Silêncio, imagem e subversão: a poesia deslocada de Almodóvar

Rodrigo da Costa Araujo (UFF/FAFIMA)[1]

publicado em 02/02/2009

www.partes.com.br/cultura/cinema/almodovar.asp

Fale com ela (2002), de Pedro Almodóvar trata, entre muitas abordagens ou leituras que se podem fazer, da necessidade que o ser humano tem de se comunicar. A história da profunda amizade entre dois homens, cuja mulheres amadas estão em coma, é emocionante e particularmente sensível porque instaura, semiologicamente, a palavra como sustentáculo das relações humanas. Como em muitos dos seus filmes, exploram-se a sensibilidade, a poesia dos opostos, a aparência e a subversão.

O próprio título do filme, paratexto importantíssimo, faz uso do verbo “falar” no imperativo, focando contraditoriamente “o diálogo” com as mulheres, como se sugerisse também: “fale com as imagens”, “fale com a música”, “fale com as cores”, enfim, fale com o filme apesar de tanto silêncio e ausência. A disseminação da palavra, nesse filme, não é resultado apenas da contemplação de um vazio, mas, pelo contrário, o resultado apelativo do reconhecimento da “perda” de uma presença que é preciso reencontrar mesmo à custa da própria vida.

Rodrigo da Costa Araujo é professor de Literatura da FAFIMA – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé. Mestrando em Ciência da Arte pela UFF-Universidade Federal Fluminense.
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A palavra aparece-nos, simultaneamente, como em muitas narrativas desse cineasta, sinuosa e precisa, ativa e eficaz, azarada e feliz, simultaneamente incerta e segura. Ela é poesia a ser decifrada (ou cifrada?), código que se procura a si própria, chave para abrir caminhos, operar leituras acompanhadas de rupturas, desconstruções, apagamentos, deslocamentos. Ela funda o jogo para não ser dita, ainda que permaneça já dita, recusando-se até às perturbações de um dizer. Tudo isso implica forçosamente,- mas em perder a sugestão e a poesia,- uma leitura paciente, atenta, arriscada, muito incerta, porém, seguramente teimosa, leitura saborosa que outros podem prosseguir e prolongar.

Fundado nas intrigas que ele próprio tece, Benigno e sua insistente obstinação em conversas com Alicia, denota, durante quatro anos, não apenas o desdobramento da descoberta que este fez ao vê-la dançar numa academia vizinha a sua casa. Ele alimenta um enlouquecido amor com conversas constantes, um monólogo contínuo, no qual ele procura alcançá-la no seu mundo de silêncio. Entende que se parar de falar não mais terá nenhuma relação com aquele corpo, que voltaria, assim, a ser apenas um corpo sobre uma cama de hospital.

O signo auditivo oculto é uma espécie de aviso poético contra o signo auditivo óbvio, a informação do título é um paradoxo pela imagem reticente que lhe corresponde. O silêncio denunciador do corpo foi subtraído a um código para ser assumido por outros códigos, não voltando ao primeiro enquanto os outros códigos não se tornarem cúmplices dos acontecimentos.

Novamente, nessas cenas, a palavra representa um papel vital, signo elementar, tanto para ele como para ela. Nos seus diálogos com Alicia, Benigno (nome que não é apenas uma coincidência) reconstrói o mundo dela e, de certa forma, o dele também. Sua vida, tecida assim, poder ser entendida como uma espécie de convívio social, no qual ele se isolou, quase sem contato com a sociedade.

Sua relação mais forte era a mãe, que depois de morta o deixa a procura de outro contraponto com quem estabelece seu diálogo de mão única. Assim como a mãe, Alicia o permite ser o que é, sem questioná-lo a exercer alguma pressão para que viva uma vida independente. Psicanaliticamente, Benigno permanece em simbiose com a mãe, mesmo depois da morte. Transfere para Alicia seus cuidados, sua atenção, seu afeto, e consolida com ela – numa cena sutil e significativa porque sugerida num filme mudo, sem palavras, silencioso como o mundo de Alicia – o desejo sexual reprimido e que, não por acaso, é punido posteriormente em função de suas consequências.

A palavra, novamente, é o instrumento que articula ou oculta o sentido. O resultado desse jogo é a criação de uma topologia hermenêutica em que se estabelecem os pares: expressão/interpretação; dizer/não-dizer. A expressão (o dizer), nesse caso, se encontra sempre em situação de insuficiência, sendo necessário buscar o sentido na profundidade da alma do personagem.

