Movimento turístico e a problemática ambiental

Diogo Lüders Fernandes[1]
Poliana Fabíula Cardozo[2]
Ronaldo Ferreira Maganhotto[3]

publicado originalmente em 26/05/2008 como <www.partes.com.br/turismo/poliana/movimento.asp>

Poliana Fabiula Cardozo é bacharel e Mestre em Turismo (Unioeste/UCS), doutoranda em Geografia (UFPR). Docente da disciplina de Planejamento e Organização do Turismo para a Universidade Estadual do Centro-Oeste (Irati, Pr) e pesquisadora na modalidade continuada na mesma IES.

Hoje em dia é incontestável o valor do meio ambiente para a o turismo, sendo que o contato com a natureza é atualmente uma das maiores motivações que leva o turista a viajar. “A deterioração dos ambientes urbanos pela poluição sonora, visual e atmosférica, a violência, os congestionamentos e as doenças provocadas pelo desgaste psicofísico das pessoas são as principais causas da “fuga das cidades” e da “busca do verde” nas viagens de férias e de fim de semana.” (RUSCHMANN, 2001, p.19). Assim compreende-se que o meio ambiente é um elemento essencial para o desenvolvimento do turismo, já que este consiste na matéria prima da atividade turística, portanto seu uso de forma racional e responsável deve ser uma constante nesta atividade.
Mas esta visão não foi sempre a realidade, é possível dizer ainda que “O turismo e o meio ambiente não têm se caracterizado por um relacionamento harmonioso” (RUSCHMANN, 2001, p.20). Mas que a partir da década de 70, todo o planeta acordou ou melhor, despertou para problemática ambiental. Reuniões como a ECO-72 realizada em Estocolmo que reuniam cientistas, ambientalistas e representantes de países começam a discutir a problemática da degradação ambiental e a ecologia. Após vinte anos outra reunião foi realizada agora no Rio de Janeiro, a ECO-92, e o interesse por temas ligados ao meio ambiente, também influenciaram o pensamento e o desenvolvimento do turismo.
A relação do turismo e do meio ambiente pode ser caracterizado em 4 fases distintas, segundo vários estudos realizados na França, estas são segundo Ruschmann (2001):
– “A primeira fase, pioneira, ocorreu no século XVIII, e se caracterizou pela “descoberta da natureza e das comunidades receptoras”. Os primeiros turistas tinham muita curiosidade sobre os meios que visitavam e a leitura que faziam dessas áreas era bem diferente daquela dos viajantes atuais. […]. Sua motivações eram, busca de ambientes onde a industrialização ainda não havia chegado ou de centros turísticos desenvolvidos à beira-mar para bronzearem-se e banharem-se.(RUSCHMANN, 2001, p. 20 grifo da autora) Esta é a fase dos primeiros relacionamentos e dos primeiros equipamentos turísticos. Portanto é uma fase onde o turista começa a procurar o meio ambiente para fugir dos grandes centros, é uma fase ainda de convívio equilibrado entre o turismo e o ambiente pois não é todas as pessoas que podem viajar, então o número de turistas é reduzido sem a exigência de grandes modificações no ambiente para que este possa ocorrer.
– A Segunda fase, “caracterizada por um turismo “dirigido” e elitista, ocorreu no final do século XIX e início do século XX. Não havia a preocupação com a proteção ambiental e a intensificação da demanda estimulou as construções e o boom imobiliário que atualmente caracterizam os centros turísticos mais antigos da Europa. […]. Trata-se da fase na qual a natureza é domesticada, porém, não necessariamente esquecida, pois as empresas turísticas limitavam seus produtos às estações e ao seu entorno, onde a natureza e as civilizações tradicionais tinham seus direitos garantidos.” (RUSCHMANN, 2001, p.20 grifo da autora). Nesta fase ficam marcadas as primeiras modificações no ambiente motivados pelo desenvolvimento do turismo, quanto ao direito dos autóctones e os do ambiente não foram garantidos, o que acontecia na realidade é que a demanda mesmo que maior se comparada a fase anterior ainda era pouco expressiva para que pude-se causar grandes danos ao ambiente onde o turismo se desenvolveria.
– A terceira fase, que corresponde ao turismo de massa “ocorre a partir dos anos 50 e tem seu apogeu no transcorrer dos anos 70 e 80. A demanda turística dos países desenvolvidos cresce em ritmo muito rápido e as localidades turísticas vivem uma expansão sem precedentes. […]. Esse período é o mais devastador e se caracteriza pelo domínio brutal do turismo sobre a natureza e as comunidades receptoras. Trata-se de uma fase de excessos, […]. Predominam o concreto, o crescimento desordenado, a arquitetura urbana, a falta de controle de efluentes de esgotos, a criação de marinhas, de portos artificiais e de estação de esportes de inverno, onde várias construções ruíram por causa da falta de estudos geológicos. Em resumo, um período catastrófico para a proteção do meio ambiente” (RUSCHMANN, 2001, p. 21)
Observa-se desta forma que o turismo teve seu grande desenvolvimento a partir da segunda guerra mundial durante os anos 50 e 60, foi uma fase desastrosa na relação ambiente e turismo, o aumento significativo dos viajantes devido as facilidades que surgiram na época como o avanço nas tecnologias de transportes e comunicações, as conquistas trabalhistas que s deram na época e a expansão da economia mundial, proporcionaram que cada vez mais segmentos da sociedade tivessem condições para consumo de bens e serviços, que antes eram privilégio das elites. Tais fatos fizeram do turismo uma oportunidade de crescimento econômico. Pois a cada ano gerava, mais e mais renda devido ao aumento do fluxo de viajantes. Portanto muitos países vislumbrados com as oportunidades do turismo, começam a incentivar a atividade.
Neste período vivia-se a realidade de que “os valores materiais proporcionados pelo “progresso” e “prosperidade” advinda do crescimento econômico se sobrepunham às questões ambientais, não se reconhecendo limites para o crescimento e aceitando-se os riscos dele decorrentes.” (PIRES, 2002 p. 34 grifos do autor). Este era um paradigma da época onde o crescimento econômico em diversas atividades vinham causando danos ao ambiente onde era desenvolvido, mas o fator econômico vinha sempre a frente dos ambientais.
No início dos anos 70 este turismo de massa, atinge sua plenitude, e começam a se evidenciar todos os problemas causados por ele, sobre as comunidades autóctones a sobre o meio ambiente. Este quadro atinge e fomenta críticas por parte de alguns setores ligados ao turismo sobre este tipo de desenvolvimento desordenado.

