Transtorno de Déficit de Atenção: Hiperatividade

José Edimar de Souza

publicado em 11/05/2009 como www.partes.com.br/educacao/hiperatividade.asp


José Edimar de Souza é graduado em História, Especialista em Gestão da Educação, Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional. Acadêmico do curso de Geografia REGESD/UCS. Assessor Pedagógico da SMED/NH- Secretaria Municipal de Educação e Desporto de Novo Hamburgo.

A Escola enquanto instituição é o lugar privilegiado para se pensar a cultura e identidade. Sem reduzir sua responsabilidade social, cultural e histórica na percepção da construção cognitiva processual e progressiva do aluno respeitando as individualidades e zelando pelo bem comum.

         Neste exercício reflexivo amplio esta compreensão para construir aprendizagem sobre a estrutura do transtorno de déficit de atenção. O principal questionamento é qual a validade do ensino? Acredito que o conhecimento apenas tenha significado quando se consegue fazer com que os alunos se reconheçam como agentes produtores de conhecimentos. Para Tiba (1998): “Ensinar é transmitir o que se sabe a quem quer saber, portanto é dividir a sabedoria”. Essa divisão, porém, não segue as leis matemáticas. Em vez de o conhecimento diminuir se ganha algo mais. Ensinar faz com que o mestre atualize seu saber, abra a própria cabeça para perguntas. “Os questionamentos revolvem os neurônios em busca de novas respostas, reativando o cérebro, revivendo a alma. Ensinar é um gesto de amor!” (TIBA, 1998, p. 61).

Para SILVA (2005) o sistema nervoso tem cerca de 2% da massa corpórea nos humanos, porém controla a totalidade das funções orgânicas e psíquicas do indivíduo. O sistema nervoso executa numerosas atividades que são fundamentais para a conservação do indivíduo e da espécie. E está profundamente ligada a aquisição e construção da aprendizagem.

A Síndrome do Déficit de Atenção – hiperatividade (SDA-H) é definido como um distúrbio neurocomportamental mais encontrado em crianças, caracterizado clinicamente por dificuldade em manter a atenção e controlar os impulsos, bem como a atividade motora. Basicamente há três sintomas: déficit de atenção, impulsividade e hiperatividade. Esta síndrome pode ser encontrada em crianças normais e a sua persistência ou repetição, coocorrência e intensidade que determinam à identificação da síndrome.

Esta síndrome é conhecida desde o século XX e particularmente na década de 1960 passou a ser discutida mundialmente. Desde 1994, a Associação Psiquiátrica Americana elaborou um manual Diagnóstico e Estatístico para homogeneizar o diagnóstico passando a ser classificada como síndrome no mesmo subgrupo dos distúrbios do comportamento e da conduta distribuído em três tipos: Combinado; predominantemente do tipo déficit de atenção e predominantemente do tipo hiperativo-impulsivo.

Neste manual para o paciente diagnosticar a patologia é necessário que apresente seis das nove características que persistam por pelo menos um período de seis meses e tenha aparecido antes dos sete anos contemplando os setores diários de atividades (casa, escola, trabalho, esporte/diversão). Esta síndrome altera a vida da criança quanto a relacionamento social, desenvolvimento emocional e autoestima.

A síndrome de déficit de atenção não consiste numa heterogeneidade e a origem de sua patologia ainda não é precisa. O quadro clínico considera necessário um quadro de critérios para aferir ao paciente a constituição do quadro clínico. Neste quadro clínico os sintomas primários considerados são: a incapacidade de manter atenção na realização de uma tarefa, o que na atual estrutura da nossa escola torna-se uma tortura para as crianças e acabam criando uma situação constrangedora e/ou inconveniente para o paciente.  Outra característica é a impulsividade que é a incapacidade de medir as próprias ações e a hiperatividade que é o sintoma mais evidente no diagnóstico.

         Além da hiperatividade um desdobramento dela é a hiperatividade motora que compromete igualmente o relacionamento social e educativo dos alunos aumentando o fracasso na aprendizagem e diminuindo a autoestima.  O quadro completa-se com a ansiedade que atinge grande parte dos pacientes em idade escolar púbere e causam uma estatística elevada de reprovações nos 5º anos.

         Além do sintoma primário o quadro pode ser mais complexo. Há possibilidade de ocorrência de distúrbios associados. Os principais são de aprendizagem, conduta, afetivos, ansiedade e humor. Estas comorbidades podem surgir em decorrência do diagnostico tardio e/ou por uma característica genética. Os distúrbios mais comuns são: dislexia, discalculia e disgrafia, associados a linguagem e construção da aprendizagem.  Associados ao comportamento e conduta se podem citar: a agressividade, atos destrutivos, falsidade, desonestidade, tristeza, frustração, depressão e humor.

