A primeira experiência docente, o acadêmico/professor nunca esquece

Fonte: santamaria.rs.gov.br

Franciele Roos da Silva Ilha*; Hugo Norberto Krug*

publicado em 01/11/2008 como www.partes.com.br/educacao/primeiradocencia.asp

 

Considerações iniciais

Franciele Roos da Silva Ilha Especialista em Gestão Educacional e Educação Física Escolar na UFSM; Mestranda em Educação na UFSM franciele.ilha@yahoo.com.br

Os estágios extracurriculares e os projetos de extensão e pesquisa nos cursos de formação de professores têm como objetivos contribuir com os saberes construídos durante a trajetória formativa, bem como, proporcionar maiores vivências para além das disciplinas do currículo. Como salienta Pimenta; Lima (2004, p.43) cabe ao estágio possibilitar que os acadêmicos “compreendam a complexidade das práticas institucionais e das ações praticadas por seus profissionais como alternativa no preparo para sua inserção profissional”.

         Na compreensão de Santos Júnior; Krug (2008) o acadêmico se constitui como profissional no momento em que passa a atuar no contexto de sua profissão, na medida em que se torna ativo na elaboração, execução e avaliação de seu próprio trabalho docente. Diante disso, que os estágios e os projetos de extensão configuram-se num veículo essencial para a construção das concepções de educação e de professor ainda no curso de formação inicial. Aprofundando essa discussão, nos subsidiamos em Pérez Gómez (1992) que destaca que o profissional competente atua refletindo na ação, criando uma nova realidade, experimentando, corrigindo e inventando através do diálogo que estabelece com essa realidade.

A atividade extracurricular que realizei, teve como Campo de Estágio o Programa Segundo Tempo (PST), na área de Esporte Escolar. O trabalho foi realizado em uma Escola Estadual do município de Santa Maria-RS, juntamente com outro estagiário e a coordenadora, que era a professora de Educação Física da escola. O período de realização foi de 08/03/2005 à 31/08/2005, nas terças e quintas-feiras das 13h30min às 17h30min, onde nós três trabalhávamos juntos, exceto em eventuais compromissos justificados.

As atividades escolares foram divididas em três modalidades esportivas: Atletismo, Futsal e Handebol. As turmas eram compostas de 20 a 30 alunos, de maneira que meninos e meninas participavam sempre juntos, e as aulas tinham duração de 50 minutos, sendo que 10 minutos eram destinados para a merenda oferecida pelo Programa Segundo Tempo e o restante do tempo servia para nós organizarmos o material a ser utilizado na aula seguinte. Os alunos desta escola que estudavam pela manhã foram convidados a participar, já que o PST era realizado no turno inverso das aulas. Os alunos interessados que participaram das atividades estavam cursando quartas ou quinta séries do Ensino Fundamental e tinham de 10 a 13 anos. Cada aluno pôde escolher apenas uma modalidade esportiva, já que, foram muitos os interessados em participar. Após a escolha das atividades e organização das turmas e horários, iniciaram-se as aulas que tinham duração de 50 minutos, com a frequência de uma aula semanal para cada aluno. Nós estagiários tínhamos uma carga horária de oito horas semanais de aula ministradas, além de quatro horas para planejamento das atividades.

A justificativa da importância desta atividade extracurricular para a minha formação foi de muita validade, pois, segundo Tardif (2002), é no exercício da docência desenvolvemos os saberes experenciais, e, desta forma o cotidiano da escola precisa ser vivenciado pelos acadêmicos. Ainda que, no decorrer do nosso curso nas disciplinas direcionadas à escola pouco foi tratado em termos de conteúdos teórico-práticos que levem em consideração a real situação das escolas, seja ela de ordem estrutural, organizacional, entre outras. 

