Abrazos gratis

ABRAZOS GRATIS

Margarete Hülsendeger

Publicado originamente em publicado em publicado em 02/04/2009 como <www.partes.com.br/cronicas/mhulsendeger/abrazos.asp>

 

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS

Viajar é, a meu ver, uma experiência, não só prazerosa, mas muito gratificante. Viajando, não só entramos em contato com costumes e visões de mundo diferentes, mas também temos a possibilidade de abrir as mentes para as novidades que, com certeza, iremos encontrar. Portanto, não importa qual o roteiro escolhido, ao viajarmos sempre estaremos aprendendo algo novo.

No último Natal estive em Buenos Aires. Essa cidade já é minha velha conhecida; contudo, sempre que a visito fico surpresa e encantada com o conjunto de coisas interessantes e curiosas que ela pode nos proporcionar. As casas de tango, com seus shows que vão do moderno ao clássico; o Café Tortoni com a aquela aura da Belle Époque do final do século XIX; ou ainda, El Caminito, com suas casas pitorescas, memória de uma época de boemia e de antigas tradições.

Hoje, no entanto, estou mais interessada em escrever sobre um outro importante ponto turístico, dessa que apesar, de ser uma cidade latino-americana, apresenta ares europeus. Refiro-me à feira de San Telmo. Alguns – poucos, com certeza – que já estiveram por lá poderão dizer: “Não sei qual é o interesse. Trata-se apenas de um brique gigante como tantos outros que existem por aí”. Pode ser, não conheço todas as feiras ao ar livre do mundo. Entretanto, seria reduzir muito a importância desse que é um dos pontos mais movimentados de Buenos Aires nos finais de semana.

No domingo, acorrem para lá pessoas dos mais variados tipos e nacionalidades. San Telmo, nesses dias, transforma-se numa verdadeira Babel, onde todos os sotaques e idiomas podem ser ouvidos. Ali, a diversidade é festejada sem nenhum pudor ou constrangimento, com as tradicionais barracas de antiguidades dividindo espaço com artesões que colocam seus trabalhos em toalhas improvisadas distribuídas pelo chão. Sem contar, é claro, os artistas de rua. Suas performances encantam e distraem a todos aqueles que por ali passeiam.

Enfim, dá para perceber que sou uma admiradora dessa que é uma das feiras populares mais conhecidas e concorridas da América Latina. Entretanto, em minha última visita a San Telmo, o que realmente me chamou a atenção não foram as antiguidades, os artesanatos ou as apresentações dos artistas locais. Na verdade, senti-me atraída por um pequeno grupo de pessoas que, ao contrário da maioria, não queria vender nada. Elas simplesmente andavam pela rua portando cartazes de papelão onde se via escrito os dizeres “ABRAZOS GRATIS”.

Lembro que, ao enxergar o grupo, fiquei parada na calçada tentando entender o significado daquilo. Primeiro, pensei que se tratasse de alguma brincadeira, mas depois fui informada que era sério. “ABRAZOS GRATIS, que novidade era aquela?”, perguntei.

Rapidamente, meu acompanhante, morador de Buenos Aires, explicou que se tratava de um movimento cujo objetivo era compartilhar abraços entre as pessoas comuns. A intenção era fazer com que as pessoas abraçadas se sentissem melhor, pois, segundo os integrantes, o ato de abraçar diminui a pressão sanguínea, o batimento cardíaco e o nível de hormônios ligados ao estresse. Mais tarde, pesquisando na internet, fiquei sabendo que esse movimento ou campanha surgiu em 1986, ideia de um pastor americano chamado Kevin Zaborney, sendo também conhecido pelo nome inglês Free Hugs. Contudo, apenas em 2001, a partir da iniciativa de um australiano, apelidado de Juan Mann (apelido criado para manter a sua privacidade), foi que a campanha teve um grande impulso. Existem na internet, atualmente, inúmeros sites e vídeos mostrando a atuação, em diferentes partes do mundo, das pessoas – chamadas “abraçadores” – envolvidas com esse movimento.

Entretanto, deixando de lado toda a questão da campanha em si, posso dizer que, naquele domingo em San Telmo, a minha atenção foi chamada para dois aspectos interessantes do dito movimento. Em primeiro lugar, fiquei admirada com a disposição dos “abraçadores”. Aparentemente, sem nenhuma vergonha e com muita satisfação, eles se disponibilizam a abraçar qualquer um que assim o deseje. E, em segundo lugar, não pude deixar de perceber, o constrangimento de muitas das pessoas que por ali passavam. A maioria lia o que estava escrito no cartaz, ria um pouco, manifestando um certo nervosismo, e depois seguia em frente sem se deixar abraçar.

Tentar entender esses dois movimentos – disposição e constrangimento – daria um tratado sociológico. Afinal estaríamos analisando como as pessoas reagem a uma campanha de características diferentes daquelas com as quais estamos acostumados. No entanto, independentemente de análises mais profundas, é possível fazer uma pergunta: ao que, exatamente, estamos acostumados?

Parece-me que a resposta seria: estamos acostumados ao individualismo, a nos virarmos cada um por si da melhor maneira possível. Portanto, ver pessoas – utilizando parte ou todo o seu dia de descanso – abraçando outras totalmente desconhecidas, não deixa de ser algo surpreendente. É o tipo de situação que foge dos nossos padrões “normais” de conduta. Por essa razão, preciso reconhecer: também senti um certo constrangimento. Considerei estranho deixar-me abraçar por pessoas que nunca havia visto na vida.

No entanto, apesar de toda a estranheza e constrangimento, não é difícil entender as motivações dos “abraçadores”. Para isso precisaríamos reformular alguns dos ditos “padrões normais de conduta”. Um primeiro passo, quem sabe, fosse deixarmos de nos considerar uma ilha perdida e isolada no oceano. Na verdade, deveríamos fazer o esforço de nos vermos mais como um arquipélago, pois, nesse caso, as ilhas não estariam realmente isoladas, mas seriam, na medida do possível, interdependentes. Parece meio clichê, eu sei, mas algo me diz que essa, talvez, seja uma das motivações das pessoas que efetivamente resolvem participar dessa campanha.

Por esse motivo é que a minha admiração vai também para todos aqueles indivíduos que, saindo de suas ilhas interiores, reconheceram suas carências e, vencendo o constrangimento, foram até aqueles completos estranhos e se deixaram abraçar. Afinal, segundo o maior incentivador da campanha Free Hugs, o australiano Juan Mann, “Todo mundo tem problemas e certamente o meu não pode ser comparado com o dos outros. Mas ver alguém que antes estava carrancudo, sorrir pelo menos por um momento, sempre vale a pena”.

Eu, infelizmente, naquele dia, em San Telmo, fiquei apenas na vontade. Não tive ânimo para abraçar ou ser abraçada. Mas, não desanimo. Quem sabe, na minha próxima viajem a Buenos Aires ou a qualquer outro lugar, não crie coragem e me deixe abraçar, ou, melhor ainda, pegue um papelão, uma caneta e escreva “ABRAÇOS GRÁTIS” e saia por aí abraçando a todos sem constrangimento ou vergonha. Essa será uma experiência que vai valer a pena tentar.

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