A gestão escolar e suas representações: a visão de professores de educação física

Franciele Roos da Silva Ilha*; Hugo Norberto Krug*

publicado em 11/09/2008 como <www.partes.com.br/educacao/agestaoescolar.asp>

 

Franciele Roos da Silva Ilha – Licenciada em Educação Física pela UFSM; Especializanda em Educação Física Escolar e Gestão Educacional pela UFSM; Mestranda em Educação pela UFSM

A Gestão Escolar constitui-se numa atuação que objetiva promover a organização, a mobilização e a articulação de todas as condições materiais e humanas dos estabelecimentos de ensino. Estes que visam promover a efetiva aprendizagem dos alunos, de modo a torná-los capazes de enfrentar adequadamente os desafios da sociedade globalizada e da economia centrada no conhecimento. Portanto, o processo de Gestão Escolar deve estar voltado para garantir que os alunos aprendam sobre o seu mundo e sobre si mesmo. Adquiram conhecimentos úteis e aprendam a trabalhar com informações complexas, gradativamente, sendo estas, muitas vezes contraditórias com a realidade social, econômica, política e científica (LÜCK, 2000).

Os professores de Educação Física com base na história de sua profissão desarticulada com os saberes pedagógicos da docência, muitas vezes, se eximem de atuar ativamente nas atividades que envolvem o processo de Educação Escolar. O Coletivo de Autores (1992) esclarecem que ela surge pelas necessidades sociais que são identificadas pelos diferentes momentos históricos e pelas funções que assumiu em cada um desses períodos. Nas décadas de 70 e 80 surgem movimentos de críticas à Educação Física, que buscam construir teorias para reorientar a sua prática. Este processo envolve diversas transformações, tanto nas pesquisas acadêmicas que envolvem este contexto, quanto na prática pedagógica dos professores do componente curricular (MORO, 2004). As novas teorias têm como objetivo comum promoverem a disciplina de Educação Física no sistema escolar, de modo que enfoque a formação integral dos alunos.

Diante disso, o objetivo desta investigação foi analisar as representações de professores de Educação Física acerca da gestão escolar. A metodologia utilizada baseou-se na fenomenologia e na abordagem qualitativa. Os participantes do estudo foram cinco professoras de Educação Física atuante na rede estadual de ensino do município de Santa Maria (RS). Para a coleta das informações foram feitas entrevistas semi-estruturadas com estas professoras, tendo sua interpretação seguida pela análise de conteúdo. Com vistas a não expor as professoras e também por questões éticas, seus nomes foram substituídos pelos seguintes: Professora Flor, Professora Mel, Professora Sol, Professora Lua e Professora Estrela.

  

As representações das professoras acerca da Gestão Escolar

A maioria das Professoras, quando questionadas sobre o que representa a Gestão Escolar, mostraram-se bem orientadas para o sentido mais ampliado que se vem trabalhando para se desenvolver nas instituições escolares e educacionais uma gestão menos marcada pela figura do diretor/administrador. De acordo com Lück (2006, p.18) vem se buscando uma mudança paradigmática da visão de administração educacional para o entendimento de gestão educacional, no entanto, não com o intuito de negação de um paradigma sobre outro, mas sim, na busca de sua superação. “Mesmo, porque uma gestão competente se assenta sobre processos de administração igualmente competente”. Ainda que, os processos de gestão se caracterizam por pressupostos mais abrangentes que incluam orientações mais dinâmicas, objetivos mais significativos, formativos e contextualizados.

Apenas uma delas (Professora Flor), declarou não entender o significado de Gestão, ao dizer que não se apropria desse termo.

“Seria todo o tipo que gestão, gerir, que se relacione a escola, a instituição escolar, então seria todas as ações políticas, ou até própria dos profissionais no sentido de pensar em melhorar e desenvolver a escola” (Professora Estrela).

“Nosso trabalho da escola, como ele é desenvolvido” (Professora Sol).

“É uma equipe que o objetivo dessa equipe, dessa gestão é a organização do ambiente escolar e para que esse ambiente seja produtivo, pra que haja boas relações, pra que haja uma boa aprendizagem dos alunos, que sempre que tu precise tu procura as pessoas para resolver pra melhorar o ambiente da escola” (Professora Mel).

“É um todo, como é que ta direcionado isso que eu não sei, não consigo entender como é que ta direcionado essa gestão na escola porque, tem aquela coisa a direção, a supervisão, os professores, funcionários e os alunos, fora isso, tem a comunidade escolar, é esse todo aí que constitui a gestão escolar, a direção manda e os outros mais ou menos obedecem, agora já ta tendo mais uma democratização, tão colhendo opinião do que é possível fazer pra melhorar a escola, tão colhendo opinião dos pais para saber o que é possível trazer pra dentro da escola, mas muito lentamente, ainda ta tendo a figura, diretor, professor e pais” (Professora Lua).

