O “Mal de Jacobina”: um estudo sobre as fraquezas e incoerências do homem moderno na perspectiva machadiana

Carlos Eduardo Millen Grosso*

publicado em 05/04/2009

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RESUMO 

Sem dúvida, foi Machado de Assis quem elevou a prosa brasileira ao nível das melhores escritas no mundo em sua época. O texto machadiano, em verdade, antecipa procedimentos modernistas e descobertas psicanalíticas, evidenciando as mazelas humanas de forma ácida e irônica. Este trabalho, portanto, pretende estudar as fraquezas e incoerências do homem moderno à luz das ideias machadianas.

 

O espelho: um esboço

Ninguém melhor que o “Bruxo do Cosme Velho” para discorrer sobre as fraquezas e incoerências dos homens. O conto O espelho esboço de uma nova teoria da alma humana (ASSIS, 1998, p.26-43), que pertence originalmente ao livro Papéis avulsos, poderia ser uma releitura machadiana do Mito do Narciso. É a tradução das questões do homem moderno: narcisismo, busca por uma carreira pessoal bem sucedida. Jacobina, personagem central do conto demonstra saber manipular pessoas através da sua moeda de troca: poder social. Para Marcel Mauss, nessa relação de troca de Jacobina se daria a dádiva, pois para ele basta haver uma prestação unilateral, um favorecimento e uma aceitação para gerar valor; isto é, uma ética impõe-se mesmo aqueles que não retribuem ainda que isso ocorra em cada caso específico (MAUSS, 2003, p.185-193).

Eis a história: – numa noite qualquer, um grupo de cavalheiros debatia sem maiores emoções questões de metafísica. Quando no meio da noite, o conviva de nome Jacobina – que até então não se manifestara por acreditar que a “discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial” (ASSIS, 1998, p.27) – decidiu falar sobre a natureza da alma humana. Antes mesmo que alguém viesse a se manifestar, tratou logo em avisar que não discutiria com os demais oponentes; se quisessem ouvir que fossem calados, pois contaria um episódio de sua vida sobre a matéria em questão.

Numa polidez exemplar começou a narrar: “– tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da guarda nacional”(ASSIS, 1998, p.30). Os festejos foram vários: sua mãe era só alegria e orgulho, não se continha e vivia a chamá-lo de “seu alferes”. Primos e tios igualmente compartilhavam a atmosfera de felicidade que pairava sobre a casa pobre.

Então, uma das tias, D. Marcolina, que morava distante da vila, num sítio escuso e solitário, desejou vê-lo e pediu que fosse ao seu encontro acompanhado da farda de alferes. Foi recebido com muita alegria e solicitude pela sua tia, que fazia de tudo para agradá-lo. Não o chamava mais de Joãozinho, como antes, agora era “senhor alferes” para cá “senhor alferes” para lá. Sua tia não poupava agrados, chegou ao ponto de mandar pôr um grande espelho no quarto do ilustre hóspede, que destoava magnificamente do resto da casa.

Todas estas atenções e carinhos deixaram marcas profundas em sua índole, de modo que o título de alferes “eliminou” durante alguns dias o próprio indivíduo. Nas palavras de Machado: “Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem”(ASSIS, 1998, p.32-3). No fim de três semanas, Jacobina era outra, exclusivamente alferes.

Certo dia, D. Marcolina recebeu uma grave notícia; uma das suas filhas estava muito doente. Como morava a léguas do seu sítio, decidiu que fosse acompanhada pelo seu cunhado, deixando o sítio aos cuidados de Jacobina. Num espaço de uma noite, o alferes se vira completamente só, os escravos haviam aproveitado seu descuido e trataram de fugir. Sem mais ninguém para enchê-lo de redobrados afagos, Jacobina passou a sentir “uma sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a ação nervosa”(ASSIS, 1998, p.35).

