendimento de educador, como injusto e antipedagógico.

 Pensando na educação da minha filha, diria que minha reclamação caminha para uma oportuna e necessária queixa pedagógica. Mais do que reclamação é um providencial protesto ou um generoso brado de repulsa ou de não-concordância com relação ao sistema de avaliação da escola, particularmente a do professor de Matemática Fulano de Tal.

Vamos à minha reclamação. Trata-se da décima questão da prova bimestral de Matemática do professor Fulano de Tal. Diz o enunciado da questão: “Fulano tinha saldo negativo no banco: -500 reais. Mesmo assim, deu um cheque de 200 reais. Para calcular o novo saldo de Fulano podemos efetuar:

 

  1. a) – 500 + 200 = -300
  2. b) -500-200 = -700
  3. c) 200 – (-500) = 700
  4. d) 500 + (-200) = 300”

Vamos à resposta da minha filha: a) – 500 + 200 = – 300. A do professor: b) -500 -200 = – 700. Aprendi, desde cedo, como educador, a lidar com o erro e sendo assim, quando um aluno erra, em sala, sempre pergunto o que levou a fazer a opção por a, b, c ou d. Assim, fiz a velha pergunta à minha filha:”por que você fez opção pelo item a e não pelo item b?”” Ela me respondeu: “Ora, pai, o Fulano deu um cheque de 200 reais, logo, seu saldo negativo, que era de -500 reais, ficou -300”. E continuei: “Mas ele, o Fulano, deu o cheque a quem, filha? No que ela respondeu de pronto:”Ao banco, claro”.

Reli a questão e observei que, lingüisticamente, está mal formulada, com erro crasso de sintaxe: o verbo dar, que é bitransitivo, não tem objeto indireto (quem), mas, apenas seu objeto direto (que). Realmente, cadê o Sicrano da questão? A questão gerou, pois, ambigüidade, por razões didático-pedagógicas:

(1) A ausência do objeto indireto do verbo dar, comprometendo a compreensão literal e inferencial da questão, resultando, pois, em  obscuridade de sentido;

(2) O enunciando produz ambiguidade à medida que gera uma multiplicidade de significados conexos e complementares atribuíveis à questão, e que, à luz do desenvolvimento cognitivo das crianças, especialmente as da primeira infância, os erros são previsíveis ou inesperados, mas válidos, porque nesse estágio sabem muito bem especular, postular e inferir dados de forma plausível;

(3) Linguisticamente, a ambiguidade de questões de provas escolares deve ser evitada por zelo docente pela aprendizagem dos alunos, posto que há contextos lingüístico e situacional que não indicam, com segurança, qual a interpretação correta a ser levada em contada durante a elaboração de uma prova de tempo definido e

(4) Formal e estilisticamente, uma questão com ambiguidade é indesejável em provas escolares, por trazer no enunciado ou na instrução um texto científico ou informativo, e alunos ou pais de alunos nunca uma questão de Matemática tenha o mesmo efeito de uma piada de humor.

Retornemos a um trecho da décima questão da prova: “Mesmo assim, deu um cheque de 200 reais”. O que Fulano deu? A resposta objetiva é, pois, um cheque de 200 reais, o que se constitui, pois, em objeto direto, que, em gramática ou na linguística estrutural, e, no caso específico do verbo dar, na questão objeto de análise, é considerado como complemento de verbo bitransitivo.

O verbo dar é duplamente transitivo, pois pede, simultaneamente, dois complementos: objeto direto e objeto indireto. No enunciado da questão, o verbo dar, realmente, é bitransitivo (ou transitivo direto e indireto), uma vez que seu significado é de “ceder, entregar, oferecer (algo de que se desfruta ou de que se está na posse), sem pedir contrapartida”, como nos ensinam as gramáticas normativas, pode ser mais bem exemplificado em frases do tipo” Beltrano deu dinheiro a um necessitado” ou” Sicrano deu presentes a familiares”.

