Uma Viagem Para Os Anos 80

Fernanda Gabriela Soares dos Santos* e Icaro Bittencourt**[1]

publicado em 02/06/2009

www.partes.com.br/cultura/anos80.asp

“Anos setenta não deu pra ti

E nos 80 eu não vou me perder por aí…”

Horizontes – Elaine Geissler

Icaro Bittencourt é graduado em História-Licenciatura Plena e Bacharelado pela UFSM e mestrando em História pela UFRGS. Bolsista do CNPQ – icarohistoria@gmail.com

Quem nunca teve nostalgia de uma época? Sobretudo quando a referida época nos remete à juventude? Quem, como nós, passou a infância com os últimos resquícios de anos 80, sendo cúmplices de uma geração que assistiu ao fim de uma ditadura, a abertura política, a volta de muitos artistas? Isso, apenas, para se desenhar o panorama político. Período que foi muito efervescente na produção musical e poética, com vários artistas se consagrando.

Enquanto retrato de uma juventude que ao olhar de nossa geração parece quase tão inocente que a transgressão é sair para namorar à noite no carro, a imperdível peça Bailei na curva, esteve mais uma vez (em fevereiro deste 2009) em cartaz em Porto Alegre, no belíssimo Theatro São Pedro.

 

 

Bailei na curva fez parte de um processo de renovação teatral em Porto Alegre, relacionado a uma frutífera criação artística coletiva ocorrida mesmo em meio à censura do regime civil-militar criado em 1964. A geração de atores e diretores da época buscou superar o mimetismo das remontagens de peças consagradas no eixo Rio-São Paulo (para onde foram muitos dos bons artistas gaúchos desde a década de 1960) procurando produzir roteiros e espetáculos originais, baseados numa identificação com o cotidiano das pessoas e com um enraizamento na realidade local.[2]

Fernanda Gabriela Soares dos Santos é professora de Filosofia da Rede Municipal de Formigueiro, RS e mestranda em Educação pelo PPGE/UFSM-
fernandagssantos@yahoo.com.br

Segundo Júlio Conte, entre os anos 1960 e 1970, a produção teatral em Porto Alegre girava em torno principalmente do Grupo Província, liderado por Luís Arthur Nunes e pelo Teatro de Arena, criado por Jairo de Andrade, mais tarde, após o fechamento, sobrevivendo como a Sala Qorpo Santo. Ambos os espaços de criação primavam pela criação coletiva do roteiro e pela liberdade de expressão no teatro.

Um momento importante na vida teatral da capital gaúcha foi a montagem da peça School’s Out pelo Grupo Vende-se Sonhos, que mesclava criação coletiva e improvisação, criando o Teatro da Identificação e trazendo à tona a linguagem urbana de Porto Alegre. O grupo ainda estreitou os laços com o cinema produzido por Giba Assis Brasil e Carlos Gerbase, como no filme Deu pra ti anos 70 e, a partir destas experiências, surgiram os grupos Balaio de Gatos e Do Jeito Que Dá, este último o idealizador da peça Bailei na Curva.

Assim, como dito anteriormente, a criação de Bailei foi a culminância de um processo de profissionalização, reflexão e criação autoral do teatro em Porto Alegre, perspectiva que foi influenciada pelas experimentações do Grupo Asdrúbal Trouxe o Trambone (formado, entre outros, por Regina Casé, Luís Fernando Guimarães, Evandro Mesquita, Patrícia Travassos e pelo diretor Hamilton Vaz), que esteve em Porto Alegre e deixou como resultado de seu curso a preocupação com a dramaticidade e com a empatia popular na elaboração do roteiro.

Influenciado por estas ideias, Bailei na curva estreou no Teatro do IPE em Porto Alegre no dia 1º de outubro de 1983, sendo, desde então e a despeito das mudanças no elenco, um sucesso de público e de crítica. Percorreu diversas cidades do estado do Rio Grande do Sul e teve quase que uma adaptação em cada estado brasileiro. Como reconhecimento da crítica foi vencedor do tradicional Troféu Açorianos (da prefeitura de Porto Alegre) e, como um dos símbolos da identificação do público com a peça, a música-tema Horizontes (que consta como epígrafe desse texto), composta por Flávio Bicca Rocha, tornou-se um sucesso nas rádios locais.

Citando as palavras de Júlio Conte, um dos principais participantes do Grupo Do Jeito Que Dá e diretor do espetáculo, destacamos as principais características de Bailei na Curva:

Traçando a trajetória de uma geração que cresceu sob o silêncio do golpe militar, Bailei foi a voz rompendo a emoção. Aprofundou o tema da identificação, mesclou a sátira com o engajamento, a comédia com o drama, a gargalhada com a lágrima. Manteve a característica básica da improvisação, mas propôs uma estrutura dramática mais complexa, buscou a articulação do cotidiano com uma dramaturgia competente.

