A cidade do sol – A Thousand Splendid Suns, de Khaled Hosseini

Jaqueline Novaes

publicado em 04/04/2008

www.partes.com.br/cultura/livros/cidadedosol.asp

 

 

Jaqueline Novaes é colaboradora da Partes

A história de Mariam e Laila é de certa forma a história de muitas mulheres, que ao invés de se “esconder” atrás da burca, estão escondidas igualmente em seus postos de trabalho, em seus casamentos opressivos, na fome de seus filhos, no roxa choque de seu sexo.

O autor novamente se reporta à Cabul, sua cidade natal, para traçar a esta trama; as personagens são construídas lentamente, e todas vão ganhando alma, antes mesmo de seus corpos, o que parece ser intencional, como quem explica olores para dizer o que são flores.

Todo o texto é carregado de forte emoção, compreenda-se aqui, cada página; o virtuoso é que, além da construção do próprio romance por assim dizer, ele nos releva o cotidiano político-econômico e social do Afeganistão, a partir do olhar (muitos deles rasos d’água), de quem lá vive e ou, sobretudo Viveu (antes de morrer, ou ter parte de seu corpo mutilada por minas terrestres, juntar as partes dos corpos de seus filhos estraçalhados sobre telhados e ruas).

Um dos melhores livros que já li, emocionou-se profundamente, além de tirar minha própria burca, que com sua trama fechada ofuscava-me a visão para os acontecimentos daquele país.

Rashid fez um bolinho de arroz com a mão. Botou aquilo na boca, mastigou e, depois com uma careta, cuspiu tudo na sofrah.

– O que ouve? Perguntou Mariam…

-O que houve? – repetiu ele, como um miado, imitando-a. – O que houve é que você fez besteira novamente.

-Mas deixei ferver por mais cinco minutos que o habitual.

-Isso é uma mentira deslavada!

-Juro…

Rashid sacudiu o resto de comida das mãos e afastou o prato, derrubando molho e arroz na sofrah. Mariam o viu se levantar como uma bala, sair de casa batendo a porta.

Ajoelhou-se no chão e tentou catar os grãos de arroz para botá-los de volta no prato, mas suas mãos tremiam tanto que precisou esperar que o tremor melhora-se.O medo lhe apertava o peito. Tentou respirar fundo algumas vezes. Viu o seu rosto pálido refletindo na vidraça e desviou os olhos.

Depois ouviu a porta da frente se abrindo e Rashid voltando para a sala.

-Levante-se daí – disse ele. Levante-se e venha cá.

Então, ele agarrou a sua mão, abriu-a e depositou ali um punhado de pedrinhas.

-Ponha isso na boca.

-O que?

-Ponha… isso…na…boca.

-Pare, Rashid. Eu…

Com aquelas mãos vigorosas, ele agarrou o seu rosto. Meteu dois dedos em sua boca, obrigando-a a abri-la, e enfiou ali aquelas pedrinhas duras e frias.

Mariam tentou lutar contra aquilo, mas ele continuou a enfiar as pedrinhas em sua boca com o lábio superior erguido num sorriso de desdém.

-Agora, mastigue – disse ele.

Com a boca cheia de pedrinhas e terra, Mariam tentou balbuciar uma suplica. As lágrimas lhe escorriam pelo canto dos olhos.

-MASTIGUE – berrou ele, e aquele hálito de cigarro atingiu em cheio o seu rosto.

E ela mastigou. Lá no fundo de sua boca, alguma coisa estalou.

-Ótimo – disse Rashid. Suas mandíbulas tremiam. – Agora você sabe o gosto do arroz que faz. Agora sabe o que tem me dado nesse casamento. Comida ruim, e nada mais.

E foi embora deixando Mariam cuspindo pedrinhas, sangue e pedaços de dois molares quebrados.” Pág. 94 e 95

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