 

O Projeto Segundo Tempo

O Projeto Segundo Tempo tinha como objetivos democratizar o acesso à prática e à cultura do esporte como instrumento educacional, visando o desenvolvimento de crianças e adolescentes. Especificamente nas escolas, objetivava oportunizar às crianças e adolescentes a vivência de práticas esportivas, num ambiente formativo e coletivo, visando à inclusão social. Frente a esses objetivos, a filosofia da escola que realizei o estágio visava, de acordo com seu Projeto Político Pedagógico difundir o conhecimento incorporado na humanidade de forma a instrumentalizar o educando na busca pela justiça social, cidadania, autogestão e ética nas relações sociais e com a natureza.

A metodologia utilizada no PST foi desenvolvida com vistas aos seguintes princípios didático-pedagógicos: a) Quanto à escola – a escolha das atividades foi feita de acordo com os espaços e materiais disponíveis e pelas necessidades dos alunos. A organização da merenda foi realizada de acordo com o local e horário disponível das funcionárias, pois o lanche era feito no mesmo refeitório usado pelas turmas da escola. Era oferecido no final da aula da 1ª turma e início da 2ª turma, sendo a mesma merenda que era dada aos demais alunos da escola. Nesta escola ainda não havia local disponível para os dias de chuva. Para o desenvolvimento do trabalho proposto pelo PST, a escola disponibilizou 01 (um/uma) professor(a) de Educação Física para coordenar 02 (dois/duas) acadêmicos(as) do Curso de Educação Física da UFSM que atuaram como estagiários(as). A escola dispunha de uma quadra aberta, quadra de areia, campo com uma pequena pista, bolas de Futsal, Handebol, Voleibol e Basquetebol e redes de Handebol; b) Quanto à seleção dos alunos e a permanência deles no PST – a seleção dos alunos foi feita de acordo com o turno em que frequentam a escola, pois como as aulas do PST eram realizadas pela parte da tarde, e os alunos que participaram foram os que estudavam pela manhã. A permanência deles no PST estava relacionada à participação, interesse e responsabilidade dos mesmos; c) Quanto à participação do acadêmico – os acadêmicos participavam e realizavam o seu trabalho de acordo com a metodologia existente na escola, de maneira reflexiva e dialógica, se adequando ao contexto escolar; e, d) Quanto ao professor-coordenador – o professor coordenador tinha uma carga horária de 10 horas (convocação), sendo estas atuantes, exclusivamente, no acompanhamento do PST, na participação do planejamento, observação das aulas e auxílio no que fôsse necessário.

 

 

A prática pedagógica

         De acordo com Pimenta; Lima (2004, p.43) a prática educativa representa “um traço cultural compartilhado que tem relações com o que acontece em outros âmbitos da sociedade e de suas instituições”. Inicialmente construímos o plano de trabalho fundamentado nos objetivos do PST, juntamente com o material teórico pesquisado e estudado. Desta forma, o desenvolvimento das aulas e atividades foi baseado neste planejamento. Apesar disso, algumas adequações ao planejamento foram feitas de acordo com as necessidades que surgiram ao longo do semestre, mas nada que prejudicasse o desenvolvimento dos conteúdos. No entendimento de Piletti (1995) vários são os motivos que embasam a importância do planejamento, tais como: a) evita a rotina e o improviso; b) contribui para o alcance dos objetivos visados; c) promove a eficiência do ensino; d) garante maior segurança na gestão da classe; e) economiza tempo e energia.

É importante esclarecer que apesar de entender que as crianças da quarta série, com até 11 anos de idade, não devessem vivenciar apenas um esporte específico, pois é necessário oportunizar-lhes diversas experiências de movimento para que no futuro possam ter desenvolvidos várias habilidades e que possam então escolher a atividade de maior interesse. Entretanto, como o objetivo do PST não visava o esporte competitivo ou de rendimento foi possível desenvolver as modalidades sem se limitar aos movimentos específicos de cada uma, nem mesmo exigir movimentos complexos.