Bailei na curva foi de certa forma o clímax de um processo grupal, pois sintetizava os acertos formais de uma geração através da criação coletiva e acrescentava à jovialidade da encenação a maturidade temática com um olhar crítico e emocionante sobre os anos da ditadura. Misto de denúncia e descarga, o Bailei mostrava, ao mesmo tempo, a criatura monstruosa de um sistema perverso e, de forma paradoxal, o criador sobrevivendo numa insistente esperança. A história não-oficial do País, tendo como narradores sete crianças, foi uma catarse coletiva. O maior público da história do teatro gaúcho de todos os tempos.[3]

Pra quem não conhece a peça, ela mostra algumas décadas na vida de um grupo de jovens culminando nos anos oitenta. O interessante de ver a marca temporal acontece não somente nas falas, como também nas roupas, nas músicas, nas imagens projetadas ao fundo.

E quando aparece a passagem de tempo nas falas, podemos perceber os anos passando através das modificações de gírias. Texto muito bem construído e engraçado, elenco habilidoso que nos faz rir e chorar. Não fica cansativo nunca e acaba com um gosto de quero mais, de querer continuar vendo, de ser tão bom que não queremos que acabe.

Na montagem da peça constam apenas o palco nu, algumas cadeiras e, claro, os atores. A partir desses elementos são reconstruídas cenas da vida escolar, familiar, amorosa e política das personagens. Tudo isso permeado pelas experiências de uma juventude espremida entre os anos de maior intensidade do terrorismo de Estado brasileiro e as primeiras experiências de abertura política.

E é justamente esse caráter do roteiro e da peça, de sintetizar a experiência e o imaginário de uma geração e sua juventude, que nos proporciona uma reflexão sobre as possibilidades que uma produção artística eivada de marcas temporais tem em transpor seus significados para outros contextos.

Esta é uma reflexão ainda mais importante se pensarmos na utilização pedagógica de produções artísticas como filmes, livros, músicas e mesmo peças de teatro. Qual a pertinência do contato dos educandos com obras reconhecidas especialmente por seu teor “histórico”? Como sensibilizá-los para que pensem em determinada produção artística com uma identificação crítica, desencorajando tanto um completo estranhamento ou uma valorização acrítica da mesma, apenas por ter sido relevante em determinado período?

Quem nunca sentiu um aperto no coração ao assistir o musical Hair? Dois professores da Universidade Federal de Santa Maria, do curso de Pedagogia, há alguns anos atrás exibiram Hair para alunas que estavam ingressando no curso. Resultado nulo, as alunas disseram não entender e nem gostar. Uma professora do estado de Santa Catarina fez o mesmo exercício com suas alunas do curso de Magistério: exibiu o musical para as alunas. Também elas reclamaram do filme.

Um tempo depois, a professora do estado e os professores universitários nos questionaram porque achávamos que o filme não tinha trazido o efeito desejado. Ao nosso ponto de vista, por um motivo muito claro: o significado que o filme traz a estes professores não é o mesmo que proporciona às alunas. Como toda a obra de arte carrega consigo marcas de seu tempo e desperta em cada espectador sentimentos diferentes.

A geração atual não cresceu como a nossa ouvindo críticas sobre a Guerra do Vietnã, se para nós já se constituía enquanto um evento longínquo, imagina para uma geração que só tem presente os conflitos com o Iraque? Como explicar o que sentíamos ao ver aqueles jovens cantando, pedindo paz, dançando nus? Como explicar o marco de uma geração?

Quando o filme não é contextualizado, talvez não faça sentido nenhum exibir. Talvez para um adolescente de dezesseis anos Bailei na curva também passe despercebido, pois as piadas, as gírias e a roupas em nada remetem ao tempo vivido dele. Talvez também na arte que escolhemos para nos deleitar precisemos de um pouco de nostalgia e identificação, pois não escolhemos uma cultura que passa.

 

 

 

Quando nos debruçamos a olhar a nossa própria história, também nos damos conta do quanto estamos atreladas a arte enquanto pertencendo a um determinado momento significativo para nós. Quem não se lembra, de forma nostálgica, dos seriados que passavam à tarde durante a infância, ditando moda e modismos, dos desenhos preferidos, das novelas.

E é justo essa sensação que nos distingue enquanto humanos, essa relação que fazemos cotidianamente com a nossa própria temporalidade, que nos faz relacionar fatos e até mesmo subtrair alguns que não trazem lembranças tão glamourosas. Assim como a evocação de determinados acontecimentos é singular, também é imperativo o esquecimento de outros. Quem de nós não quer esquecer de algum momento da vida e extingui-lo para sempre da memória?

*Professora de Filosofia da Rede Municipal de Formigueiro, RS, mestranda em Educação pela UFSM, membro do GEPEIS (Grupo de Pesquisa em Educação e Imaginário Social).

** Licenciado e Bacharel em História pela UFSM, Mestrando em História pela UFRGS, Bolsista CNPq.

[2] CONTE, Júlio. Em busca de uma genealogia. In: GONZAGA, Sergius; FISCHER, Luís Augusto. Nós, os gaúchos. Porto Alegre: UFRGS, 1992.

[3] CONTE, op. cit., p. 219.

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