Algumas Provocações sobre a Inclusão dos Portadores de Necessidades Especiais

Zac Efron vive o jovem autista Stephen em Uma Viagem Inesperada

Fernanda Gabriela Soares dos Santos*[1]Décio Luciano Squarcieri de Oliveira**

publicado em 23/12/2008 como www.partes.com.br/educacao/inclusaoportadores.asp

 

Fernanda Gabriela Soares dos Santos Mestre em Educação pelo PPGE/UFSM, professora da FISMA( Faculdade Integrada de Santa Maria). fernandagssantos@yahoo.com.br

A persistência em escrevermos textos voltados a discussões pertinentes à formação docente, parte sempre de experiências práticas, frutos de nossas ações educativas em contato com alunos reais, espaços reais de ensino e claro, situações ‘reais’ e adversas nas quais nos docentes, estamos constantemente envolvidos.

O gosto por escrever vem de longe, bem como essa produção conjunta, onde esse labor de quatro mãos é nosso desejo maior de pôr-mos nossas ideias e diálogos materializados por nossos debates, nossas incertezas, nosso gosto por ensinar, aos olhos dos leitores curiosos, que como nós, nos inquietamos com temas pouco explorados.

É nas ações pedagógicas desta Filósofa que tanto admiro, do orgulho de compartilhar dos novos problemas levantados por esta educadora que me ponho a escrever algumas incursões sobre a inclusão dos portadores de necessidades especiais.

Não somos nenhuma autoridade no assunto, mas dividimos sim produções no campo de estudo. Recentemente fui agraciado pelo prefácio da Fernanda em um livro que editamos e publicamos sobre a trajetória educacional da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Santa Maria

Décio Luciano Squarcieri de Oliveira é Graduado em História – Licenciatura Plena pela Universidade Federal de Santa Maria. Especialista em História do Brasil/UFSM, Mestrando em Educação/UFSM, Professor Pesquisador I da Universidade Aberta do Brasil – UAB/UFSM, Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Imaginário Social – GEPEIS – UFSM. decioluciano@yahoo.com.br

(APAE-SM). Buscamos nele alguns entendimentos sobre os processos educacionais que esta entidade desenvolve durante os anos de 1995 e 2002, para estabelecer um clima social, não de aceitação, mas de respeito aos p.n.e. Nossas análises são iluminadas pela teoria das Representações Sociais, com fortes influências em Denise Jodelet (2005) e Sandra Jovchelovitch (In GUARESCHI, 2003).

Enquanto docentes, acreditamos na necessidade do olhar de FREIRE (1987) para nossas práticas pedagógicas, onde refletimos a cada aula trabalhada, a cada situação adversa ou mesmo corriqueira, sempre na tentativa de buscarmos em nossas conversas um outro olhar. Por natureza de nossas áreas de estudo, um da História o outro da Filosofia, o gosto por debater permeia nossa práxis. E quando nos referimos à debates, cabe especificar que partem sempre de ações oriundas de nossos sujeitos, nossos alunos, nós em contato com eles, e de coisas simples, mas que adquirem grandeza no campo da educação.

O gosto e apreciação por filmes também estão ganhando um corpo cada vez mais forte, indicados em sua maioria por uma educadora que se dedica a estudar questões raciais e suas imbricações com a educação. Do meu lado, me atenho mais propriamente aos processos educacionais.

Como professor, atuo na Universidade Federal de Santa Maria, no cargo de professor substituto do Centro de Educação, lecionando cadeiras de metodologia de História e temas voltados a Educação e formação docente, para cursos como Pedagogia, Educação Especial, História e Matemática. Destes, recentemente fui ‘surpreendido’ por ter em uma turma uma aluna com necessidades educativas especiais, uma aluna cega.  Entre outros fatores que permearam a disciplina, frequentemente buscava entendimentos com a Fernanda, relatando certas situações nas quais fui tentando desenvolver uma prática que acreditasse, tanto para mim enquanto educador, como para os alunos enquanto ‘professor’, realizar o trabalho com eficiência.

Algum tempo atrás, havia cursado uma pós-graduação a nível de especialização em História do Brasil, na qual havia me dedicado a estudar os processos educacionais de inclusão de portadores por meio das práticas e iniciativas de uma entidade filantrópica, já que me sentia extremamente ‘deficiente’ frente as novas experiências, que por ventura, agora posso relatar. Mesmo tendo completado uma pós-graduação, hoje não tão raro de cursarmos uma, porém não acessível à maioria dos letrados, que por sinal, advém de uma graduação, bem como eu, onde nem se quer de longe abordam ‘didáticas’ referentes aos alunos portadores de necessidades especiais, de fato a surpresa da aluna inclusa foi grande.