         Cerca de 30% dos familiares dos casos diagnosticados tem alguma relação genética hereditária e em 5% aproximadamente dos casos ocorre alteração no lobo frontal direito, onde o fluxo sanguíneo no núcleo caudado direito está diminuindo. Esta região do cérebro afetada compromete amplamente a distribuição das conexões do sistema nervoso, neste sentido a concentração e atenção.

         A entrevista diagnóstica é imprescindível e relevam aspectos como fatores ambientais, sociais, econômicos e culturais e ocultos. A história familiar e escolar é investigada para contribuir com detalhes na elaboração do tratamento mais adequado. Para um exame mais completo a investigação passa por exames laboratoriais, neurológico tradicional e EEG. Testes de coordenação e persistência motora também podem constituir o diagnóstico, pois permitem uma avaliação comparativa da evolução do quadro.

         O tratamento consiste na utilização medicamentosa de basicamente três drogas: estimulantes, antidepressivos tricíclicos e alfa-2 agonistas. No primeiro grupo o mais utilizado é o metifenidato (Ritalina) utilizado geralmente duas vezes por dia evitando o horário vespertino, pois inibi o desejo alimentar. No segundo grupo encontra-se os antidepressivos triciclicos como a Imipramina (Tofranil), e outros  com poucos efeitos colaterais  como a fluoxetina (Prozac) e a Bupropiona. O terceiro grupo agonistas Alfa-2 Noradrenergicos como a Clonidina (Atensina), Guanfacina (Catapres e Tenex). É preciso considerar os efeitos colaterais da medicação, como em caso de patologias mais graves e atentar para os efeitos colaterais bem como verificar a necessidade da utilização da medicação.

         A medicação deve ser interrompida durante um período para observação do comportamento por parte do professor, bem como evitar a medicação nos finais de semana e férias. O tratamento geralmente é administrado por dois ou três anos, mas a manutenção deve ser periódica e o tratamento interrompido a qualquer momento.

         A psicoterapia é um tratamento que visa aumentar a autoestima e pode ser atendida em pequenos grupos, dependendo do quadro, bem como extensivo aos pais e familiares pretendendo reforçar o comportamento adequado e inibir os inadequados.

         O planejamento escolar se estende ao ambientes domésticos com poucos estímulos e com uma supervisão e acompanhamento de um adulto, observando um tempo com atividades lúdicas e que não extrapole o limite, contribuindo para um vínculo de responsabilidade. Na escola o ideal é um atendimento em classes reduzidas e com poucos estímulos. Já o tratamento multidisciplinar deve ser efetuado na dependência da existência de comorbidades na área da aprendizagem e neste caso o prognóstico será mais complexo.

         As teorias de aprendizagem estão em constante transformação e às vezes, percebemos que a renovação acontece apenas como readaptação dos meios para se chegar aos resultados esperados. Estes que muitas vezes, não são os resultados da essência, mas sim os da superfície que espera os “deveres” cumpridos. Para fazer nosso aluno transcender deste patamar e alcançar suas essências é preciso eliminar o vício paradoxal do ensino e estar preparado para novos desafios.

         Aprender é sinônimo de igualdade. Temos a mesma carne, respiramos o mesmo ar. Circunstancialmente, alguém sabe mais sobre determinado assunto, mas, assim que ensina e o outro aprende o saber já se torna um bem comum.

Referência Bibliográfica:

KAPLAN, Harold I.; SADOCK, Benjamim J.; GREEBB, Jack A. Compêncio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. Porto Alegre, RS: Artes Médicas, 2007;

NITRINI, Ricardo; BACHESCHI, Luiz Alberto. A Neurologia que todo médico deve saber. São Paulo, SP: Atheneu, 2003;

TIBA, Içami. Ensinar aprendendo: como superar os desafios do relacionamento professor-aluno em tempos de globalização. São Paulo: Editora Gente, 1998;

WOLFFENBÜTTEL, Patrícia Pinto (Org.) Psicopedagogia: teoria e prática em discussão. Novo Hamburgo, RS: Feevale, 2005.

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* SOUZA, José Edimar de. Professor, Graduado em História, Especialista em Gestão da Educação, Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional. Acadêmico do curso de Geografia REGESD/UCS. Assessor Pedagógico da SMED/NH- Secretaria Municipal de Educação e Desporto de Novo Hamburgo. E-mail: profedimar@gmail.com

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