Os dias pareciam cada vez mais longos e tediosos. Era, nas palavras de Machado, “um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico”(ASSIS, 1998, p.36). O alívio vinha somente com o sono, que lhe eliminava a necessidade de uma alma exterior. Nos sonhos, Jacobina era novamente o alferes, com sua garbosa farda a receber elogios e afagos de parentes e amigos próximos. Mas quando acordava, as aflições recobravam seus efeitos.

Marcel Mauss produziu um artigo chamado “Uma categoria do espírito humano: a noção de pessoa, a noção de ‘eu’”, onde expõe a história do processo de progressiva individualização por que passou nossa civilização (MAUSS, 2003, p.369-397). Nas sociedades ditas “primitivas”, o máximo de individualização era representado pela atribuição dada alguns de seus membros, de um papel ritual herdado por nascimento. A ideia de “pessoa” surgiu entre os gregos, inicialmente com o sentido associado às máscaras utilizadas nas encenações rituais e teatrais.

Assim, “pessoa” era a interpretação de um personagem, cujos atos não eram de autoria de seu intérprete. Per-sonare significa “a máscara pela (per) qual ressoa a voz (do ator)”(MAUSS, 2003, p.385). Somente na Roma Antiga, com o desenvolvimento de um sistema de trocas internas e externas entre grupos e pessoas, a idéia de persona passou, das máscaras que os atores dos dramas rituais usavam, para designar os próprios atores. Surgia a noção jurídica de “pessoa” que, entretanto, não se aplicava aos escravos, estrangeiros e mulheres. Seguindo neste percurso, por influência do cristianismo em Roma, a responsabilidade moral passou a ser um atributo da pessoa. Mas, até a modernidade (a teoria cartesiana é emblemática desta transformação), a determinação do que era cada “pessoa” dependia de fatores externos (sociais).

Curiosamente, nos dias em que ficara só Jacobina não olhou uma só vez para o espelho; quem sabe fosse receio inconsciente de achar-se dividido. No fim de oito dias, o receio tornou-se verdade: ao passar em frente ao espelho vira sua imagem difusa, fragmentada. O medo de enlouquecer era cada vez mais forte, caso ficasse mais tempo sozinho.

Por uma inspiração inexplicável, pensou em vestir a farda de alferes; quando, para seu espanto, o vidro reproduziu novamente a figura integral, nenhuma linha a menos. Sua imagem estava novamente completa. Então, cada dia, há certa hora, vestia-se de alferes, e parecia recobrar a alma externa, ausente desde o momento que ficara só. Marcel Mauss explica que todo ato educativo é técnica corporal, e que as técnicas corporais são sistemas de montagens simbólicas (MAUSS, 2003, p.401-422). Nas palavras de Geertz: “o homem é um animal simbolizante” (GEERTZ, 1989). Acessórios, roupas são símbolos de explicitação do sucesso pessoal dos indivíduos. Por esta aparência se luta, pois esta passou a ser seu passaporte social e/ou a carteira de identidade das pessoas. E porque não dizer o caminho de sua felicidade.

A dádiva sempre se cumpre

O descontrole das posições entre a face individual, problemática e a máscara, farda vitoriosa, onde o último se torna senhor do primeiro, corrobora a queixa de que a máscara da vida social é o deus da nossa época. Por isso que a ele são atribuídos padrões de segurança, harmonia e realização individual, onde a posse é sinônimo de status, e numa alusão à singularidade do indivíduo estes têm necessidade de refletir-se no outro.

É na busca desse homem por um sentido, na sua fuga da solidão, onde ele vê no outro um paradigma de socialização, que o dinheiro, a posição tem seu vulto social endêmico. A posição social sempre estabeleceu fronteiras entre os indivíduos, sempre equiparou uns em detrimento de outros. A moral, a ética, a responsabilidade social, o bem-comum, adquiriu aspectos relativos ante a necessidade de autoafirmação. É verdadeiramente a cultura do individualismo.