O som surge nesse contexto embaralhado, como um dos elementos que se colocam em substituição “desse dizer” (de certa presença), insinua-se na imagem como elemento que se coloca em substituição dessa ausência, deixa-se perceber como uma dimensão virtual, poética, sugestiva. Os traços acústicos e bem escolhidos para as tramas almodovarianas fazem existir o avesso do visível, como uma constelação de múltiplos aspectos que a sua representação veicula. Marca fundamental da poética de Almodóvar, os traços acústicos percebidos na diegese, como a reprodução de outros espaços previamente registrados, colocam em abismo a temática da palavra como eco, acentuando, sonoramente, a dimensão do discurso.

Combinado com o código narrativo, a música constitui uma espécie de matriz na qual estão em germe os elementos argumentísticos futuros. Ela redobra os códigos já desenvolvidos, instiga a tensão; de uma forma oblíqua, informa da interação dos personagens. Não ficam de fora o requinte cromático e o gosto refinado da encenação como principais requisitos da poética almodovariana, sempre aspirando à patente de artisticidade.

O silêncio entre os personagens, é signo plural, é texto escrevível como quis o semiólogo Roland Barthes, algo que em sua mágica de transformação, move-se trapezisticamente, conforme as imagens fortes do próprio filme, que apontam, no que tange à ficção, para o corpo, para a coreografia, para a visão, para o risco, para o deslocamento.

Trocando a tourada pela dança de Alicia, o cineasta espanhol explora o labirinto cênico, a expressão visível do invisível, emaranhado de sentimentos doentios em que as personagens se encontram enredadas. Benigno, querendo ou não, guarda em si um pouco da característica de alguns anti-heróis do cinema contemporâneo. Sua inocência e pureza sofrem a condenação dos intolerantes, dos preconceituosos, numa Europa que se diz avançada e bem resolvida.

No filme, o procedimento da ocultação da palavra não se limita a incidir apenas sobre o silêncio das mulheres e a composição do enquadramento que exploram o corpo ou outras linguagens. É igualmente aplicado à cenografia e à construção da narrativa como um todo visual. As cenografias, naturais ou arquitetônicas que remetem ao mundo cultural da Espanha, furtam frequentemente a palavra ou as personagens do nosso olhar/ouvido, “discurso” que nelas se movimentam sem serem ouvidos ou apenas parcialmente reconhecíveis, e oferecem-lhes a sua proteção e reserva.

Fale com ela instiga a inquietação dos signos, e o constante trabalho de cifrar e decifrar, ao mesmo tempo, um modo de existir transgressor, disseminante e incontrolável. O mundo dramático, cromático e amoroso de Almodóvar é um mundo em que tudo é signo: as personagens, atualizando os fatos no discurso (fala, gestos e silêncio em ação), participam dessa fartura (ou fratura) significante que faz com que o presente se encontre em direção permanente a um futuro. Por esse movimento, o mundo expõe-se mimeticamente, ou seja, em atividade e em criação transformantes.

O prazer, nos diversos filmes de Almodóvar, pode assentar na surpresa, nunca na ignorância; se ele não tem propriamente uma ciência, tem, pelo menos, uma base de conhecimento que é o da relação sujeito-objeto, desmultiplicável enquanto desmultiplicáveis forem os seus objetos – a relação, essa, permanece fundamental como necessidade de significação (onde, mais uma vez, a relação existe como necessidade, e isto num desdobramento constante e vertiginoso que é predicado significativo de todo este tipo de leitura).

Nesse filme, todos estes dramas podem ser abordados pela necessidade imperiosa e desconcertante que temos de nos comunicar com alguém, sobretudo, com quem se ama. Fale com ela é um drama sobre a capacidade do amor para produzir monólogos que, de tão plenos semiologicamente, equivalem aos diálogos mais estreitos.

ARAUJO, Rodrigo da C. Intertextos, mulher e memória em Volver, de Almodóvar. In: Revista Partes. Cultura. São Paulo. Publicado em 03/11/2006. Acesso em 27/01/2009.

CARMONA, Ramón. Como se comenta un texto fílmico. Madrid. Cátedra (Signos e Imagen) 1991.

FALE COM ELA (Título original: Hable com ella). Produtora “El Deseo”, direção Pedro Almodóvar, Espanha, 2002, (filme).

HOLGUÍN, Antonio. Pedro Almodóvar. Madrid. Edições Cátedra. 1999.

SEIXO, Maria Alzira. (Org.). Análise Semiológica do texto Fílmico. Lisboa. Arcádia. 1979.

 

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