O ensino da História e os novos recursos tecnológicos

atlas.fgv.br –
João Goulart em visita a China, com Mao Tse-Tung. [Fonte: CPDOC (ELS foto 063, número 2)]
Willian Spengler*

publicado em 12/02/2008 como www.partes.com.br/educacao/ensinodehistoria.asp

É público e notório que vivemos numa sociedade altamente tecnológica, onde a quantidade de conhecimentos acumulados pelo homem dobra em questão de poucos anos – muito diferente do que acontecia há cem ou duzentos anos atrás.

Isto tende a gerar um ambiente multicultural, sem fronteiras e imprevisível, onde as certezas absolutas perderam e perdem sua razão de ser, bem como as antigas fórmulas de resolução de problemas não mais se verificam com a exatidão tamanha com a qual se verificavam – num passado não muito distante.

Concomitantemente, o processo de tecnológico trouxe consigo um grande temor, advindo da excessiva mecanização da sociedade; contudo, hoje parece cada vez mais claro e evidente que o computador (símbolo máximo da automação) pode ser “humanizado”. É bem verdade que esta tecnologia, ao ser usada no setor produtivo da sociedade, gera desemprego e novas regras na relação entre capital e trabalho. Todavia, a tônica desta discussão passa pela maneira como o homem e a tecnologia se relacionam e interagem na construção de trabalhos e processos educativos, e não pelo impacto social decorrente do uso destes recursos.

Nesta perspectiva, o ensino da História deve estar atento para as mudanças advindas dessa nova realidade, possibilitando ao educando ser capaz de compreender, de ser crítico, de poder ler o que se passa no mundo, qualificando-o para ser, dentro deste processo, um cidadão pleno, consciente e preparado para as novas relações trabalhistas. Para que isto aconteça, a atividade de ensinar deve estar em sintonia com o nosso tempo.

“Oxigenar” a prática docente. Talvez seja esse o grande triunfo das novas tecnologias que se apresentam à educação. Entre elas, destaca-se o papel desenvolvido pela Educação à Distância. Contrariando os tradicionais modelos de transmissão do saber – que ainda insistem em se autodenominar “modernos” – os novos modelos – dos quais a Educação à Distância faz parte – tendem a ser se firmar como abordagens mais democráticas, flexíveis e dialéticas. O que ocasiona, portanto, um rompimento do monopólio do saber escolástico, acadêmico e formal, ou seja, a escola não é mais a detentora absoluta do saber, bem como o professor deixa de ser o único baluarte máximo do conhecimento humano.

Essa nova conjuntura confere a oportunidade do aluno seguir seu próprio caminho, ser o construtor e o maior responsável pela aquisição contínua do conhecimento que ele próprio julga necessário obter. Entretanto, o professor, precisa se adequar às novas regras do jogo, ou seja, precisa achar uma nova maneira e estratégia de readquirir sua importância – e este processo, naturalmente, não estará livre de estranhamentos iniciais, acidentes de percursos, erros, acertos, derrotas, vitórias, resistências, etc.

Mister se faz ressaltar que o interesse e motivação dos educandos aumentam sempre quando eles se tornam responsáveis pelo seu próprio processo de estudo. O ensino ativo permite que o aluno desenvolva a sua capacidade de ser crítico, de se expressar, de questionar, de criar e de ter uma autodisciplina nas tarefas, contribuindo para que da atividade individual parta para a construção coletiva.

A metodologia ativa nesse contexto aplica-se também ao ensino de História que, ao pautar-se nas contribuições da Escola dos Annales que tem a preocupação de ter como eixo a aprendizagem desta área de conhecimento dando conta das experiências vividas pelos homens, valorizando a reflexão sobre o cotidiano, a sobrevivência, os prazeres e os patrimônios culturais. Cada aluno poderá perceber como esse cotidiano é um espaço de múltiplos projetos, lutas e disputas entre os homens. Estaremos, portanto, falando de um ensino não mais ligado aos grandes acontecimentos, nomes, datas e heróis, mas sim de um ensino onde seja considerado o homem no seu dia a dia, criando, dessa forma, condições para o educando se situar na história como um agente construtor do processo histórico.

Apesar da manutenção de um ensino ainda centrado em uma perspectiva conservadora e positivista da História, temos a possibilidade não só de contestar e romper com esta lógica estabelecida, mas, também, de propor mudanças de concepções que devem vir não só do professor, como da História, do homem, da sociedade e da prática pedagógica.

Estas mudanças podem acontecer com o uso das novas tecnologias, pois a multimídia como forma de comunicação, a rede mundial de computadores, como veículo, e a Educação à Distância como meio, têm a propriedade de democratizar as informações e de atingir comunidades maiores. Além disso, estas tecnologias vêm contribuindo decisivamente para a superação das distâncias geográficas no mundo, ao mesmo tempo em que aumenta, substancialmente, o interesse e a possibilidade de educar através da interação entre o emissor e o receptor, tornando o processo ativo em permanente diálogo.

