O imbróglio do Acordo Ortográfico

Deonísio da Silva

publicado em 01/10/2008 como <www.partes.com.br/emquestao/acordoortografico01.asp>

 

Comecemos pelo título deste artigo. Você sabe como vai ser escrito “imbróglio” depois de entrar em vigor o novo Acordo Ortográfico que, nascido no Rio de Janeiro, em maio de 1986, vai entrar em vigor em 2009, no Brasil e nas demais nações lusófonas? Aliás, a data de início da vigência vale apenas para documentos oficiais e para a mídia. Para as outras instâncias, incluindo o ensino público, o prazo vai até 2012, embora o Acordo comece a ser aplicado em 2010.

Convido os leitores a examinar certos detalhes e brechas, como fazem juristas e advogados com as leis. Afinal, semelhando a Constituição de 1988, a norma culta da Língua Portuguesa tem suas leis, que todos devemos respeitar. Todos?

Bem, o Instituto Antônio Houaiss e a Publifolha acabam de lançar Escrevendo pela nova ortografia: como usar as regras do novo acordo ortográfico da língua portuguesa, coordenação e assistência de José Carlos Azeredo (134 páginas).

É um opúsculo que certamente colabora para fazer da Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa o livrinho que foi a Constituição para o presidente Eurico Gaspar Dutra, mas deixa inseguro quem o consulta.

Vejamos. Na apresentação, aparecem “linguística” e “europeia”, em vez de “lingüística” e “européia”, pois o trema e o dito acento ainda estão em vigor. E vade-mécum, já aportuguesado, aparece em itálico. Mas, então, uma coisa ou outra: se aceitamos a forma portuguesa, é vade-mécum. Se não aceitarmos, será vade mecum, sem acento e sem hífen, pois é assim que se escreve em latim. Cuidemos do latim, ele está presente no português, principalmente no direito, e acho que ninguém de nós quer dispensar o habeas corpus, quer?

Eu queria ser amistoso nesse artigo. Primeiro, porque gente de bem, qualificada, com boas intenções, vem a público para explicar o Acordo. Mas, como escritor e professor de Letras, gosto de voltar ao antigo dilema que enfrentam todos os que escrevem: a botânica ou a jardinagem? A maioria dos leitores quer a jardinagem da língua, não a botânica, que esta é obra de lingüistas, lexicógrafos, gramáticos. Não se enfeita a janela com um vaso de sementes. Para a mulher amada, você dá um buquê de flores, e essas são palavras. Confiar a língua portuguesa exclusivamente a estudiosos da língua, por mais qualificados que sejam, equivale a permitir que sobre o sexo legislem apenas ginecologistas e urologistas.

Os dicionários mais consultados de nossa língua ainda não se atreveram a grafar “imbrólhio”, como se diz em bom português. Preferiram manter o neologismo italiano imbroglio, sem acento, ou acentuá-lo, seguindo os editores do português Camilo Castelo Branco e do brasileiro Raul Pompéia. Sim, abonaram imbróglio com um texto de Dispersos I, do primeiro, e de O Ateneu, do segundo. Mas por quê? Por que acentuaram, indicando a pronúncia, e mantiveram o encontro “gl” como se tivesse em português a mesma pronúncia que tem no italiano?

De todo modo, o Acordo veio para ficar. É bom começar a ler obras como este livrinho. Tudo indica que, por razões de mercado, logo estará em bancas e livrarias o de sempre: o roto ensinando o esfarrapado a se vestir.

Com que roupa você vai? Este é o xis da questão também para a língua. Você não vai à praia de terno e gravata, e não vai ao Legislativo, ao Judiciário, ao Executivo, ao trabalho ou ao estudo de calção de banho.

 

Reprodução autorizada. Original em: ‘Brasil que Lê – Agência de Notícias’.
Contato: agencia@brasilquele.com.br

Deonísio da Silva é escritor e professor universitári

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