Anjos e demônios

ANJOS E DEMÔNIOS

Margarete Hülsendeger

Publicado originalmente em publicado em 01/06/2009 como <www.partes.com.br/cronicas/mhulsendeger/anjosedemonios.asp>

 

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS

Ficção é uma coisa extraordinária. Uma boa narrativa tem a capacidade de nos levar a universos nunca antes explorados. Uma história bem contada mantém o leitor preso até a última página, numa expectativa que beira quase ao fanatismo. Essa, no entanto, não é uma tarefa fácil de se atingir, muitos escritores já a tentaram e fracassaram. Contudo, quando isso finalmente ocorre, podem ter certeza, estaremos diante de um best-seller. É o que tem conquistado com seu trabalho um dos escritores mais lidos e comentados do momento: Dan Brown.

Seus livros exploram o imaginário popular, trazendo à luz temas que, em condições normais, não seriam debatidos. Foi assim com o famoso e polêmico “O Código da Vinci”. De forma ousada, ele colocou em debate o dogma mais protegido e resguardado da Igreja Católica: a face humana de Jesus Cristo. Pior, trouxe para baixo dos holofotes uma figura que, no Novo Testamento, sempre foi considerada uma personagem menor: a pseudoprostituta Maria Madalena. Com todos esses ingredientes, não preciso lembrar a polêmica provocada; gerando, inclusive, uma série de protestos da ala mais conservadora da Igreja.

O filme, no entanto, foi uma grande decepção (aliás, como a maioria dos filmes baseados em livros). Tom Hanks, encarnando o personagem principal Robert Langdon, não convenceu, mostrou-se apagado e eu diria até um pouco esquisito. Nada a ver com o homem descrito no livro. O filme foi insosso; o livro, eletrizante.

Agora temos um novo livro de Dan Brown em exibição nos cinemas: “Anjos e Demônios”. E, outra vez, temos presente o debate sobre temas não só complexos, mas também um tanto quanto herméticos para o leitor comum. Para os que não conhecem a obra de Dan Brown explico: “Anjos e Demônios” não é uma continuação do Código da Vinci. Ao contrário. Este último, na linha do tempo construída pelo autor, é que se tornou uma continuação do primeiro No entanto, independente da ordem cronológica das duas obras, ambos os livros têm um ponto em comum (incluindo, é claro, o personagem principal Robert Langdon): trazem à baila dogmas e segredos da Igreja Católica. Desta vez, não é o Santo Graal, mas uma sociedade ultra-secreta, chamada Iluminnati, que deseja derrubar a qualquer custo essa instituição milenar.

A fórmula é a mesma: assuntos polêmicos e muita, muita, ação. Contudo, o que tornou, para mim, a leitura mais interessante foi o fato de a Física estar incluída entre os personagens principais. Isso já se percebe no início da trama quando, ao invés de um diretor de museu, um físico de um dos maiores centros de pesquisas do mundo – o CERN – é encontrado assassinado. Um início dramático para uma história que mistura segredos religiosos com ciência de ponta.

Durante a leitura, as pessoas que nunca ouviram falar sobre Física de Partículas tomam conhecimento de um centro de pesquisas onde partículas (prótons, nêutrons e elétrons) constituintes do átomo são aceleradas a altas velocidades em aparelhos de grandes dimensões (alguns do tamanho de uma pequena cidade, como é o caso do aparelho do CERN), chamados aceleradores de partículas. O leitor tem, então, a oportunidade de conhecer – mesmo que superficialmente – não só alguns elementos dessa pesquisa (o conceito de anti-matéria, por exemplo), como também o trabalho realizado pelos cientistas que ali atuam; algo que, em condições normais poucos ficariam sabendo. Ponto para Dan Brown.

No entanto – sempre há um! –, como a ficção não tem compromisso com a verdade cientifica, em alguns momentos o autor se perde, provocando um pouco de confusão e até alguns equívocos. Para os ortodoxos, isso é intolerável. Eu, entretanto, sou mais condescendente. Acredito que o importante é despertar o interesse para esses temas, depois cabe a cada um buscar as informações pertinentes esclarecendo, assim, aqueles pontos que ficaram em aberto ou mal explicados.

“E aqueles que não têm interesse em ir adiante? Eles vão ficar com as informações erradas?”, alguém poderá perguntar. Do meu ponto de vista, esses, em uma semana – quem sabe menos –, terão simplesmente esquecido o que leram e o livro irá, com certeza, acumular pó em alguma prateleira. Contudo, para aqueles poucos nos quais a leitura realmente despertou curiosidade, haverá a chance de verem o seu conhecimento avançar, lendo livros mais especializados ou consultando a internet sobre tudo aquilo que lhes chamou a atenção. Ponto para Dan Brown.

De minha parte, para concluir, não quero entrar no mérito se a obra de Dan Brown é baixa ou alta literatura. Ou, se por ser um escritor de best sellers isso o diminui frente a outros autores mais importantes. Eu, como leitora, gostei imensamente de lê-lo, é uma leitura atrativa e emocionante, obriga-nos ir até a última página, mesmo que para isso tenhamos de sacrificar algumas horas de sono. Como professora de Física, me parece que o autor cumpriu um papel. Misturando ficção com realidade, apresentou ao público o universo fascinante, mas totalmente desconhecido, do trabalho cientifico. Pode ser que suas informações não sejam as mais exatas ou corretas, mas, graças à leitura do livro (desencadeada pela sua exibição nos cinemas), muitos alunos têm-me procurado para saber mais sobre o CERN, a Física de Partículas e sobre o trabalho científico em geral. O que mais, como leitora e professora, eu poderia querer? Portanto, concluo dizendo: ponto para Dan Brown[1].

[1] A autora quando escreveu essa crônica ainda não havia assistido ao filme baseado no livro “Anjos e Demônios”. Ela espera, no entanto, que desta vez ele faça jus ao livro, com o ator Tom Hanks parecendo menos esquisito.

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