Vejamos um exemplo:

Aprender história ficou mais fácil: já está disponível na Internet o portal do Centro de Pesquisa e Documentação de História (CPDoc) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Os pesquisadores colocaram disponíveis na rede informações sobre um milhão de documentos provenientes de arquivos pessoais de políticos e homens públicos – como Getúlio Vargas, Tancredo Neves, Juscelino Kubitschek e Ulisses Guimarães. Também inseriram no site 35 mil fotos, entrevistas com personalidades e verbetes do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. O acesso ao endereço http://www.cpdoc.fgv.br é gratuito. De acordo com a diretora do CPDoc, Marieta de Moraes Ferreira, “o objetivo é conquistar um público novo, de gente que se interessa pela história contemporânea do Brasil mas não é pesquisador ou historiador. O portal pode ser uma ótima ferramenta de aprendizado”, afirma. Para facilitar as consultas, o portal tem um link intitulado Fatos e imagens, que oferece 200 pequenos resumos de fatos importantes da vida brasileira dos últimos 50 anos, ilustrados por 300 fotografias. Por esse link, atualizado mensalmente, é possível, por exemplo, descobrir o que foi o movimento tenentista, como começou o Estado Novo ou quem foram os articuladores da Proclamação da República. Os técnicos da FGV desenvolveram um software que permite o acesso a documentos tão diversos como cartas, discursos, memorandos, fotos e vídeos. Com isso, é possível, por exemplo, consultar on line os bilhetes escritos pelo líder comunista Luiz Carlos Prestes ou pelo ex-presidente Jânio Quadros[1].

Enfim, considerando os novos horizontes que se encontram, aos poucos, delineando e tomando forma, precisamos realizar um esforço conjunto a fim de conferir novos sentidos às práticas educativas, bem como realizar concomitantemente uma revisão profunda nos atuais processos de aquisição do conhecimento humano. Os professores precisam sair de uma posição defensiva, partindo para uma fase de autocrítica e de reconstrução de sua proposta pedagógica. Este, deve assumir seu papel de agente histórico de transformação da realidade educacional, articulando a realidade social mais ampla.

Assim, se realmente buscamos meios de adaptar a educação aos meios tecnológicos disponíveis – e que se encontram incessantemente surgindo – devemos ser capazes de, primeiramente, criar novas diretrizes e práticas capazes de promover novas significações em nossos atuais processos e modelos de transmissão do conhecimento, bem como compreender e conferir flexibilidade às novas relações interpessoais que derivarão destas transformações originadas.

Renovar o conteúdo programático curricular já desgastado e enfraquecido frente às realidades atuais é uma necessidade mais do que urgente. Até mesmo o mercado de trabalho demonstra mudanças drásticas, exigindo currículos mais flexíveis, que permitam a aquisição do conhecimento individual e independente, desafiando a filosofia educacional predominante.

Necessário se faz lançar mão de tecnologias educacionais que ultrapassem os meios de comunicação – como o Rádio, a TV –, ampliando assim a possibilidade da educação ativa, onde a função professor e aluno é ampliada, é repensada. A Educação à Distância é peça-chave para tanto, pois com ela  o educando vai deixar de ser anônimo, podendo verbalizar sua posição sem receio de ser punido.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CUNHA, Maria Isabel da. O Bom Professor e Sua Prática. 2 ed. Campinas, SP, Papirus Editora, 1992.

CRUZ, Marília Beatriz Azevedo. In: NIKITIUK, Sônia L. (org.) Repensando o ensino de História. São Paulo, Cortez, 1996.

FONSECA, Selva Guimarães. Caminhos da História Ensinada. Campinas, SP, Papirus, 1993.

GRAMSCI, Antônio. Concepção Dialética da História. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978.

MICELI, Paulo. In: MORAIS, Regis de (org.). Sala de Aula: que espaço é esse? 7 ed. Campinas, SP, Papirus, 1994.

NUNES, Silma do Carmo. Concepções de Mundo no Ensino de História. São Paulo, Papirus, 1996.

ROCHA, Ubiratan. “Reconstruindo a História a partir do imaginário do aluno”. In: NIKITIUK, S.L (org.). Repensando o Ensino de História. São Paulo, Cortez, 1996.

SAVIANI, Dermeval. Educação e Questões da Atualidade, São Paulo, Cortez, 1991.

SILVA, Marcos A. da. História: o prazer em ensino e pesquisa. Brasiliense, São Paulo, 1995.

* Historiador e Professor. Especialista em Educação pela UFRJ e em História do Brasil pela FIJ/RJ. E-mail: tenwillian@gmail.com

[1]  Jornal O Globo – 30/11/2001.

Willian Spengle é historiador e professor. Especialista em Educação pela UFRJ e em História do Brasil pela FIJ/RJ

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