Expectativas

EXPECTATIVAS

Margarete Hülsendeger

Publicado originalmente em 01/12/2008 como <www.partes.com.br/cronicas/mhulsendeger/Expectativas.asp>

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS

Há algum tempo, me convenci de que um dos maiores inimigos da humanidade é, sem dúvida nenhuma, a expectativa. Estranho? Pode ser, mas há uma explicação.

Toda a vez que concebemos um plano – qualquer plano, por mais simples que seja – não conseguimos evitar a tentação de criarmos fantasias sobre o que pode acontecer. Ficamos sempre esperando que algo ocorra, tendo, muitas vezes, sérias dificuldades em colocar nossos desejos dentro de perspectivas mais realistas. E quando, por qualquer motivo – afinal, a vida é uma caixinha de surpresas –, eles não sucedem como imaginamos, sentimos como se o mundo – o universo! – estivesse contra nós.

Para entender melhor esse meu ponto de vista, vamos a alguns exemplos.

O primeiro deles trata do difícil e complexo ato de se criar filhos. Alguém que já é pai ou mãe seria capaz de negar que não se tenha preocupado em estabelecer, mesmo antes do nascimento, metas ou objetivos para seus pimpolhos? Duvido. Quando se decide ter um filho deposita-se nele, consciente ou inconscientemente, muitos dos nossos sonhos e esperanças. Passamos a acreditar que ele se transformará no melhor e no mais espetacular ser que a humanidade já conheceu. Tudo o que não conseguimos fazer, a partir dele e por causa dele, se tornará uma realidade.

No entanto, todos sabemos – repito, todos! – que isso, na maioria das vezes, não acontece. Os filhos, como é natural, costumam-se tornar algo muito diferente daquilo que sonhamos. Seus interesses e ideais serão, provavelmente, distintos dos nossos. Porém, para muitos pais – mais até do que estamos dispostos a reconhecer – essa é uma realidade difícil de aceitar. Expectativas não só exageradas, mas também fantasiosas, sobre alguém que, apesar de ser carne da nossa carne, é – e assim deve ser – diferente de nós, acabam resultando em um aumento significativo do número de pais frustrados e de filhos rebeldes.

Entretanto, não é só na criação dos filhos que as expectativas se mostram o inimigo numero um da humanidade. Há um outro exemplo bastante ilustrativo sobre o mesmo tema: nosso trabalho.

Durante os anos de formação profissional, temos a tendência de construir uma série de imagens idealizadas sobre o que seremos capazes de realizar. Acreditamos, com toda a convicção possível, que nos tornaremos o profissional que a sociedade há tanto tempo vem aguardando. As pessoas irão não só amar, mas também valorizar e respeitar todas as nossas ideias e ações.

Quando, finalmente, após anos de preparação, ingressamos no mercado de trabalho, logo percebemos que pouco do que imaginamos era verdadeiro. O sistema, na maioria das vezes, quer do profissional algo bem diferente daquilo que se sonhou. O fato de passar um final de semana preparando material para apresentar a um cliente em potencial ou de sacrificar noites de sono tentando encontrar a solução para um problema vital da empresa em que se trabalha, não é garantia suficiente para o necessário e importante reconhecimento. Infelizmente, muitas vezes apenas a “bola fora”, a pisada em falso, é que se sobressai, ficando todos aqueles momentos de desgaste e estresse ignorados ou menosprezados. Resultado? Frustração e, em alguns casos, até depressão.

Sei que estou parecendo pessimista. Afinal, muitos se dirão pais de filhos perfeitos e profissionais absolutamente realizados. De minha parte, não duvido, e até espero, que existam pessoas que se sintam assim; contudo, me pergunto: será que elas não se percebem dessa maneira justamente porque não criaram expectativas exageradas sobre suas vidas? É algo para refletir.

De qualquer modo, continuo afirmando que a expectativa continua sendo um inimigo poderoso contra o nosso bem estar mental. Ela pode, se não for controlada e bem dimensionada, fazer com que alcemos voos de grande alegria ou mergulhemos em poços escuros de angústia e ansiedade dos quais teremos dificuldade de sair. Talvez um caminho possível para evitar a frustração e o sofrimento excessivos seja o de se tentar reconhecer com a maior clareza possível aquilo que pode ou não ser realizado e, principalmente, se isso depende direta e exclusivamente de nós.

Para concluir, não quero deixar a impressão de ser contra o estabelecimento de metas. Ao contrário. A escolha de objetivos a serem alcançados é o que também pode ser chamado de esperança. Sem ela, a vida é vazia e destituída de sentido. Entretanto, para o nosso próprio bem, não devemos tornar-nos reféns de objetivos extremamente idealizados, transformando-os em algo que não conseguiremos controlar ou até mesmo atingir.

Portanto, cuidado com as suas expectativas, reflita sobre elas, veja o que elas estão fazendo por você. Coloque-as dentro de uma perspectiva realista e, principalmente, pense se tudo o que você imaginou e sonhou depende verdadeira e unicamente de você.

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