Atualmente, em muitos países entrou-se em uma fase na qual o turismo passa a considerar os problemas do meio ambiente. A partir dos anos 70, a qualidade do meio ambiente começa a constituir elemento de destaque do produto turístico: a natureza e as comunidades receptoras ressurgem no setor dos empreendimentos turísticos, ainda massificadas, porém adaptadas à sensibilidade da época. (RUSCHMANN, 2001 p. 21)

É importante ter em mente que o turismo é um sistema aberto que influencia e é influenciado por outros sistemas, e este por sua vez se encontra dentro de um sistema ainda maior. Portanto estas mudanças que ocorreram na relação entre o turismo e o meio ambiente não de deram por mérito somente do sistema turístico, eles ocorreram devido a uma conscientização muito maior por parte da sociedade dos problemas ambientais que ocorriam na época. Que tiveram suas origens nos anos 60 quando algumas informações importantes sobre a destruição de áreas naturais e seus ecossistemas, a deteriorização ambiental, além de descobertas naturalistas e botânicas para medicina, nas florestas tropicais e nas regiões periféricas. Extravasam do circulo científica e começam a ser conhecidas por outras partes da comunidades, tais informações começam a chamar a atenção da mídia devido a seu caráter pioneiro e a sua importância, gradativamente começam a tomar espaço nos meio de comunicações.
Assim nos anos 70 os problemas ambientais são conhecidos por toda a sociedade, dando origem os movimentos ambientalistas, “que se organizam em uma frente de reação ao sistema econômico, cuja lógica de maximização da produção e otimização do uso dos recursos naturais, renováveis ou não, subestima o custo social e ambiental decorrente desse processo.” (PIRES, 2002, p. 48). Tal movimento surge em um período em que outros movimentos de caráter político-ideológico e contracultural estão em plena atuação, portanto o que ocorre é uma identificação entre eles, formando uma união e uma sinergia e união entre os movimentos.
Portanto dos anos 60 até o início dos anos 70 vários eventos e diversos tratados em vários países foram realizados para discutir a problemática ambiental, mas o ano de 72 foi um marco para tais discussão, “pela primeira vez, então, expuseram-se e discutiram-se, em escala mundial, os direitos da humanidade a um ambiente saudável e produtivo. […] da pressão e da mobilização de uma sociedade que desapertava para a importância transcendente desse tema e, por isso, firmou-se como um referencial do ambientalismo contemporâneo.” (PIRES, 2002, p.49), é a Conferencia das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, realizada em Estocolmo.
Como não poderia ser diferente neste momento que toda a sociedade repensava a forma de desenvolvimento das atividades econômicas, isto refletiu diretamente no turismo, que até este momento se desenvolvia de forma massificada causando custos sociais, ambientais, culturais e econômicos. Sendo necessário novas ideias para um desenvolvimento do turismo mais ordenado e que estivesse de acordo coma ética vigente na sociedade.

