Um novo olhar sobre o filme “Meu pé esquerdo”

Décio Luciano Squarcieri de Oliveira
Fernanda Gabriela Soares Santos

publicado em 01/12/2008 como www.partes.com.br/educacao/peesquerdo.asp

 

 

Mexe qualquer coisa dentro doida

Já qualquer coisa doida dentro mexe…”

Caetano Veloso

Fernanda Gabriela Soares dos Santos Mestre em Educação pelo PPGE/UFSM, professora da FISMA( Faculdade Integrada de Santa Maria). fernandagssantos@yahoo.com.br

Lembro-me, ainda menina, quando assisti pela primeira vez ao filme “Meu pé esquerdo.” Sabia do quanto o fora comentado e de como havia agradado na época aos meus pais. Meu pai estava bastante inquietado com o ator, que para nós era a primeira vez que o víamos, o irlandês Daniel Day-Lewis. Assisti com meus tios na casa de minha avó, lembro de ter assistido sentada no chão, pois não havia espaço para todos e eu como caçula sempre tinha que ceder meu lugar aos mais velhos. Ah, essas genealogias…

Nunca esqueci o filme. Outros tantos filmes vieram na minha história com o mesmo ator: Em nome do pai, Gangues de Nova York…mas aquele da minha infância havia sido o mais especial. Sobretudo porque já não existia nem em VHS e nem em DVD em nenhuma locadora da minha cidade.

Já adulto, tenho a oportunidade de comprá-lo em uma loja especializada, trabalho este realizado pra mim por uma tia que mora em Belo Horizonte. Desde que comecei a lecionar, sempre que posso, divido minhas paixões com meus alunos. A principal dela é a arte, da qual tanto gosto e que, de certa maneira, tem me mantido viva.

Décio Luciano Squarcieri de Oliveira é Graduado em História – Licenciatura Plena pela Universidade Federal de Santa Maria. Especialista em História do Brasil/UFSM, Mestrando em Educação/UFSM, Professor Pesquisador I da Universidade Aberta do Brasil – UAB/UFSM, Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Imaginário Social – GEPEIS – UFSM. decioluciano@yahoo.com.br

Olhinhos sempre atentos as histórias que passo, os alunos têm sido grandes companhias para dividir os filmes de que gosto. Esse era especial, depois de longos anos voltei a ver com eles. Já sob os olhos da maturidade, contendo as lágrimas, as quais não foram nenhum pouco contidas da vez primeira.

Ao contrário da reação que tive, de muito choro da primeira vez quando não devia ter mais idade que meus alunos, eles adoraram. Não se emocionaram tanto, mas viram belezas onde naquele momento eu ainda não tinha visto. Li, nos textos que foram convidados a escrever posteriormente, palavras de carinho ao protagonista, que nestes tortos anos jamais me havia saído da memória. Assim um deles, menino de treze anos morador do interior escreveu: “tal como a professora de filosofia sempre nos diz, também o personagem do filme não tinha perdido a capacidade de sonhar. Ele não desistiu de seus escritos nem de seus desenhos, porque sabia que a vida também estava presente nestes pequenos e doces momentos…” 

 

 

Dentro de uma geração que, muito mais que a minha, consome a mídia de massas e filtra muito pouco, filhos de pais que muito pouco acesso ou nenhum tiveram a escolarização, os textos e avaliações de meus alunos não raro têm sido as melhores surpresas de meu trabalho. Uma outra menina, colega sua, escreveu o seguinte em seu texto: muito mais do que bonita ou comovente a história nos faz pensar que poderia ter sido a de qualquer um de nós. Ninguém está livre de uma deficiência. Talvez seja na exibição de filmes como esse que devemos educar as pessoas que ainda não conhecem o caminho do respeito pelo diferente que, às vezes, se mostra tão igual a nós…” 

 

 