         Os objetivos das modalidades de Handebol, Futsal e Atletismo foram desenvolver o gosto pela prática do esporte ao respeitar as individualidades dos alunos, proporcionando a estes a vivência de diferentes práticas corporais diferenciadas, trabalhando, principalmente, com os aspectos motores e sociais nas aulas. A avaliação foi feita de forma contínua, através da observação do desenvolvimento global dos alunos. Tendo como critérios: a) a participação e interesse nas aulas; cooperação na realização das atividades propostas; aceitação de regras e limites; frequência. O controle de frequência dos alunos foi feito através de uma chamada, e a dos estagiários, através da assinatura do livro ponto. Como atividades extras realizaram-se gincanas, passeios e torneios.

Palavras finais

A experiência vivida neste estágio com certeza foi fundamental, principalmente para definir minhas escolhas futuras como profissional de Educação Física. Certamente, na medida em que pude construir alguns saberes experenciais, o meu repertório pedagógico estará subsidiando novas práticas docentes. Dessa forma, para desempenhar minha função de educadora frente aos alunos, terei mais confiança e habilidade para lidar e resolver as situações conflitantes do cotidiano da escola. Além da possibilidade de percebemos a importância de certas disciplinas do Curso que até então eram mal vistas e ditas inúteis, pois quando tratamos com pessoas e mais especificamente com crianças devemos levar em consideração o ser humano como um todo, procurando assim sermos mais que meros estagiários, mas educadores que oportunizem e mostrem uma nova visão da Educação Física Escolar visando além do desenvolvimento físico e motor, o desenvolvimento psicossocial dos alunos, tornando-os cidadãos mais responsáveis, críticos e principalmente com um bom caráter.

O estágio que realizei, como toda atividade extracurricular, apresentou aspectos positivos e negativos. Assim, têm-se a seguir a descrição detalhada desses aspectos. As vantagens, como na maioria das vezes, se sobressaem sobre as desvantagens. Estas foram às seguintes: começando pela ótima organização geral do Programa Segundo Tempo e do Núcleo o qual estava inserido; a maioria dos alunos participantes foram assíduos, praticavam todas as atividades propostas, valorizavam a aula e os acadêmicos; o espaço físico da escola apesar de não apresentar local disponível para aulas em dias de chuva foi bastante diversificado e acessível para desenvolvermos a aula.

Mas como não se pode deixar de citar os aspectos frágeis e fatores que deixaram a desejar têm-se então: a falta de auxílio no que se refere ao planejamento e instrução para lidarmos com as crianças, pois apesar de sabermos que devemos ir ao encontro do conhecimento, os coordenadores de cada Núcleo deveriam ser mais que meros observadores das aulas. Já que estes são professores e provavelmente tinham uma vivência maior do que a nossa nesta área e poderiam nos orientar melhor para realizarmos com mais sucesso nosso trabalho docente. Além disso, não posso deixar de citar a carência de materiais que são muito importantes para diversificar, motivar e usá-los diretamente de acordo com o objetivo de cada aula, por isso também que não foi possível trabalhar com todas as modalidades esportivas.

REFERÊNCIAS

PÉREZ GÓMEZ, A. O pensamento prático do professor. In: NÓVOA, A. (Coord). Os professores e sua formação. Lisboa: Publicações Dom Quixote, p. 15-34, 1992.

PILETTI, C. Didática geral. 19. ed. São Paulo: Ática, 1995.

PIMENTA, S. G.; LIMA, M. S. L. Estágio e docência. São Paulo: Cortez, 2004.

SANTOS JÚNIOR, S.L.; KRUG, H. Extensão Universitária: contribuições à formação inicial em Educação Física da UFSM. In: KRUG, H (Org.). Os professores de Educação Física e sua formação. Santa Maria: Universidade Federal de Santa Maria, p.49-55, 2008.

TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2002.

* Especialista em Gestão Educacional e Educação Física Escolar na UFSM; Mestranda em Educação na UFSM. franciele.ilha@yahoo.com.br

* Doutor em Educação e Ciência do Movimento Humano; Professor Adjunto da UFSM; Coordenador do GEPEF/UFSM (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Física). hnkrug@bol.com.br

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