Instinto Materno

Margarete Hülsendeger

publicado em 02/05/2008 como www.partes.com.br/cronicas/mhulsendeger/instintomaterno.asp

 

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS

Em tempos de crianças assassinadas, abandonadas e maltratas, ocorreu-me refletir sobre o significado da expressão “instinto materno”. Até bem recentemente, esse era o tipo de ideia inquestionável, comparada, muitas vezes, à certeza de que a Terra é redonda e o céu é azul. Em outros termos, acreditava-se que bastava ter a capacidade de parir para que o instinto de preservação da espécie prevalecesse.

A questão é: isso é realmente verdadeiro? Ou, na verdade, é um mito inventado com o propósito de se glorificar e romantizar o mundo natural?

Se observarmos a natureza, logo constataremos que entre a maioria dos animais ditos irracionais os instintos de proteção à prole são uma realidade. Particularmente, não conheço espécies que abandonem ou maltratem os seus filhotes. Ao contrário. Muitas fêmeas, em situações extremas – de abandono, por exemplo -, são capazes até de adotar a cria de outras espécies. Não faltam matérias sobre o assunto em revistas, jornais ou na televisão que comprovem tal comportamento.

No entanto, pode-se pensar na mesma questão indagando-se o seguinte: como explicar o que vem ocorrendo em nossa sociedade no que se refere aos maus tratos impingidos às crianças? Será que é a nossa “inteligência superior” que nos faz agir de forma totalmente diferente dos outros animais, não respeitando a infância e as suas necessidades?

Outro dia, ouvi de uma pessoa uma afirmação que, a princípio, me deixou abalada. Segundo ela, existiriam mulheres que deveriam “nascer sem útero”. Esta é uma daquelas declarações contundentes, que podem até não ter um resultado prático (a não ser em casos excepcionais, todas as mulheres nascem com útero), mas têm o dom de nos fazer pensar.

Engravidar é uma das coisas mais fáceis de acontecer. O sexo, além de ser algo extremamente prazeroso, permite, por um breve período, o esquecimento dos problemas rotineiros da vida. A gestação, se acompanhada por um bom médico e/ou se a mulher não tem problemas sérios de saúde, também pode vir a se tornar um período tranqüilo, pois aonde ela for levará a barriga, grande ou pequena, junto. O parto, com as novas tecnologias à disposição da obstetrícia, também não é mais o problema que era há alguns anos, até mesmo a questão da dor foi eliminada com a cesariana e a analgesia. No entanto, algo que continua sendo um desafio a ser enfrentado, por todos aqueles que pretendem se tornar mães e pais, é a criação e educação dos filhos. É nesse ponto que os problemas aparecem. É aqui que o tal “instinto materno” será testado.

Criar e educar filhos não é uma tarefa fácil. Muitas vezes, nem agradável ela é. Exige esforço e perseverança. A paciência é igualmente um ingrediente indispensável. E tudo isso, é claro, demanda tempo. Um filho, ao contrário de um filhote, não se cria sozinho. Ele precisa desde o início de atenção e cuidado. E quando se pensa que a tarefa está concluída, percebe-se que ela recém começou. Contudo, muitos homens e mulheres parecem que não compreendem algo tão elementar.

Não há disposição, nem vontade, para exercer a árdua tarefa de ser mãe ou pai. Hoje o número de crianças abandonadas e maltratadas é cada vez maior. E aqui, não estou fazendo menção apenas a maus tratos físicos ou abandono no sentindo de falta de assistência material, mas a todas as crianças que só têm mãe e pai no papel, não de fato. Esse é aquele grupo de menores que crescem sendo cuidados por outros, sem limites, sem carinho e, conseqüentemente, sem amor. A muitos deles nada falta materialmente; no entanto, suas vidas são vazias de afeto.

Mães sem tempo. Mães sem paciência. Mães sem vontade. Onde está o instinto materno? Quem vai cuidar dessas crianças? Quem irá se responsabilizar em lhes ensinar o que é certo ou errado?

As favelas estão repletas de crianças abandonadas, mas isso não é uma exclusividade das classes menos favorecidas materialmente. Muitas crianças da classe média e alta também sofrem o trauma do abandono, apesar de comerem melhor, vestirem roupas de grife e freqüentarem bons colégios. Talvez essas sejam as crianças que, no futuro, ateiem fogo a um mendigo só porque ele está dormindo na calçada.

Triste realidade de uma sociedade sem tempo e sem referenciais. Triste realidade de uma sociedade que transformou o conceito de instinto materno em um mito e não em uma realidade. Algo para se refletir. Algo para se lamentar.

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