No meu caso específico, apesar de todos os encalços passados, pude contar com uma equipe que me auxiliava em meu fazer. Alunos que acompanham a aluna, bolsistas encarregados em lerem o material e ou gravarem em arquivos de áudio para auxiliar nos seus estudos, pessoas preocupadas e voltadas para as observações destas iniciativas como componentes de suas formações.

Hoje, quando assisti o filme “Uma Viagem Inesperada”, que se baseia em uma história real da luta de uma mãe, em não apenas desenvolver as capacidades cognoscitivas e cognitivas de seus dois filhos gêmeos, autistas, mas sim em integrá-los em escolas consideradas ‘normais’, para nossa linguagem acadêmica, regular, em nosso país assegurada pela LDB-EM 9394/96; penso quão difícil é para os pais e familiares a não aceitação social. Por outro lado, como é difícil para nós, educadores, olharmos para nossas ações e vermos que, como no meu caso específico, não estou qualificado para desenvolver um trabalho direcionado a estes alunos.

Vale destacar também, que os filmes sempre nos auxiliam e abrem um leque enorme de recursos utilizáveis em nossas formações, seja ele direcionado para os alunos assistirem, ou mesmo para nós, onde juntamente com os livros, as produções de artigos, também colhemos importantes conhecimentos. Destes, gostaria de destacar a incrível capacidade de ao olharmos uma arte, tentarmos aproximarmos ela de nossa realidade, para com ela aprender em contato com nossas ações práticas.

 Ainda, atenta-se para o espaço onde fui surpreendido. Uma instituição federal de ensino, uma aluna adulta, com suportes disponíveis para me auxiliar e conduzir a ela um estudo voltado as suas necessidades, e mesmo assim, esbarrei em uma série de fatores, como por exemplo, selecionei um filme legendado e em alemão, no qual não consegui uma cópia dublada, logo, para minha aluna inclusa, neste dia, não a incluí na turma na qual estava de corpo presente.

E então nos perguntamos, e se não fosse em uma universidade, mas sim na escola municipal onde a Fernanda atua? Como lidar com essa adversidade, sem uma equipe para dar-nos o suporte? E em qual momento buscamos essa qualificação? Uma formação continuada nós dá a garantia de um trabalho eficiente? E onde devemos buscá-las?

Como pretensioso historiador, tirei a sorte grande. A aproximação com a Filosofia veio com o bônus da educadora. Em muitos momentos fazer perguntas e não obter as respostas me inquietava, a ponto de mesmo calar algumas delas. Hoje, admiro elaborá-las, até porque não estou sozinho neste diálogo. E a busca pelas respostas, bem, estas já não são mais o alvo das minhas preocupações.

A partir do filme, começo a rever certos conceitos por mim pesquisado e discutidos com a Fernanda, a respeito da inclusão dos portadores em salas regulares. Como nosso interesse não é obter um consenso e sim a troca constante e dinâmica de ideias, acreditamos que este artigo possa se não clarear as dúvidas que habitam nosso eco-docente, irmos além, fazer com que outros (as) professores (as) escrevam suas experiências, para que parafraseando NÓVOA (1995), possamos dar ‘voz o professor’.

REFERÊNCIAS

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, RJ: Paz e Terra, 17ª Edição, 1987.

GUARESCHI, Pedrinho; JOVCHELOVITCH, Sandra (org.); prefácio Serge Moscovici. Textos em Representações Sociais. 8 ed. Petrópolis: Vozes, 2003.

JODELET, Denise. Loucuras e Representações Sociais. Trad. Lucy Magalhães. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005.

NÓVOA, António. (org.). Vidas de Professores.  Portugal: Porto Editora, 2ª ed., 1995.

OLIVEIRA, Décio Luciano Squarcieri. “COM QUEM VAI FICAR O MEU FILHO?”: História e Representação Social da APAE – Santa Maria (1995-2002). Prefácio: Fernanda Gabriela Soares Santos. Santa Maria: [s.n.], 2008.

* Professora de Filosofia da Rede Municipal de Formigueiro, RS e mestranda em Educação pelo PPGE/UFSM- fernandagssantos@yahoo.com.br

** Professor de História, Especialista em História do Brasil, Professor Substituto do Departamento de Metodologia do Ensino – MEN –CE-UFSM- decioluciano@yahoo.com.br

Post Author: partes