A crônica da espera

A CRÔNICA DA ESPERA

Margarete Hülsendeger

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS

Estamos sempre a esperar. Poucos segundos podem significar horas. Horas, por sua vez, podem representar apenas alguns segundos. Einstein afirmava que a medida de tempo dependia do observador e, portanto, era relativa. O mesmo pode-se dizer da espera. Ela, como o tempo, também não é absoluta.

Alguns místicos dizem que estamos vivendo um período no qual, não só o nosso planeta, mas todo o universo, estaria aumentando a sua velocidade de rotação. Não sei se essa idéia é verdadeira, os cientistas que a contestem. No entanto, não podemos ignorar que tudo anda acontecendo de forma mais rápida em nossas vidas. Nossas concepções de tempo vêm-se alterando drasticamente.

Alguns exemplos.

Quando crianças, sempre esperávamos com ansiedade a chegada de nossos aniversários. O relógio, entretanto, naquela época, parecia que conspirava contra nós. Os dias se arrastavam e a data tão desejada sempre custava muito para chegar. Quando crescemos e nos tornamos adultos a “conspiração” toma outro rumo. O relógio, de repente, acelera e os dias agora passam com muita rapidez. E, quando menos notamos, lá estamos nós, ficando um ano mais velhos.

O mesmo pode-se dizer de outros tipos de espera. Quando somos obrigados a permanecer na fila de um banco, acabamos por nos sentir prisioneiros de uma situação da qual queremos escapar. É uma espera sem significado. Vazia. Ela só aumenta a nossa frustração, principalmente quando nos damos conta do movimento ininterrupto dos ponteiros do relógio. Por outro lado, nem todas as esperas são destituídas de significado. Nove meses esperamos para nascer. Para nós, uma espera de poucas lembranças. Para nossas mães, um período de muitas recordações e tremendas expectativas. O quanto uma mãe é capaz de esperar é difícil de avaliar. Contudo, sabemos que elas podem passar a vida esperando.

Tudo ilusão? O tempo é absoluto e, portanto, exatamente igual para todos? Talvez, mas a cada dia que passa, mais difícil se torna conjugar e entender o verbo esperar. Um dia fazemos a contagem para um novo ano, no outro já estamos comemorando o seu final. Ano Novo e Ano Velho tudo se confundindo em horas que não percebemos passar.

Particularmente, gosto de pensar que as diferentes esperas da minha vida – as do passado e, quem sabe, as do futuro – sempre tiveram algum significado. Que o meu tempo não foi desperdiçado em esperas inúteis. Quantos livros li enquanto aguardava em um consultório medico? Quantos planos tracei sentada dentro de um ônibus esperando chegar ao meu destino? Hoje os resultados dessas esperas são difíceis de contabilizar, mas, com certeza, foram muitos. Entretanto, a nossa tendência é de nos fixarmos apenas nos seus aspectos negativos, esquecendo o que, com elas, aprendemos e conquistamos.

Portanto, concluo lembrando das palavras de Clarice Lispector: Corro perigo, como toda a pessoa que vive. E a única coisa que me espera é exatamente o inesperado. Por essa razão, mesmo correndo riscos, espero que este texto não lhe tenha cansado. Que ele não tenha sido uma perda do seu tempo. A verdade, no entanto, é que eu só posso esperar.

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