Um veneno amargo

Cena de “Bright Star”, filme que conta a vida do poeta inglês John Keats (1795 – 1821) – crédito divulgação

UM VENENO AMARGO

Margarete Hülsendeger

publicado originalmente em 02/02/2009 como <www.partes.com.br/cronicas/mhulsendeger/venenoamargo.asp>

 

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS

Um novo ano está começando e com ele todas aquelas propostas – muitas mirabolantes – de mudança. A frase mais comum nessa época é: “tudo agora vai ser diferente”. Que melhor hora para tratarmos daquele que é, a meu ver, um dos sentimentos mais tristes e desoladores para uma pessoa experimentar? Refiro-me à mágoa.

Essa é uma daquelas emoções que tem o dom de nos fazer sentir menores e piores do que realmente somos. No decorrer de uma única vida, são tantas que acabam se empilhando umas sobre as outras, até que nada mais reste a não ser uma tristeza imensa e, muitas vezes, infundada, de termos fracassado de alguma maneira.

Paradoxalmente, no entanto, as mágoas não podem ser expostas. Ao contrário. Elas devem ficar escondidas, disfarçadas. Que horror seria se os outros soubessem que nos magoaram. Impomo-nos a obrigação de parecermos sempre perfeitos. E quando, obviamente, não conseguimos alcançar esse ideal, o resultado se torna previsível: abre-se em nosso espírito uma brecha para que novas mágoas nos atinjam de forma, muitas vezes, irreparável.

Entretanto, para a questão da mágoa, assim como para outros problemas da vida, não encontraremos receitas ou soluções prontas. Afinal, é difícil prever como os nossos sentimentos serão atingidos quando virarmos a próxima esquina. Não se deixar levar pelas mágoas acumuladas é, sem dúvida nenhuma, uma tarefa árdua. Ela nos exige um exercício constante e ininterrupto de elevação da consciência e, consequentemente, da nossa autoestima.

É possível, contudo, observá-las, mas de longe, bem de longe. A distância torna tudo pequeno, sem importância, e coloca os fatos da vida dentro de uma perspectiva mais realista. Nada como o distanciamento para conseguirmos ver o mundo de uma maneira mais clara e – por que não? – menos sentimental.

Segundo o poeta inglês John Keats (1795-1821) o prazer costuma nos visitar muitas vezes, mas a mágoa agarra-se a nós com crueldade. A verdade é que só seremos magoados se dermos às mágoas uma força que elas não têm. Portanto, se insistirmos em torná-las parte da nossa existência, acabaremos envenenando-nos e, quando nos dermos conta, elas nos terão dominado. O conhecimento de nossas próprias fragilidades e imperfeições é, quem sabe, um primeiro passo para impedirmos que as mágoas sigam a sua marcha, acumulando-se em nosso espírito. Porém, como já afirmei anteriormente, essa não é uma tarefa fácil, mas acredito que o esforço valha a pena. Pense, então, sobre isso. E quando uma nova mágoa quiser se instalar na sua mente e no seu coração, se pergunte: é isso o que eu desejo para a minha vida?

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