Um incrível menino preso no álbum de seus pensamentos

Ana Cecilia

 

www.partes.com.br/cultura/teatro/umincrivel.asp publicado em 20/12/2007

 

Ana Cecília é membro da Troupe do Covil Imaginário, atriz e assistente de direção

Quem não se lembra das constrangedoras fotos de colégio, nos forçando a sorrir um sorriso amarelo e dolorido à espera do clique de um estranho fotógrafo? Depois de liberados da foto saíamos mais leves, satisfeitos ou por não termos saído tão mal ou por simplesmente termos saído. Agora imagine se você não fosse liberado, se tivesse que permanecer durante muito tempo ali, naquela cadeira, enquanto todos os seus amiguinhos brincam livres pelo pátio… Parece desesperador?

O  incrível menino da fotografia, não vai pra aula. Continua ali, estático na cadeira, à espera do clique. O clique se dá, e ele percebe que está preso eternamente naquele cenário falso, em meados de 1930… ou 1960, ou 1910 ou, quem sabe, 1970? O personagem não se recorda mais. Eis que o menino se tornou um menino-homem. Depois de tanto tempo preso naquela fotografia, ele tem um corpo de adulto, um espírito de criança e um senso crítico de quem vê tudo passar, impotente.

Mesclando momentos de euforia, felicidade, angústia, medo, depressão, o ator paulista Eucir de Souza, sob direção de Fernando Bonassi, destaca-se no espetáculo  “O incrível menino da fotografia”. A direção discreta, simples, brinca com a sensibilidade dos mais atentos.

Entretanto, alguns erros não passam desapercebidos. Tecnicamente, o espetáculo funcionaria mais como uma performance; todo o cenário e o trabalho corporal expressivo do ator clamam por isso, mas o diretor acaba pecando ao “prolongar” o trabalho para 50 minutos de duração. A iluminação é bem intencionada, mas em determinados momentos se torna bruta e incomodativa, oscilando da mais crua luminosidade, com vários spots acessos à total penumbra; do mais enjoado vermelho ao mais incessante piscar de lâmpadas. Percebemos que a intenção era que a luz interagisse com as situações e sentimentos do personagem. Entretanto, ao contrário da suave e eficiente direção de Bonassi ao mudar expressões e posições do menino, a luz rouba a cena, de forma abrutalhada, provocando, muitas vezes, irritação.

Embora o ator tenha se saído muito bem, é muito díficil acreditar no discurso do menino sem associá-lo ao discurso do autor Fernando Bonassi. É como se o personagem emprestasse seu corpo, voz e trejeitos para discursar por Bonassi. Parece que falta empenho de Fernando para perceber o que um homem-menino da sexta série expressaria sobre a vida e determinadas situações, e muitas vezes sua fala acaba ficando inverossímil.

Afora essas observações, “O incrível menino na fotografia” é um trabalho que vale a pena ser visto, não só pelo já citado desempenho do ator e sensibilidade da direção, mas também pela reflexão que provoca.  Afinal de contas, será que o menino é o único de fato preso na fotografia? O único que fica olhando toda a vida passar, enquanto sua “bundinha” não cabe mais na cadeira e apenas lamenta tudo parado, incapaz de se mexer? E por que não se mexer? Não sabemos… só parece que é tarde demais, e toda a angústia, expectativa, tédio e reflexão aparecem camuflados no sorriso do menino, cada vez que o álbum é aberto, porque, afinal de contas, para ele o que importa é que nós estamos ali para vê-lo, e ele, para se ver em nós

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