A questão está tecnicamente mal formulada ou elaborada, o que, na minha avaliação psicopedagógica, requer da gestão pedagógica da escola a providência de anulação da mesma. É o princípio de nulidade que deve existir em caso de ambiguidade por razões linguísticas, cognitivas ou técnicas. Mais do que uma recorreção por parte do professor, a questão deve ser anulada porque, do ponto de vista pedagógica, causou ambiguidade e dúvida na cabeça das crianças.

A resposta oficial do professor também está errada porque o verbo dar não pode ter seu “objeto indireto” retido unicamente na memória do professor. Ao contrário, o verbo dar, no enunciado, da questão precisa estar claro, objetivo, completo e explícito por amor à semântica e à sintaxe da frase que, por outro lado,requer do aluno inferência e o cálculo matemático aplicável a partir do seu entendimento, ao ler a instrução final do enunciado “Para calcular o novo saldo de Fulano podemos efetuar:” Como pode o aluno efetuar o novo cálculo sem a compreensão literal do enunciado da questão? Portanto, a questão está lingüisticamente errada e induz a erros pedagógicos, tornando-se, desse modo, ineficaz do ponto de vista cognitivo. Sem eficácia, o ensino se torna contraproducente e perde a garantia de segurança de um bom e útil resultado educacional: a aprendizagem do aluno.

Poderíamos, então, encerrar nossa reclamação aqui. Mas, confesso um “pecado pedagógico”,fiquei inculcado com essa história de Fulano (em com F maiúsculo, principalmente) da décima questão da prova e, curioso, fui ao buscador http://www.google.com.br para ver se tinha algo caso parecido com tipo de questão. Para minha surpresa, o professor plagiou a questão da Internet! Pois não é que no site  http://paginas.terra.com.br/educacao/calculu/Exercicios/Teste6s/teste6.htm, que traz questões para testes  do 7º ano (antiga 6ª série) ensino fundamental material retirado do livro didático Matemática, dos autores Lellis e Imenes( Editora Scipione). Agora, conhecendo o”banco de dados do professor”, aquela décima questão, doravante, para mim, não passa de  uma questãozinha sem muito valor, uma vez que foi reproduzida, na prova da escola, tal qual aparece na Internet, inclusive com seus erros de Português.

Em substância: o professor não formulou, e sim, plagiou a questão e, pior, com os erros crasos de construção de enunciado, anteriormente, apontados nessa minha reclamação.  Aqui, sim, o erro é muito grave. Trata-se de plágio. Com todo respeito aos fulanos de tal, acho que o professor que assim procede nem é digno de ser chamado de Fulano, mas de um Fuão e só.

O professor ao capturar a questão na Internet, sem qualquer adaptação à sua realidade escolar, cometeu, pelos menos, três erros gravíssimos. Vamos citar, cada um deles, de forma bem sintética.

O primeiro erro de natureza grave e juridicamente criminosa é o plágio docente. Ocorre plágio docente quando o professor apresenta à escola e aos seus educandos uma questão (não quis mais verificar o restante das questões da prova) como de sua própria autoria, sendo a questão, originalmente, produzida por outrem e mais grave, retirada de livro com autor identificado e reproduzido na Internet, permitindo o acesso ao “banco de questões de Matemática” não só manipulado pelo professor, mas levado ao conhecimento dos alunos e dos pais dos mesmos.

Plágio é péssimo exemplo a ser seguido na escola. É um caminho fácil, mas desonesto, tanto para professores ou alunos.

Numa formação de valores, o plágio não produz autores nem cidadãos ativos na sociedade, mas velhacos, arapuqueiros, ardilões, canalhas, devassos, espertalhões, pulhas e trapaceiros de toda espécie insertos na política, na educação, na saúde e na vida em sociedade.

A prova de Matemática do professor fuão está elaborada  sem critério e revela-se, essencialmente, de feição somativa, preocupado deve estar o professor unicamente em aspectos quantitativos da sua avaliação: acertou uma questão, ganhou um ponto e encerrou o processo avaliativo na atribuição da nota de zero a 10.

De modo geral, os professores de todas as disciplinas, nas escolas públicas ou privadas, não têm observado o valor de uma prova escrita, para qualquer disciplina, elaborada a partir de um barema, em que  cada uma das questões é formulada por índice de dificuldade (fácil, média, difícil, muito difícil, por exemplo), portanto, bem montada, criteriosamente formulada e submetida pelo professor, em tempo hábil, à análise da gestão pedagógica.