 Entretanto, apenas o entendimento mais amplo de Gestão das professoras, não fundamenta as mudanças na escola, sendo que se percebe em suas falas, que a instituição escolar e sua equipe não convergem atitudes e estratégias para construírem juntas uma Gestão mais participativa. Para que isso ocorra realmente, é necessário que os demais integrantes do processo educativo se apropriem dessa visão, o que muitas vezes se torna difícil pelo mínimo espaço de tempo em torno de discussões e reflexões referentes a essas questões, ao dar voz ao professores, pais e alunos, e não somente ao diretor e aos profissionais de cargo administrativos da escola.

Em torno dessa desarticulação, Tavares (2001) parte do pressuposto de que a busca pela qualidade nas organizações escolares deve estar imbricada de um relevo especial, serem mais desenvolvidas, reflexivas e flexíveis, capazes de respostas rápidas e eficazes. Porém essas características não convergem com sistemas burocráticos, complexos, pesados, lentos, rígidos, concentrados e autoritários. Nem mesmo objetiva-se o caos, a confusão, a anarquia, mais ou menos organizadas, porém sabe-se que as organizações mais democráticas e flexíveis são as que respondem melhor aos desafios dos novos tempos. Nesse sentido, almejar organizações menos burocráticas sem alterar as atitudes dos seus membros não faz sentido. Trata-se de um problema ético, cultural e talvez de inter, multi e transcultural. Precisa-se ter uma visão mais dinâmica e instituinte, não só pensando no mercado de trabalho, mas também nas situações diárias de vida.

De acordo com as concepções de Libâneo; Oliveira; Toschi (2005) a que mais se identifica com o depoimento das professoras seria a Gestão Democrática. Segundo esses autores, a Gestão Democrática representa uma atividade coletiva imbricada na participação e em metas comuns, contudo, considera essenciais as capacidades e responsabilidades individuais guiadas por uma ação coordenada e controlada. Essa idéia converge com Falcão Filho (1997 apud PEREIRA; KIRCH, 1999) ao pontuar que as atividades da escola são complementares, sendo que cada uma delas necessita de um agente individual, contudo exige a participação de outras, para que juntas possam concretizar qualquer objetivo ou meta da mesma.

Diante dessas reflexões, o que fica evidente é que apesar da concepção de Gestão Democrática estar presente no âmbito de leis educacionais há muito tempo, ainda não houve a sua incorporação em termos práticos no cotidiano das escolas. No Inciso VII do Artigo 206 do Capítulo III da Seção I da Constituição Federal de 1988 consiste: “gestão democrática do ensino público, na forma de lei” (BRASIL, 1988). E posteriormente na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.364, de 20 de dezembro de 1996) no Inciso VIII do Artigo 3º do Título II “gestão democrática do ensino público na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino” (BRASIL, 1996).

A questão da necessidade de melhora na qualidade da Educação já se constitui como um problema e um desafio a um longo prazo. Entretanto, para se atingir esse objetivo é preciso uma revisão não apenas nas práticas docentes, mas nas concepções que orientam essas ações (DELLORS, 1999 apud LÜCK, 2006). Desencadeando assim, a compreensão da relevância da Gestão Educacional na construção de um novo enfoque, partindo de uma visão de conjunto, embasada na mobilização de pessoas que articulam os saberes entre si, suas práticas com vistas a maximizar as metas desejadas (LÜCK, 2006).

  

REFERÊNCIAS 

BRASIL. Constituição de 1988 da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988: atualizada até a Ementa Constitucional n. 20, de 15-12-1998. 21. ed. São Paulo: Saraiva, 1999.

BRASIL. Lei n° 9.394. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: Congresso Nacional, 1996.

COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino de Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992.

LIBANEO, José Carlos; OLIVEIRA, João Ferreira; TOSCHI, Mirza Seabra. Educação escolar: políticas, estrutura e organização. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2005.

LÜCK, Heloísa. A gestão participativa na escola. 2. ed. Vozes: Petrópolis, 2006.

LÜCK, Heloísa. Apresentação. In: LUCK, H. (Org.). Gestão escolar e formação de gestores. Em Aberto, Brasília, v.17, n.72, p.7-10, fev./jun., 2000.

MORO Roque. Luiz. Educação Física escolar: reflexão e ação curricular? Ijuí: Ed. Unijuí, 2004. 1996p. (Coleção Educação Física).

PEREIRA, Sueli Menezes; KIRCH, Elisete. O diretor de escola e os novos desafios da gestão: um estudo de caso. Cadernos CEDAE, Porto Alegre: PUCRS, p.51-67, 1999.

TAVARES, J. Relações interpessoais em uma escola reflexiva. In: ALARCÃO, I. (Org.). Escola reflexiva e nova racionalidade. Porto Alegre: Artmed, p.31-64, 2001.

* Especialista em Gestão Educacional e Educação Física Escolar na UFSM; Mestranda em Educação na UFSM. fran.ef@pop.com.br

* Doutor em Educação e em Ciência do Movimento Humano; Professor Adjunto da UFSM.

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