Entendendo a “Formação de Professores: pesquisas, representações e poder”

Franciele Roos da Silva Ilha*; Hugo Norberto Krug*

publicado em 02/12/2008 como www.partes.com.br/educacao/entendendoaformacao.asp

Palavras iniciais

Franciele Roos da Silva Ilha Especialista em Gestão Educacional e Educação Física Escolar na UFSM; Mestranda em Educação na UFSM franciele.ilha@yahoo.com.br

Discutir a temática da formação de professores requer buscar subsídios na sua história nos aspectos macro e micro que englobam o contexto educacional, político, social e econômico. Diante desse desafio, Pereira (2000) realiza esse movimento através da construção do livro: Formação de professores: pesquisas, representações e poder. Assim, seu trabalho possui reflexões sobre o passado, o presente e o futuro, no entanto, muitas vezes, o autor depara-se com problemáticas que não estão se resolvendo ao longo dos anos. Por isso, serão destacados alguns pontos que poderão motivar projetos de transformação na formação inicial de professores.

         Num primeiro momento, Pereira (2000) traz à tona o debate sobre as pesquisas desenvolvidas no Brasil com o tema formação. Na década de 70 eram privilegiados estudos que envolvessem a dimensão técnica do processo formativo. Em resposta a esta realidade, foram surgindo ao final desta década, movimentos de crítica, em busca de uma prática educativa transformadora. Nas palavras do autor: “A própria escola passa a ser vista como um espaço, em que novas ideias e mudanças podem ser iniciadas” (PEREIRA, 2000, p.17).


Hugo Norberto Krug é doutor em Educação e Ciência do Movimento Humano; Professor Adjunto da UFSM; Coordenador do GEPEF/UFSM (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Física). hnkrug@bol.com.br

A partir dos anos 80, difundiu-se a formação do educador e a importância deste assumir um compromisso político em favor das classes populares. Nesse momento também ocorreram denúncias da crise da educação em defesa de melhores condições de trabalho e de salários dignos. Nesse sentido, Arroyo (1985 apud PEREIRA, 2000) levanta o questionamento sobre quem deforma o profissional do ensino? E diz que nos formamos professores na universidade, porém ao ingressarmos no mundo do trabalho sofremos uma deformação, já que todo o contexto não contribui nem dá condições de desenvolvimento profissional. Nessa direção, ainda são inquietantes várias dúvidas sobre a escolha da profissão professor. Essa decisão se dá por acreditar na vocação, se constitui em “bico”?

         Em consequência disso, a função da escola, da educação escolar, são trazidas a debate a fim de se constituir uma identidade em torno dessa questão. Da mesma maneira em que se pensa na formação de professores ou de educadores. Assim, destaca o autor “a importância do professor em seu processo de formação é conscientizar-se da função da escola na transformação da realidade social dos seus alunos e ter clareza da necessidade da prática educativa estar associada a uma prática social mais global” (PEREIRA, 2000, p.27).

         Esse quadro do papel do professor e sua função na escola foram sendo pensados em dois âmbitos: que o professor tivesse o conhecimento científico de sua área e o conhecimento pedagógico para promover a aprendizagem dos alunos, ainda que sem dissociar-se do compromisso político. Porém, este último foi reduzido ao ato de falar sobre, sem a perspectiva de transformação social.

         Teoria e prática e sua disjunção também são questões destacadas no livro, sendo um tema bastante discutido em toda a área educacional. Ao mesmo tempo em que o professor pesquisador e sua prática reflexiva são reforçados como meio de qualificar a educação, e a formação do professor. Para Schön (apud PEREIRA, 2000, p.35) “quando o profissional reflete na ação, ele se torna um pesquisador no contexto prático”. Reforça ainda, que “a reflexão-na-ação pode ser uma prática rigorosa e tornar-se um instrumento importante na atividade profissional”.