Esta mudança começa a surgir nas destinações turísticas por parte de suas comunidades, políticos e ambientalistas que buscam reordenar seus espaços turísticos, para atender a um turismo mais moderado, com operações de pequena escala, dando ênfase aos recursos da comunidade, com poucas alterações na localidade e um alto nível de envolvimento da população local. Esta nova ética no turismo fruto de uma mudança do paradigma da época, resultado de acontecimentos de caráter cultural e ideológico no âmbito geral da sociedade, tem por finalidade “o respeito às populações autóctones, a valorização de seu ambiente natural e de sua cultura.” (PIRES, 2002, p.44)

“As manifestações de contracultura, que foram movimentos de libertação político-ideológicos surgidos em oposição à sociedade tecnológico-industrial e consumista, cujas bandeiras de luta incluíam as questões ecológicas e ambientais, o antimilitarismo, o pacifismo e os direitos da minorias, emprestam seu caráter contestatório e inovador Às aspirações por um “turismo alternativo”, como movimento de reação ao “turismo massificado” então dominante.” (PIRES, 2002, p.43 grifo do autor)

Estas mudanças não se deram somente por iniciativa da oferta turística mas também por parte da demanda que motivada pelos idéias ambientalistas da época, fez com que segmentos crescentes de turistas insatisfeitos com a qualidade da experiência, de viagem oferecida pelo modelo de turismo massificado, caracterizado pela padronização das viagens e dos serviços e pela estereotipação dos programas e pacotes, começam a expressar seu desejo por novas alternativas turísticas, em que possam engajar-se em atividades sociais e culturais, dessa forma dando mais sentido à sua autorrealização. (PIRES, 2002, p.43)

Surgindo assim em resposta a todas as transformações em que o paradigma atual estava passando surge o turismo alternativo que, uma nova modalidade de turismo que busca uma inovação na atividade, incorporando as transformações exigidas pela sociedade, propondo outra forma de desenvolver a atividade turística em contraposição ao turismo convencional.
Portanto devido a esta mudança de paradigma, devido a crítica dos modelos de desenvolvimento econômicos, imposto pela sociedade, e refletido para dentro do turismo, surge o turismo alternativo que tem princípios éticos e humanitários, como a valorização do patrimônio cultural e natural de um povo, o respeito à dignidade humana e a educação, e a melhora da qualidade de vida da população, preservação da natureza e a realização de experiências turísticas autenticas enriquecedoras da condição humana.
O turismo alternativo é uma renovação na forma de fazer turismo, um movimento que teve origem no ideal que se forjava no descontentamento e na mobilização das opiniões mais sensíveis e das camadas sociais atingidos pelo modelo predatório do turismo de massas, que hoje encontra em pleno desenvolvimento na tentativa de diminuir os impactos negativos do turismo, minimizar os problemas ambientais e ser uma oportunidade de desenvolvimento moderado e ordenado que promoverá o bem-estar e a melhoria da qualidade de vida de uma comunidade.

Referências
RUSCHMANN, Doris van de Meene. Turismo e planejamento sustentável: a proteção do meio ambiente. 7. ed. Campinas: Papirus, 2001.
PIRES, Paulo dos Santos. Dimensões do ecoturismo. São Paulo: SENAC, 2002

[1] Bacharel e Mestre em Turismo (UEPG/UNIVALI). Docente pesquisador da Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná (Unicentro/Irati) para o curso de turismo. E-mail: diggtur@yahoo.com.br
[2] Bacharel e Mestre em Turismo (Unioeste/UCS); Doutoranda em Geografia (UFPR). Docente e pesquisadora da Universidade Estadual do Cento-Oeste (Irati/Paraná) para o curso de turismo. e-mail: polianacardozo@yahoo.com.br
[3] Bacharel em Turismo (UEPG) e Mestre em Geografia (UFPR). Docente e pesquisador da Universidade Estadual do Cento-Oeste (Irati/Paraná) para o curso de turismo. e-mail: ronaldomaganhotto@yahoo.com.br.

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