Pensar, viver e morrer: o que mais se pode fazer

Margarete Hülsendeger

publicado em 03/08/2008

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS. margacenteno@gmail.com

Passamos a vida pensando. Já houve alguém que dissesse (uma santa, eu acho) que os pensamentos são como cavalos selvagens. Como não conseguimos controlá-los, eles nos arrastam para onde querem e, muitas vezes, chegam a nos atropelar.

Quando acordamos, por exemplo, já colocamos nossa mente para trabalhar: “Que compromissos tenho hoje? Que contas devo pagar? E quais devem esperar? Será que ele me ama? Será que ela me trai?”. Os problemas, as dúvidas, velhas e novas, já de manhã cedo, antes mesmo dos nossos olhos abrirem, preenchem nossa cabeça sem aviso e, algumas vezes, de forma assustadora. Como o cérebro consegue dar conta de tudo isso é algo que só os neurologistas e neurocientistas devem ser capazes de entender e, quem sabe, explicar.

E se alguém acredita que ao dormir paramos de pensar, lamento informar, estão muito enganados. Sonhar, dizem por aí, é a tentativa do nosso cérebro de colocar alguma ordem em todos os nossos ininterruptos e atordoantes pensamentos. Deitamos pensando no que fizemos, no que deveríamos ter feito e no que faremos quando um novo dia raiar. Não há, portanto, descanso, o nosso pensar não nos deixa repousar.

No entanto, apesar da infinitude do pensar, muitas vezes, nos enredamos em pensamentos que muito pouco, ou quase nada, têm a nos acrescentar. Por outro lado, deixamos de pensar ou, até mesmo, afastamos propositadamente pensamentos que nos forçariam a encarar o que há de mais profundo e essencial em nossa mente.

Um exemplo da primeira situação é a compulsão que a maioria de nós têm de pensar (e de se preocupar) em coisas que ainda estão por acontecer. É impressionante a energia despendida quando esse processo é desencadeado. Os tais dos cavalos selvagens, literalmente, perdem o controle. Debatemo-nos e, não raro, sofremos, porque transformamos fantasias em realidades concretas, criando verdadeiras armadilhas mentais.

Entretanto, algumas vezes, conseguimos escapar dessas armadilhas. E são essas “escapadas” as responsáveis pelos chamados insights, que em português significa discernimento. Em outras palavras, são aqueles momentos nos quais conseguindo fugir dos pensamentos obsessivos do dia-a-dia, vislumbramos reais possibilidades de mudar radicalmente as nossas vidas. A necessidade da troca de emprego, de realizar uma viajem, de criar algo totalmente novo (desde uma obra de arte até uma revolução científica), enfim, esses são apenas alguns exemplos de tudo o que pode ocorrer quando deixamos nossa mente viajar para longe dos problemas do cotidiano. Tudo, então, se resume na forma e no conteúdo do nosso pensar. “Pensar bem” ou “pensar mal” é uma opção, não só pessoal, mas, também, intransferível.

E a morte? Ou melhor, pensar sobre a morte é um pensamento “bom” ou “mau”?

Tenho certeza que, muitos não teriam dúvidas em dizer que esse se trata de um pensamento muito ruim, o pior deles. Contudo, pergunto: será?

Quando se é jovem costuma-se acreditar que a morte está muito longe, alguns até agem como se ela não existisse, desafiando-a a todo o momento. Acredita-se, com toda a convicção, na invencibilidade e na imortalidade: “os outros podem morrer, eu não!”. Tudo é possível nesse período da vida, inclusive, viver para sempre.

Entretanto, conforme a maturidade se aproxima (e isso, sempre, ocorre muito rápido) começamos a perceber que a idéia de sermos imortais é uma ilusão. Se há algo impossível de driblar ou enganar é a morte. A consciência da nossa finitude nos obriga a pensar mais nela (a morte), a questionar nossas ações e razões, buscando, inclusive, a conciliação com o passado.

Assim, pensar na morte tornou-se um entretenimento para os mais velhos, cabendo aos mais jovens pensar apenas na vida e no que pode ser retirado dela. Acostumamo-nos a separar esses dois pensamentos, como se eles fossem distintos e incompatíveis. No entanto, será que pensar na vida, não é, também, pensar na morte? Ou ainda, será que ao pensarmos na morte não estaremos pensando na vida?

Sei que parece complicado, mas a mente, com os seus pensamentos, sempre em ebulição, tem dessas coisas. Quando menos esperamos, lá estamos nós pensando, nos envolvendo em elucubrações inesperadas que assustam e nos fazem questionar até onde esse pensar irá nos levar. De qualquer maneira, se começarmos a entender que pensar na morte é um pensamento como outro qualquer, talvez, consigamos entender o que Fernando Pessoa quis nos dizer nessa frase: O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.

Portanto, pensar, viver e morrer devem ser encarados como faces de uma mesma realidade: o fato de sermos humanos. Essa compreensão (a da nossa humanidade) poderá nos levar por caminhos desconhecidos e, para muitos, inexplorados. Trata-se de uma viajem, sem roteiro pré-estabelecido, na qual o viajante estará exercendo o seu direito soberano de pensar. Construa você, então, o seu próprio roteiro, cuidando sempre para não ficar muito preso a ele, e tente fazer como Fernando Pessoa: sinta, sinta muito, pois o sentimento nada mais é que o alimento do pensar.

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