E Jacobina abusa deste novo “valor”, despertando a ambição nas pessoas, com as quais em alguns momentos se identifica, pois se vê projetada nelas. Jacobina torna-se um exemplo para aqueles que se acham inferiores, demonstrando isso todo o tempo. Jacobina representa bem a noção de pessoa de Mauss, pois sua persona é construída socialmente através de toda uma pedagogia técnica e simbólica que institui o sentido do corpo e de sua individualidade para o sujeito, é uma das formas fundamentais do pensamento e da ação dos indivíduos, sendo, portanto, uma representação coletiva, uma categoria do entendimento; e, como toda categoria do entendimento, ela não é inata.

Segundo Louis Dumont esse individualismo expresso por Jacobina está intrinsecamente relacionado com duas definições básicas: a do indivíduo-no-mundo e a do indivíduo-fora-do-mundo. Sua defesa do individualismo se fundamenta na concepção de um homem que superou o holismo e obteve um caráter empírico “que fala, pensa e crê, ou seja, a amostra individual da espécie humana, tal como a encontramos em todas as sociedades” (DUMONT, 1985, p.37). Seja nas entranhas do cristianismo, na ambição do homem renascentista ou na autoafirmação do homem moderno, o individualismo traz em si uma posição particular diante do sistema em que o mesmo está inserido.

Dumont faz uma volta ao passado e busca nos primórdios cristãos o que viria a ser o individualismo moderno. Entretanto, Dumont explica: “(…) algo do individualismo moderno está presente nos primeiros cristãos e no mundo que os cerca, mas não se trata do individualismo que nos é familiar” (DUMONT, 1985, p.36).

O discurso do consumo (dentro do capitalismo) gira em torno da autorresponsabilidade, no último momento. Serei indivíduo autorresponsável se usar da minha liberdade para melhor gerenciar minha vida, com o fim primeiro de acumular o tanto de dinheiro possível quanto possa garantir a minha singularidade. São comuns na cultura moderna os homens se distinguirem pela quantidade de dinheiro que os mesmos possuem. Se o que caracteriza o individualismo é a liberdade, a distinção e a autorresponsabilidade, ou seja, a satisfação dos desejos pessoais, o individualismo na cultura moderna não passa de um conceito. Ou, no máximo, de um conceito para poucos. Para aqueles que buscam ser livres de todos e de tudo, tanto interior quanto exteriormente, poderiam ser vistos como os “renunciantes” do sistema; os “indivíduos-no-mundo” não sociais, mas naturais; os “seres morais”, portadores dos valores supremos da natureza.

Porém, no mundo moderno, estes individualistas são tidos como loucos. Vê-se que assim como Jacobina às vezes essa liberdade de ascensão social segue juntamente com a perda de algo. Ele era extremamente bem sucedido no trabalho, porém sua alma interna estava partida. Ora, o que se pode extrair deste magnífico conto é o descompasso entre a alma externa e a alma interna. Ele adquiriu o sucesso social, porém sua vida afetiva estava em frangalho. A dádiva sempre se cumpre, percebe-se isso na experiência radical vivida em O espelho, cujo personagem central só permite a fixação segura da máscara, da farda vitoriosa, do papel que absorveu perfeitamente o homem; isto é, o tipo, em que o homem é um ator social. A outra face, a que se partira, permanece uma interrogação: a face individual, problemática, que coexiste e se opõe à máscara da vida social.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ASSIS, Machado de. Contos. Porto Alegre: L&PM Pocket, 1998.

DUMONT, Louis. O individualismo: uma perspectiva antropológica da          ideologia moderna. Rio de Janeiro: Rocco, 1985.

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.

MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia. São Paulo: COSAC NAIFY, 2003.

 

* Graduado e Mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul/PUCRS. Doutorando em História pela Universidade Federal de Santa Catarina/UFSC. E-mail: machadosartre@yahoo.com.br

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