Os matemáticos entendem muito bem do que falo e sabem traduzir, para escola, o sentido de barema, descrevendo o valor pedagógico de elaborar uma prova escrita a partir de um conjunto de quadros ou de dados numéricos, com seus respectivos índices de dificuldades, que apresentam a montagem de uma prova, objetiva ou discursiva, em geral, organizando as questões (múltipla escolha, V ou F, e assim por diante) em escores, cuja correção, por parte do professor, irá, objetivamente, registrar não apenas os erros, mas os acertos cometidos pelo aluno durante a elaboração da prova.

A prova de Matemática, objeto de análise e crítica aqui, por exemplo, poderia ser montada a partir de 100 escores. A décima questão valeria, assim, 10 escores. Um exemplo do valor da prova com barema e com escores pode ser exemplificado na nona questão, em que minha filha, encontra o valor de X, na equação 5.(x +2) – 2(3x -1) =13. O X da questão, nos seus cálculos, é assim expresso: x = 13-12 = X = 11.  Observemos, o aluno chegou a X = 13-12, mas no resultado, coloca X = 11. O professor não considerou até onde acertou. Como diz a metáfora do ditado popular: “ Fulano nadou, nadou e morreu na praia”. O fracasso escolar é, para o aluno, como “morrer na praia”.

Se valorizo X = 13-12, estou dentro de uma perspectiva da avaliação formativa e estou, pois, dando valor ou importância ao processo de construção do aluno.

Se unicamente estou preocupado com o valor numérico, sintético, final e reducionista de X =1, minha preocupação é com o resultado e estou pedagogicamente atrelado a um modelo de avaliação somativa, que valoriza aspectos quantitativos e não qualitativos das respostas do aluno na prova.

A LDB afirma no item a do inciso V, no artigo 24, que a avaliação do rendimento escolar deve observar o critério da “avaliação contínua e comutativa do desempenho do aluno, como prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais”.

Dizendo de outra forma, a LDB nos manda o seguinte recado: um erro, como sabemos, dentro de uma visão construtivista do ensino produtivo, é uma hipótese importante a ser trabalhada em sala de aula por parte do professor após a aplicação da prova.

A partir dos erros cometidos pelos alunos em uma prova, é motivo para os professores de quaisquer disciplinas mostrar o valor da atenção durante a elaboração das provas escritas, levando-os a ver na atenção um princípio precioso da aprendizagem, uma tensão discente, é verdade, mas necessária para que os discentes respondam  as questões de uma prova, dentro e fora da escola (vestibular, por exemplo), com orientação seletiva da percepção, do pensamento e da ação.

A atenção, como nos ensina a Psicologia, é função psicológica indissociável da consciência, memória e, sobretudo, fundamental à aprendizagem escolar.

Por fim, minha reclamação, mais do que uma queixa de pai é uma advertência de educador que, em educação, aos docentes cabe, por incumbência legal, o zelo pela aprendizagem dos alunos, conforme preceitua o artigo 13 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Os professores, dentro e fora da escola, on-line ou off-line, são profissionais da educação escolar, formam cidadãos e não fulanos, sicranos e beltranos.  Atenta a esses eventos antipedagógicos, cabe à escola oferecer cursos de atualização e de aperfeiçoamento sobre avaliação e currículo escolar.

No século XXI, o ensino da leitura, escrita e cálculo, presentes nas habilidades e competências instrumentais de todas as disciplinas, requer uma escola voltada não apenas para os erros ou lapsos dos alunos, mas expedita para cumprir os grandes objetivos da sociedade para a educação escolar, ou seja, o desenvolvimento da pessoal, exercício da cidadania, qualificação para o trabalho e, mais especificamente, na Matemática, através de um currículo dirigido por competências e habilidades, o cumprimento de finalidades do ensino fundamental como desenvolvimento do raciocínio lógico e o desenvolvimento da capacidade de aprender e de aprendizagem.

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