Rótulos: cuidado você pode ser o próximo

 

Rótulos: cuidado você pode ser o próximo

Margarete Hülsendeger

publicado em 02/04/2008 www.partes.com.br/cronicas/mhulsendeger/rotulos.asp

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS

Outro dia li a seguinte afirmativa: “Quem lê poesia é mais inteligente”. Confesso que, inicialmente, fiquei sem entender o que o autor dessa frase queria dizer; afinal, afirmação tão categórica deixa de fora milhares de pessoas pelo mundo afora. Será que ele estaria querendo dizer que todos esses milhares de seres espalhados por esse imenso planeta são burros? Não, com certeza não! Uma pessoa inteligente jamais diria tal coisa, principalmente se lê ou escreve poesia.

No entanto, essa questão suscitou em mim a seguinte reflexão: como é fácil definir ou rotular os outros, colocando-se, muitas vezes, os nossos gostos como modelo a ser seguido.

Parece-me que, hoje, há uma facilidade imensa em estabelecer padrões de comportamento e até mesmo níveis de inteligência. É claro que isso não é invenção dos tempos modernos, mas creio que, ultimamente, temos nos aprimorado em julgar e condenar aqueles que não compartilham dos nossos interesses.

No entanto, o que as pessoas insistem em ignorar é que existem diferentes tipos de inteligências e, conqüentemente, de aptidões. Situação que não desmerece e tampouco engrandece ninguém. Entretanto, é muito mais simples (para não dizer simplório) colocar rótulos na testa das pessoas, fazendo-se afirmações do tipo: “Ela só serve para isso…”, “Só podia ser o fulano de tal!” ou ainda “Imagina que ignorante, ela não lê poesia!”. Infelizmente, poucas vezes procura-se questionar qual é a verdadeira essência daquele que acabou de ser rotulado, quais são os seus gostos, os seus anseios e desejos. Com essa atitude, muitas vezes impede-se que o outro se mostre na sua integralidade e em alguns casos, tristemente, leva-se o próprio rotulado a acreditar na verdade que lhe foi imposta pelos rotuladores de plantão.

Fico, então, pensando que rótulos devem ter recebido figuras proeminentes da História. Einstein, por exemplo, foi rotulado, por um de seus professores, como alguém que não seria nada na vida, simplesmente por que possuía aptidão para a Matemática e as Ciências e não para as Línguas. Os biógrafos de Einstein são unânimes em afirmar que esse incidente jamais se apagou da sua memória. Conclusão: não sei se Einstein lia poesia, sei que se dedicava com afinco à música; entretanto, não me parece que se possa considerá-lo um indivíduo com pouca inteligência e, com certeza, ele acabou se tornando alguém na vida.

Vê-se, então, que rotular não é uma novidade. Contudo, volto a afirmar: ultimamente, virou uma espécie de mania “enquadrar” as pessoas. Assim, se gosto de morangos e meu vizinho não, rapidamente acuso-o de ignorante, pois como é possível uma pessoa com um mínimo de inteligência não gostar de morangos?

E a questão que se impõe é: o que ganhamos com isso?

Satisfação? Pelo quê? Por participarmos de um grupo seleto de apreciadores de morangos? E os que gostam de pêssegos ou mangas? Em que grupos eles irão ser incluídos?

Sim, por que esse tipo de atitude ajuda a criar guetos, dificultando o diálogo e a troca de informações e conhecimentos. Pois se não gosto de morangos e sou definida como alguém ignorante (ou pouco inteligente) por aqueles que apreciam essa fruta (aliás, uma infrutescência), qual será minha atitude? Simplesmente, vou procurar aqueles que, como eu, não gostam de morangos. E qual o resultado disso? Deixo de receber informações sobre as qualidades dos morangos. Resumindo: eu fico mais pobre intelectualmente e emocionalmente e aquele que me rotulou e, conseqüentemente, excluiu, também.

Qual seria, então, a atitude correta? Parece-me óbvio: respeitar. Verbo que, aliás, não anda sendo bem conjugado.

Eu respeito. Tu respeitas. Ele respeita. Nós nos respeitamos. Tem coisa mais simples do que isso?

Portanto, antes de se definir quem é ou não inteligente, por gostar disso ou daquilo, lembre: o próximo a ser rotulado pode ser você e, com certeza, você não vai gostar nem um pouco da experiência.

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