Um convite para assistir ao filme “Feliz Ano Velho”

Fernanda Gabriela Soares dos Santos*[1]Décio Luciano Squarcieri de Oliveira**

publicado em 17/12/2008 como www.partes.com;br/educacao/felizanovelho.asp

 

“Solitários somos todos

         Sentindo o calor da noite…”

César Augusto Simões dos Santos

Fernanda Gabriela Soares dos Santos Mestre em Educação pelo PPGE/UFSM, professora da FISMA( Faculdade Integrada de Santa Maria). fernandagssantos@yahoo.com.br

Assim como no artigo anterior que escrevi para esta revista, desafiei-me a assistir a um filme que em determinada época de minha vida mexeu muito comigo. Tinha curiosidade em saber, de que maneira, tantos anos depois, o filme tocaria a Fernanda, hoje professora.

E o mais interessante de tudo: o que me proporcionou este feliz exercício foi o fato de tê-lo assistido em um cineclube da cidade, e o que é melhor: localizado em uma cooperativa de estudantes. Convidei então um querido colega para o presente texto, pois embora escrito em primeira pessoa e em tom biográfico, como costuma ser a maioria de meus escritos, tem a sempre presente participação de meus amigos.

Tal como mencionado no título, o filme em questão é o brasileiro “Feliz Ano Velho”. Assisti ao filme após a imensa curiosidade despertada pela leitura do livro, o qual aconteceu, como de costume em minha família: um tio leu em uma viagem a Campinas, passou para o outro tio, que passou para a namorada, etc. também como não raro em minha família o livro se perdeu nas mãos de alguém…

Tá, aí lembro de uns pedaços do filme, eu ainda bem criança e minha mãe me dispensando porque não achando muito apropriado para minha faixa etária, o que sempre causava profunda indignação. E eu sempre com a louca vontade de ler o livro…

Anos depois minha tia Dani, dez meses mais velha, uma espécie de meu guru na época (e ainda hoje) disse que tava lendo. Eu quis emprestado, mas ela não podia

Décio Luciano Squarcieri de Oliveira é Graduado em História – Licenciatura Plena pela Universidade Federal de Santa Maria. Especialista em História do Brasil/UFSM, Mestrando em Educação/UFSM, Professor Pesquisador I da Universidade Aberta do Brasil – UAB/UFSM, Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Imaginário Social – GEPEIS – UFSM. decioluciano@yahoo.com.br

porque era da escola e não estudávamos na mesma. E minha vontade crescendo. Àquela época não tínhamos muito dinheiro em casa para comprar livros (e continuamos não tendo) então pedi para amigos, conhecidos, vizinhos, parentes. Nada. Ninguém tinha.

Acontecia uma coisa muito engraçada: meu tio Fabio, o mesmo que havia viajado a Campinas e lido o livro me contava as histórias que lembrava de trás pra frente. Todos os bimestres ele precisava apresentar na aula de literatura um livro. Em sua imensa preguiça de ler (que ainda hoje persiste, mesmo sendo ele um universitário) todo o bimestre ele apresentava o mesmo livro. E a professora elogiava. E os colegas, na lira dos dezesseis, dezessete, achavam por demais engraçado…

Às vésperas de meu aniversário de treze anos, descobri que na locadora de livros ao lado de minha casa tinha o livro. Então foi meu pedido e aniversário feliz e celebradamente atendido…

Depois do livro, um dia convidei a Dani, minha tia que havia indicado o livro para assistirmos ao filme. Naquela noite fomos a uma festa e lembro de termos comentado com todos. Ficamos bastante empolgadas com aquela estética de filme, muito característica dos anos oitenta, década essa muito celebrada pela minha geração, não sem certa nostalgia.

Amamos o filme. Comentamos o filme, rimos e choramos com ele. Tenho em mim ainda a primeira tarde em que o assisti. Ficou profundamente marcado. A história, para o leitor que ainda não teve a oportunidade de assisti-lo é baseada no livro de mesmo nome, de Marcelo Rubens Paiva.

Quando o autor ainda era universitário, em uma festa da universidade (Unicamp), antes de dar um mergulho brincou que era o Tio patinhas e que descobriria o tesouro escondido no fundo. Ao mergulhar bate a cabeça e, a partir daí luta para recuperar os movimentos das pernas, passando por hospitais, fisioterapias, entre outros. É muito difícil imaginarmos que uma tarde que deveria ser de pura brincadeira e prazer pra juventude tenha um fim tão doloroso.

Quem de nós nunca transgrediu? Nunca fez algo eticamente incorreto? Sobretudo aos vinte e pouquíssimos anos? A sensação que temos ao assistirmos o filme não é outra senão a de que poderia ter acontecido com qualquer um de nós. Ou com algum de nossos filhos. Nenhum de nós está livre de uma fatalidade.

Por isso que Aristóteles, na Poética defende a arte como uma maneira de crescimento. Quando nos deparamos com a dor, a angústia, o sofrimento do outro ser humano, vamos ver de uma outra maneira quando acontecer conosco. Um exemplo clássico que costumo dar aos meus alunos é sobre a discussão em relação à pena de morte. Sabemos que setores conservadores da sociedade são pragmáticos na defesa de que o Brasil diminuiria sua violência se a pena de morte fosse aprovada no país. Então sempre digo aos meus alunos que essas pessoas deveriam assistir a um filme chamado “A vida David Gale”, ou seja, alguém que não cometeu o crime deve pagar por ele. Uma simples demonstração de que o sistema é falho, e só poderia ser mesmo, quando pensamos que é dirigido e executado por seres humanos iguais a nós.

Uma outra pergunta que costumo colocar quando a discussão é a pena de morte é sobre se as pessoas têm ideia de quantos negros e latinos costumam ser mortos dessa maneira. Caso você não tenha, caro leitor, passe rapidamente os olhos pelas estatísticas e compreenderá por que meu tom de indignação.

Sem nem tocar na questão da polícia que deveria nos proteger, mal remunerada, mal equipada, raivosa, que costuma invadir favelas e dar tiros em inocentes. Que odeia traficantes e contra eles já criou sua própria lei, mesmo quando eles tenham que pagar propina a uma polícia corrupta. Não é a toa que o inesquecível Capitão Nascimento, personagem de Wagner Moura no filme “Tropa de Elite”, virou ídolo de uma nação. Polícia boa é aquela que demonstra autoridade no grito, no tapa que humilha a nós, os inferiores.

Findo este delicioso trabalho, caro leitor, fazendo o mesmo convite que farei aos meus alunos. Assistam ao filme e leiam o livro. O exercício de compartilhar leitura e cinema é sempre válido, na medida em que comparamos, inquietamo-nos, buscamos outros caminhos. A ousadia sempre é necessária. Inquietação também é sinônimo de potência, de acreditar que nem tudo está perdido…

Referências 

PAIVA, Marcelo Rubens. Feliz Ano Velho, RJ: Objetiva, 1982.

* Professora de Filosofia da Rede Municipal de Formigueiro, RS e mestranda em Educação pelo PPGE/UFSM- fernandagssantos@yahoo.com.br

** Professor de História, Especialista em História do Brasil, Professor Substituto do Departamento de Metodologia do Ensino – MEN –CE-UFSM- decioluciano@yahoo.com.br

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