Para além do tradicional: o filme “banheiro do papa” como sugestão para uma aula de filosofia

Fernanda Gabriela Soares dos Santos*[1]Décio Luciano Squarcieri de Oliveira**

publicado em 20/12/2008

 

A presente proposta se situa nas discussões atuais sobre educação. O que queremos quando entramos em sala de aula? Que expectativas temos com nossos alunos? O que eles devem ou não aprender? Quais marcas deixamos? Abrimos mão daquilo que aprendemos em nossos cursos de formação? Há barreiras entre a formação e a prática?

Ao iniciar minha disciplina de Filosofia para o Ensino Fundamental, pela primeira vez dei-me conta da discussão pesada teórica que isso representava. Estava tão envolta às leituras acadêmicas ao longo de minha formação que jamais avaliei a dificuldade que meus alunos encontrariam.

Foi justamente no ofício de preparar aulas, discutir com outros professores e fazer minha própria formação, uma vez que , ao contrário do que muitos professores universitários pensam, o professor da rede básica está sempre refletindo sobre sua prática. Trocamos experiência, lemos, compartilhamos idéias, preparamos aulas.

Os baixos salários já não nos servem de desculpas para que sejamos professores medianos ou para que saíamos de nossas aulas insatisfeitos com o resultado. A proposta que trago aqui traduz esse novo olhar que os professores de minha geração, formados já num período significativo de mudanças políticas, vivenciando já um regime dito democrático, têm trazido para suas aulas. Para FREIRE (2002,p. 75): “Não é algo que vem de fora da prática docente, mas algo que dela faz parte”.

Em uma das minhas idas ao cinema, pois também considero o contato com a arte um processo de formação, dei-me conta de como poderia aproveitar o filme que estava discutindo para uma de minhas aulas. A história é muito interessante: em 1988, com a passagem do papa à cidade de Melo, no Uruguai, muitos moradores de uma região paupérrima, viram na vinda do papa uma possibilidade de ganhar dinheiro.

O protagonista do filme, em especial, resolve ganhar dinheiro construindo um banheiro, pois imaginava que as pessoas ficariam muito tempo assistindo o discurso e teriam vontade de usar o banheiro. Muito mais importante do que a vinda do papa, que serve como pano de fundo, o filme traz discussão muito pertinente a uma aula de filosofia.

  

Acredito que a primeira e a mais importante delas seja a união entre os moradores do pequeno lugar onde se passa a história. Uma vila paupérrima, na qual grande parte de seus moradores sobrevivem da travessia de bicicleta  carregando produtos do Brasil, da cidade de Aceguá para Melo. São 60km de distância.

 Apesar de todas as dificuldades, todos os que fazem a travessia se ajudam mutuamente, emprestam-se dinheiro, preocupam-se uns com os outros. Um forte sentimento de amizade e cooperação. Cuidam-se uns aos outros e se protegem, mesmo quando estão sob a mira de uma polícia hostil. Grande oportunidade de se discutir na aula de filosofia os conceitos de amizade e de cuidado, presentes nas discussões clássicas da disciplina.

Há sempre um profundo sentimento de não estar sozinho, de ter com quem contar. Quando o protagonista, por exemplo, sente medo de não poder viajar em função de uma dor no joelho, seu parceiro de bicicleta prontamente se dispõe. Um outro subsídio para trabalhar em uma aula de Filosofia.

  

Outra discussão que permeia o filme e que pra mim é a principal é a capacidade humana de sonhar. De viver um mundo e imaginar-se em outro. O protagonista, mesmo vivenciando uma realidade muito pobre não deixou de acreditar em seu sonho, mesmo sacrificando seu casamento, compartilhando um clima tenso em casa em consequência da miséria vivenciada. Essa é a grande questão para qualquer disciplina. Transcende inclusive as aulas de filosofia. Despertar os nossos alunos para a capacidade de muito além dos livros sonhar com algo maior, é a nossa grande tarefa. Para KUNDERA (1982, p.35): “Sonhar é umas mais profundas necessidades do homem.”

REFERÊNCIAS 

KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser: Record, 1982.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Paz e Terra, São Paulo: 2002.

 * Professora de Filosofia da Rede Municipal de Formigueiro, RS e mestranda em Educação pelo PPGE/UFSM- fernandagssantos@yahoo.com.br

** Professor de História, Especialista em História do Brasil, Professor Substituto do Departamento de Metodologia do Ensino – MEN –CE-UFSM- decioluciano@yahoo.com.br

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