Ao escrever este texto, pensei principalmente nas opções que vamos tomando ao longo de nossa trajetória docente. Eu poderia ter-lhes exibido qualquer clássico da Disney, semelhante a estes que têm passado nos domingos à tarde na Rede Globo. Ou poderia ter-lhes levado algum destes sucessos de bilheteria não raro esquecidos no próximo verão. Porém fiz um longo esforço para que meus alunos tivessem acesso a um filme que possivelmente não exista na cidade deles. Não existem cinemas lá, jamais se cogitou a hipótese e todos os filmes que ele vêm são da televisão ou de uma pequena locadora, onde os sucessos chegam com um atraso bastante grande.

Mas foi a minha escolha, de alguém que nunca se contentou com o instituído. Que sonha em trazer seus alunos em uma viagem para que possam descobrir a magia do cinema. Ou não, mas que, pelo menos em um momento de suas vidas tenham tido acesso para poderem, fazer sua própria escolha. Nem todos nós precisamos, em minha opinião, consumir os cânones da arte. Contudo, todos nós deveríamos ter direito a, pelo menos uma vez na vida, saber o que isso significa.

        Literatura, ficção, cinema nem uma nem outra, ao contrário, Educação. Mesmo o mais renomado professor, perante o seu ego, não abre mão das possibilidades de pensar alternativas. Segundo FREIRE (1987, p.78-79): “a comunicação, o direito a palavra, que se materializa pelo diálogo, não pode ser negada aos homens, o seu direito de pronunciar o mundo e de interagir neste e nele propor mudanças.”

         Não se trata de acreditarmos ou não que nossos alunos vão gostar ou entender. Trata-se, no mínimo, de proporcionarmos. Como já vamos criticar essa geração que está vindo se não apostarmos neles? Como desistir de nossos alunos? Sobretudo eles que lutam para não desistirem da gente.

                 Por fim, considerando a urgência que se impõe ao profissional da Educação, a superação dos estigmas e das limitações impositivas das Disciplinas, enquanto Formador; merece destaque a ideia expressa em FREIRE sobre a ação e reflexão das atitudes docentes e do seu pensar:

Práxis que, sendo reflexão e ação verdadeiramente transformadora da realidade, é fonte de conhecimento reflexivo e criação. […] E é como seres transformadores e criadores que os homens, em suas permanentes relações com a realidade, produzem, não somente os bens materiais, as coisas sensíveis, os objetos, mas também as instituições sociais, suas idéias, suas concepções. Através de sua permanente ação transformadora da realidade objetiva, os homens, simultaneamente, criam a história e se fazem seres histórico – sociais. (FREIRE, 1987, p. 92)

                 Não somos nem seremos enquanto educadores a disciplina que lecionamos. Somos muito para além de qualquer disciplina, pois o que tentamos demonstra não está apenas nos livros ou nos conteúdos que trazemos. Em alguma medida, somos tudo o que tentamos que nossos alunos aprendam. Nossa semente é lançada, o que eles farão com ela? Apenas os anos nos dirão…

REFERÊNCIAS 

 

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, JR: Editora Paz e Terra, 17ª Edição, 1987.

 

          Fernanda Gabriela Soares Santos Graduou-se em Filosofia – Licenciatura Plena pela Universidade Federal de Santa Maria. Especialista em Gestão Educacional/UFSM, Especializanda em Pensamento Político/UFSM, Mestranda em Educação/UFSM, Professora da Rede Municipal de Formigueiro – RS, Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Imaginário Social – GEPEIS – UFSM. fernandagssantos@yahoo.com.br

          Décio Luciano Squarcieri de Oliveira: Graduou-se em História – Licenciatura Plena pela Universidade Federal de Santa Maria. Especialista em História do Brasil/UFSM, Professor Substituto do Departamento de Metodologia do Ensino – Centro de Educação – UFSM, Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Imaginário Social – GEPEIS – UFSM. decioluciano@yahoo.com.br

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