 

 

A Universidade como espaço de formação

            É inegável a importância das universidades na evolução do processo educativo, principalmente em se tratando de cursos de licenciatura. Porém, é necessário haver uma reconstrução nos projetos de tais cursos, de forma que estes se efetivem na prática cotidiana. Outra transformação que se busca é a desconstrução das relações de poder frequentes nas universidades. O professor pesquisador é reconhecido como produtor de conhecimentos, enquanto o professor que atua em sala de aula e investe no ensino é o “mero transmissor do saber”. Do mesmo modo que, o ensino na pós-graduação é superior ao ensino da graduação e este último superior ao ensino em cursos de licenciaturas. Além de os professores solicitarem e buscarem muito mais trabalhar com disciplinas específicas, que “transmite” o conhecimento científico da área, do que a prática educativa em disciplinas pedagógicas. Lüdke (1994 apud PEREIRA, 2000, p.38) enfatiza a ordem hierárquica instalada na academia universitária no momento que “o poder vai claramente decrescendo à medida que se troca a atividade de pesquisa pelo ensino ou qualquer coisa relacionada com a educação”.

         Assim, nos anos 90 começa-se a pensar no professor que ensina e ao mesmo tempo faz pesquisa, como forma deste profissional formar-se enquanto investigador da sua própria prática e reconstruir constantemente sua atividade e seus saberes docentes. Sendo que, “a formação do professor começa antes mesmo de sua formação acadêmica e prossegue durante toda a vida profissional” (SANTOS apud PEREIRA, 2000, p.49).

A realidade dos cursos de licenciatura

            A história da profissão nos mostra como o espaço escolar vem sendo muito lentamente transformado em momentos de aprendizagem e desenvolvimento. Da mesma forma que, a figura do professor foi modificando seus princípios, sua função, sua prática e a promoção do saber que possui e/ou que constrói.

         No que se refere aos dilemas da licenciatura, Pereira (2000) pontua os seguintes: a separação entre as disciplinas específicas e pedagógicas; as peculiaridades dos cursos com bacharelado e licenciatura; a desarticulação teoria-prática; os cursos noturnos; as disciplinas integradoras.

O estudo que o autor desenvolveu na UFMG sobre os cursos de licenciatura, pode ser também o reflexo da nossa realidade, já que a categoria formada – o professor – vem enfrentando dificuldades equivalentes em todos os contextos.

         Como forma de analisar o aluno que ingressa na universidade a pesquisa do autor busca construir o perfil do vestibulando aprovado nos cursos de licenciatura, e a partir disso percebeu-se que: os cursos de licenciatura estão entre os menos concorridos e com menos prestígio social; os alunos apresentam idade mais avançada em relação aos demais e são em sua maioria egressos da rede pública; são nas licenciaturas que se enquadram o maior número de egressos do ensino noturno; a renda familiar é inferior dos demais cursos; a maioria dos acadêmicos desenvolve algum tipo de atividade remunerada; a escolaridade dos pais também é inferior dos demais cursos; a ocupação de maior prestígio dos pais não é freqüente nas licenciaturas.

Em relação à representação dos acadêmicos sobre a função do professor evidenciaram-se algumas concepções de ensino. Apesar de a abordagem tradicional estar presente nessa análise, outras concepções mais adequadas ao nosso tempo e às nossas necessidades vem sendo reconhecidas e enfatizadas nos discursos de muitos profissionais.

Palavras finais

            Tendo em vista a situação que se encontra a educação brasileira, os cursos de licenciatura vêm acompanhando esse processo lento de mudança. Porém, nós temos a incumbência e a responsabilidade de assumir a luta pela qualificação desses cursos formativos, já que, de alguma forma fomos beneficiados com eles e hoje desfrutamos de uma pós-graduação gratuita e de qualidade.

         É importante destacar que, se parece inviável conquistarmos grandes resultados no âmbito educacional, existe sim, a possibilidade de interferimos e desequilibrarmos o tradicional, o instituído, o hegemônico, através da atuação docente e da gestão escolar, pois, dessa forma estaremos contribuindo com as armas que ainda nos permitem utilizar.

Resenha da obra: PEREIRA, José Emílio Diniz. Formação de professores: pesquisas, representações e poder. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. 

* Especialista em Gestão Educacional e Educação Física Escolar na UFSM; Mestranda em Educação na UFSM. franciele.ilha@yahoo.com.br

* Doutor em Educação e Ciência do Movimento Humano; Professor Adjunto da UFSM; Coordenador do GEPEF/UFSM (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Física). hnkrug@bol.com.br

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